A dor na terceira idade: entrevista com a Dra. Vilma Camara

A dor na terceira idade: entrevista com a Dra. Vilma Camara

O idoso “pra frente”, que tem bom humor, uma visão diferente do processo de envelhecimento, aceitando esse processo, vive melhor. Você já sabia disso, claro. Agora leia aqui por que isso é vital.

“Para mim, envelhecer está ótimo. A melhor coisa do mundo – considerando a alternativa”.

Michael Caine

Semana passada entrevistamos a Dra. Vilma Camara, geriatra e doutoura em Neurologia, Profa. Emérita da Academia de Medicina do Estado de Rio de Janeiro e diretora científica da Associação Brasileira de Alzheimer. O tema: “A DOR NA TERCEIRA IDADE”. A entrevista será apresentada, sinteticamente, em dois posts. Este é o primeiro deles.

“A maioria das pessoas acredita que o envelhecimento é doloroso e sabemos que a dor é causada por doenças evitáveis ​​e não pelo envelhecimento”.

– Deepak Chopra

DORCRÔNICA: Qual a relação entre dor crônica e distúrbios mentais (ansiedade e depressão) nos idosos?

Dra. Vilma: A dor é uma situação subjetiva, ela está relacionada com a pessoa, com a personalidade, com a capacidade de tolerância da pessoa. Tem autores que dizem que há somatização da dor, ninguém sente dor igual. Cada um tem sua intensidade de sentir dor. Me parece que a personalidade da pessoa influencia nisso. Se o idoso sofre o processo de solidão, principalmente quando está deprimido, há uma exacerbação da dor. Existe relação muito próxima entre depressão e dor. Se está deprimida, sente mais a dor com mais intensidade. A pessoa que está com dor não se sente bem, então gera uma ansiedade de querer se livrar da dor, do mal-estar. Está incomodando a sua relação com as outras pessoas. Quem tem dor não tem bem-estar. O grande problema de ter dor é não ter bem-estar.

DORCRÔNICA: Isso nos idosos é mais potencializado?

Dra. Vilma: Depende do estado psíquico do idoso. Se tem um idoso que tem estado psíquico bom, que não sofre processo de solidão, não se sente rejeitado pela família, ele reage melhor. Mas é claro que a dor é mais frequente nos idosos, ele é que sente artrite, sente artrose. Sabemos que a diminuição da mobilidade leva a um envelhecimento mais precoce das articulações. Quanto menos se mexe, mais chances de ter artrite, de ter artrose, a funcionabilidade das articulações fica prejudicada e passa a ter mais dor. Aí passa a ser um círculo vicioso: ele diminui a funcionabilidade, diminui a mobilidade, sente mais dor, o processo de artrose fica mais frequente. Mas se é um idoso pra frente, um idoso que tem bom humor, uma visão diferente do processo de envelhecimento, aceitando esse processo, ele flui melhor. Quanto mais deprimido, mais isolado, mais sentir solidão, ele piora.

DORCRÔNICA: Nos consultórios, a senhora acha que os médicos dão toda a informação sobre dor crônica que eles poderiam?

Dra. Vilma: A demanda de dor nos consultórios é muito alta. Os pacientes procuram muito os consultórios com dor. E, infelizmente, tem profissionais que não valorizam o paciente, a gente tem que escutar mais os pacientes. Com o idoso a gente precisa ouvir mais, saber que há uma estrutura diferente, psicologicamente, a farmacodinâmica (como os remédios agem no indivíduo) é diferente, a farmacocinética (como o remédio se movimenta) também. O médico precisa entender isso e explicar para o idoso. Hoje, por exemplo, sabemos que existem métodos alternativos para auxiliar a dor. Se o médico for muito rígido, ele não vai indicar por exemplo uma acupuntura, porque não acredita. Não vai indicar um osteopata, que hoje em dia está sendo muito usado. O médico hoje em dia tem que ter essa visão, que a dor crônica é ruim, diminui o potencial de vida de qualquer pessoa, faz com que a pessoa não fique bem no contexto social e no contexto psicológico, então tem que escutar muito o idoso que tem uma série de carências. O profissional tem que ter um aprendizado para lidar com essas pessoas com dor crônica, tem que ter esclarecimento, tem que saber das terapias alternativas.

DORCRÔNICA: Qual o limite entre dor aguda e dor crônica?

Dra. Vilma: A dor aguda é um processo local e naquele momento: o indivíduo não tinha nada e subitamente começa a sentir. Como a hérnia de disco, por exemplo, ele não tinha nada, sai daquele quadro agudo e pode recuperar quando medicado. Já a dor crônica é uma dor de doenças crônicas, como a dor do câncer, a dor de quem tem artrite reumatoide, osteoporose, fibromialgia. Ele tem uma doença crônica e essa dor permanece junto o tempo todo, acompanha a vida do paciente, junto, geralmente, com uma doença sistêmica.

Na segunda parte da entrevista, a ser publicada na próxima semana, A dra. Vilma discorre sobre a dor e a memória, o uso de cannabis e o envelhecimento na mulher, entre outras coisas. Não perca.

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