Dor crônica via bullying

Dor crônica via <em>bullying</em>

Feridas psicossociais podem doer mais do que as físicas. Elas são invisíveis e a mente jamais as esquece.

“Bullying e estresse geram as mesmas reações químicas que alimentam a dor crônica.”

David Hanscom, cirurgião especializado em coluna
Bullying na escola? Não, não estou falando da eventual dor do seu filho(a), ou de qualquer criança. Mas da sua eventual dor se e quando não for aceito(a) nos currais sociais que hoje a internet coloca à disposição de qualquer um.

Eis um fenômeno de nosso tempo inspirado pela necessidade humana mais antiga: a de pertencer. Ela existe desde que o primeiro primata se deparou com o segundo, eu acho. Pertencer a um grupo, onde ser mais um equivale a ser alguém.

A partir do momento que você tem que pedir para ingressar em algum grupo, seja um clube ou a página de alguém no Facebook, você fica exposto a sofrer uma rejeição: o chamado social bullying, que implica em ferir a reputação ou as relações interpessoais de outrem.Não importa se quem fecha a porta tem razão, ou direito, o cérebro do afetado interpreta isso como exclusão social e, não raro, manda a dor se instalar em algum lugar do seu corpo.

Como assim? A dor social gera dor física?

Exatamente. Ambos os tipos de dor estão intimamente relacionados porque tem o mesmo propósito: proteger o todo, o organismo, o body-self… como quiser chamar. A dor física alerta: “Cuidado com o fogo! Tira a mão daí!”; enquanto a dor emocional adverte: “Não se aproxima de Fulano(a), que é tóxico(a)”.

“Cicatrizes sociais podem ser piores que as físicas: são invisíveis e a mente nunca esquece.”

Dr. Kip Williams, MD, Professor de Ciências Psicológicas, Purdue University
Além disso, não se engane, a dor física dói, e a dor social também dói. Dói de doer mesmo. Neurocientistas apontam que sentir-se socialmente excluído ativa as mesmas regiões neurais que a dor física – a Ínsula Anterior e o Córtex Cingulado Anterior. Até gatilhos triviais, como o de receber um olhar de desaprovação ou pensar no término de uma relação, aumenta a atividade naquelas regiões cerebrais.1

“Indivíduos que são mais sensitivos à dor física também são mais sensitivos à dor social – e vice-versa; e os fatores que aumentam ou diminuem um tipo de dor alteram o outro de maneira similar.”

Dra. Naomi Eisenberger, The Neural Bases of Social Pain2
Então a dor emocional dói tanto quanto a dor física? Não, dizem outros cientistas. Dói mais. A razão é simples: a dor física passa (se não for crônica, claro), enquanto a dor emocional pode ser revivida milhares de vezes pelo resto da vida. A dor física é tomar consciência de algo que acontece agora; a dor social possui a característica única de ser memorizada, e depois recuperada mesmo à revelia do hospedeiro.3

“Os humanos podem reviver e re-experimentar dor social mais facilmente e com maior dano cognitivo que com o dano físico.”

Prof. Meghan L. Meyer, Darmouth College
Essa última frase –“…mesmo à revelia do hospedeiro”– é crucial para entender a dor inexplicável, ou crônica, na opinião de alguns cientistas. Aquela diante da qual o médico diz que pode ser qualquer coisa, ou que a coisa está na sua cabeça, segundos antes dele(a) dar a consulta por encerrada – e que afeta a metade dos que padecem de dor crônica.

“E por que não estamos sempre sofrendo por causa de lembranças de traições e outras formas de dor social? Porque somos muito bons em manter essas memórias sepultadas”.

Dr. Kip Williams, MD, Professor de Ciências Psicológicas, Purdue University
Dor Crônica - O Blog das Dores CrônicasA suspeita, então, é a de que ao longo da vida o cérebro, ou a mente, guarda no subconsciente todas as experiências ruins já vividas no intuito de manter esse material tóxico longe da consciência. Simplesmente porque se ele vier à tona, o body-self seria aniquilado. Para evitar essa possibilidade, como distração, ele, o cérebro, manda a dor acontecer em algum lugar do corpo. (Isso, repito, no caso da dor crônica, a qual, diferente da dor aguda, não protege nem tem causa conhecida.) Ou seja, mesmo que a pessoa não queira, ela pode sofrer dor física por conta de emoções ruins acontecidas no passado. (Daí que a recolecção do ocorrido na infância ocupe um papel central na psicoterapia.)

Moral da estória: próxima vez que pedir para ser adicionado a um grupo no Whatsapp, ou no Instagram… pense duas vezes. Isso pode lhe causar uma dor de dente.

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