Dor fantasma 2.0

Dor fantasma 2.0

Não é fácil entender que uma dor lombar crônica é real e psicológica ao mesmo tempo, e que por isso o caminho da recuperação exige mais envolvimento do portador do que de médicos e fisioterapeutas. Comece por aqui.

“Só porque você não entende, não significa que não é assim”.

Lemony Sicket
Num outro vídeo eu explico – recorrendo a portentosos aportes cinematográficos, inclusive – porque a dor fantasma é um bom pretexto didático para explicar ao paciente com dor crônica alguns aspectos-chave da nova neurociência da dor.1 E porque isso é importante para ele.

Mas talvez isso não tenha ficado suficientemente claro, reconheço. Entender que uma dor lombar crônica, por exemplo, é real e psicológica ao mesmo tempo, e que por isso o caminho da recuperação requer muito mais envolvimento do portador do que de médicos e fisioterapeutas, não é um passeio no parque.

Volto à carga, então. Dor Fantasma 2.0.

O fenômeno da dor fantasma assustou muita gente ao longo dos séculos, considerando que com tantos motivos – guerra primeiro, trânsito depois – nunca faltou amputado se queixando disso. A causa, desde sempre se pensou, seria psicológica. Até o advento da neurociência e das técnicas de imagem. Hoje várias interpretações, mesmo algo divergentes, dizem ela ser neurofisiológica. Vejamos,

  • Cientistas canadenses suspeitam que o distúrbio se deve a má neuroplasticidade – a capacidade do cérebro mudar com o tempo. “Depois da amputação, a representação da parte do corpo ainda existe, como um tipo de memória sensorial. Mas o mapa fica distorcido e, segundo algumas pesquisas, é essa reorganização que está relacionada à dor”. Noutras palavras, quando a tal reorganização neural não dá certo, dá-se a dor.
  • Colegas britânicos A amputação de fato provoca mudanças no cérebro, mas a dor seria causada por “…uma desregulação no sistema sensório motor dos amputados. Como o mapa cerebral mantém a representação perfeita do órgão extirpado, o cérebro ‘pensa’ que a parte do corpo removida ainda está lá. Com isso, manda ordens para que ela se movimente ou experimente sensações, como coceira e ardência. Mas, como esse membro só existe no mapa mental, a ordem não pode ser obedecida. A interação entre estímulo e resposta é desregulada e, em consequência, o paciente sente dor.”

De qualquer maneira, então, a causa da dor fantasma nada teria de psicológica. E então o mesmo poderia se pensar de quaisquer outras dores.

Conclusão errada, a meu ver. Qualquer dor é o produto de uma constelação de sistemas e subsistemas orgânicos que hoje é estudado sob o nome de psiconeuroimunoendocrinologia, a disciplina que estuda as funções inter-relacionadas dos órgãos e glândulas que regulam o nosso equilíbrio comportamental e fisiológico.

“A  divisão conceitual entre as ciências da imunologia, endocrinologia e psicologia/neurociência é um artefato histórico”

Candace Pert, neurocientista
Nenhum exame de ressonância magnética então pode descartar que o amputado, ao sentir dor, qualquer dor, não inclua entre os determinantes uma mágoa, um trauma, ou uma memória ruim. E provavelmente sem se aperceber disso, por estar tudo no seu subconsciente. Qual seria o peso relativo disso na intensidade da dor? Até hoje, ninguém sabe. Portanto, ninguém pode negar a tese de que a dor crônica tem um forte componente psicológico. E a minha percepção como paciente crônico de muitos anos: que a maioria dos profissionais da saúde trata seus pacientes crônicos como os cientistas canadenses e britânicos antes mencionados. Ou seja, mantendo isso fora do quadro… como se não soubessem disso, ou não desejassem levá-lo em conta.

Eu penso que essa omissão prejudica o paciente com dor crônica nas costas não específica, por exemplo. A existência da dor fantasma prova que o cérebro pode gerar dor sem causa concreta, estrutural… Talvez por existir uma memória dolorosa, ou por qualquer outra razão misteriosa… mas o importante, para esse paciente, que não conseguia dormir pensando em que algo de muito errado havia em seu corpo para lhe causar dor persistente, é que isso é uma esperança. Uma possibilidade, primeiro, de se sentir livre de algo mais sério, e segundo, de encontrar alívio além da biomedicina – que provavelmente até agora não o levou a parte alguma. E não se engane, sobram evidências de que essas duas convicções, juntas, funcionam como terapia.

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