Dor nas costas: exercícios que o seu fisio nunca vai indicar

Dor nas costas: exercícios que o seu fisio nunca vai indicar

Manter-se em movimento é ingrediente obrigatório de um tratamento de dor nas costas. A praxe é um fisioterapeuta indicar que exercícios fazer, o que está correto. Porém, isso é suficiente? Amiúde o medo da dor faz o paciente resistir ou desistir. Veja aqui um complemento que funciona, não tem custo e qualquer pessoa sensata e disposta a enfrentar a dor pode incorporar.

“Quem não tem cão, caça com gato”.

Ditado popular

O seu médico ou médica já lhe recomendou se manter ativo(a), fazer exercícios, junto com fazer dieta, dormir bem e tome-aqui-essa-prescrição de Advil?

Afinal, qual era a sua queixa? Dor nas costas. Onde dói mais? Quando? E desde quando?  Inquirido ou não sobre essas coisas, o seu roteiro a seguir é sempre o mesmo se nada sério for descoberto:

“Faça exercício, evite comer coisa ruim, cuide do sono… etcétera.”

Vamos nos manter ativos, então. Porém, fazendo o quê… exatamente?

Pois é. Exatamente, porque você é advogado(a), arquiteto(a) ou marceneiro(a)… e nada sabe de anatomia, nem de respiração ou calistênicos… e cá para nós, no fundo, nem imagina como TUDO isso vai aliviar a sua dor.

Manter um nível de atividade e exercício físico é um bom conselho frequentemente dado a pacientes com dor musculoesquelética crônica, mas muitos deles preferem passar pela farmácia. A razão? Ah, eles não têm instruções sobre o que fazer. Precisam de um fisioterapeuta, e isso custa dinheiro, tempo e talvez horas no trânsito. Muito complicado. É isso?

Eu não acho. Esses são pretextos, álibis emocionais justificando fazer nada apesar da dor – ou melhor, por conta da dor. O “X” da questão, na cabeça do paciente típico, é que é preferível uma dor conhecida que outra por conhecer. Esta última, a dor que ele pensa ganhar se exercitando.

Os pacientes com dor crônica nas costas acham a atividade física dolorosa e, consequentemente, hesitam em se mover.

A deficiência parece estar associada ao medo da dor e, portanto, deveria fazer parte da consulta médica:

  • investigar se as crenças e atitudes dos pacientes em relação a dor – e ao medo da dor –
  • suportam o solicitado deles em matéria de movimento, exercícios…
  • explicar como o medo da dor afeta a atividade física; e
  • orientar sobre como permanecer ativo, apesar da dor.


Alice no País das Maravilhas? Tudo isso, durante uma consulta que, no Brasil, na atenção primária está entre 6 e 7 minutos – e deveria ser idealmente entre 30 e 60 minutos? E considerando que a consulta-padrão atualmente NÃO inclui os três pontos antes mencionados?

Um sonho, claro. Então, cabe ao paciente com dor crônica se virar… e tentar resolver um problema que é seu, por si mesmo.

“Nenhuma quantidade de invenção habilidosa pode substituir o elemento essencial da imaginação.”
Edward Hopper

Foi o que eu fiz. De cara, lendo sobre dor, descobri que eu não estava louco em decidir autogerenciar o meu tratamento analgésico. Aquilo já era o objetivo de entidades sérias como o National Health Service britânico, ou a Mayo Clinic (eleita várias vezes a melhor dos EUA). A dor crônica é uma dor para toda a vida e é caríssimo para a sociedade e inútil para o paciente tratá-la como se fosse uma gripe ou uma dor de dentes. A diretriz é fornecer ao paciente recursos para ele próprio assumir seu tratamento. (O que não significa dispensar apoio médico, porém isso eu explico noutra ocasião.)

Animado, então, mudei um monte de coisas na minha vida: estressores, ergonomia, horários, medicação… e quanto ao exercício físico, agreguei à rotina que mantinha há anos um programa de recuperação de “atividades com movimentação limitada pela dor.” Made in casa, by me mesmo.

Vestir as calças, camisa e casaco, entrar e sair do carro, subir e descer escadas, sentar e levantar da mesa de jantar, digitar no PC, caminhar… Ou seja, nada a ver com correr uma meia maratona, levantar 50 kgs, ou sequer jogar uma partida de pingue pongue. Somente coisa básica, atividades cotidianas e necessárias, todas elas.

Na minha mente (eu não usei agenda, check list ou coisa parecida porque tanta organização me deixaria mais doente ainda), fixei o limite de movimento de cada atividade em que a dor era anunciada, e depois fui testando superá-los minimamente. Minimamente, porque eu não tinha como calcular o perigo representado por forçar um movimento além do razoável. E cada teste significava dor. E por fim, eu podia me machucar, e toda a recuperação ir para o espaço.

Mas eu conheço o meu corpo melhor do que qualquer médico… e acima de tudo desejava ardentemente me livrar da maldita dor. Havia que arriscar, mesmo que a audácia se limitasse a calçar os sapatos ou escovar os dentes.

Fato é que, centímetro a centímetro, dia após dia, num trabalho de formiguinha chinesa, eu fui recuperando movimentos. Hoje eu sou uma enciclopédia de dores ambulante, porém, nenhuma delas me imobiliza, ou sequer me complica.

“Assim como desfrutamos das invenções de outros, devemos servir os outros com qualquer invenção nossa, e devemos fazê-lo de maneira livre e generosa.”

Benjamin Franklin

Longe de mim aconselhar alguém a seguir os meus passos. Cada qual que ache o próprio caminho. Mas eu aprendi alguma coisa no ensejo e seria um desperdício não comunicá-la a quem vive com dor e não sabe como sair dessa. Até porque o recurso mais crítico e imediato de um programa de alívio da dor crônica autogerenciado é a informação, no caso, destinada a derrubar crenças e atitudes (equivocadas, alarmistas, catastrofistas) sobre a dor. Essas crenças (“A dor diz que eu estou doente”; “As minhas costas são frágeis”; “O doutor mandou eu ficar de repouso”; “Se eu forçar é certo que vou me machucar”) imobilizam a pessoa através do medo da dor, e uma vez paralisado o corpo, o que se segue é frustração e ansiedade, hipervigilância, incapacidade e depressão – provavelmente nessa ordem.

A questão fundamental é transformar a dor que imobiliza, de um sinal de perigo para apenas um lembrete de que é preciso moderar o movimento.

E jamais permitir que o movimento se acomode à dor adotando padrões anormais, os que, uma vez consolidados, apresentam dois problemas: o primeiro, você perdeu a guerra sem sequer dar o bom combate (ruim, para o ego de quem já está psicologicamente combalido); e o segundo, que com certeza haverá mais dor no futuro.

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