Dor no carnaval. Pode uma coisa dessa?

Dor no carnaval. Pode uma coisa dessa?

“Deus nos colocou aqui, neste passeio de carnaval. Fechamos nossos olhos sem nunca saber onde nos levará em seguida”. Eis a declaração poética de um folião. Porém, e se por fechar os olhos ele acabar no Pronto Socorro sofrendo com uma lesão incapacitante e uma dor inesperada? Bem-vindo ao mundo real. Previna-se.

“A vida …é muitas vezes aleatória, estúpida e completamente inesperada, e…as revelações que acabamos recebendo dela raramente acabam sendo os que pensamos.”

Khaled Hosseini
“Bêbados de cerveja e preocupados com as prodigiosas possibilidades carnais, jovens homens e mulheres dançaram ao longo da Avenida Oceânica enquanto ícones pop brasileiros tocando em gigantescas torres motorizadas os exortavam a pular, festejar e celebrar a vida.”

Eis a descrição dionisíaca que o New York Times fez do Carnaval de Salvador em 2016 (Brazilians Shrug Off Zika Fears to Revel in Carnival Fun).

Ela apresenta um equívoco, e não me refiro às “possibilidades carnais” que talvez não sejam tão prodigiosas assim. A conferir. O meu ponto é outro: não são apenas jovens homens e mulheres. Mas gente de todas as idades, incluindo não-tão-jovens e crianças.

Portanto, as possibilidades de se machucar aumentam infinitamente.

Confirme isso numa busca de informações sobre o Mardi Gras, o Carnaval de New Orleans. Dentre os sites focados no evento, metade deles são de hospitais e escritórios de advocacia, os primeiros interessados em prevenir e os segundos em lucrar com os que não prestaram atenção aos anteriores. (E note que em tamanho o Mardi Gras nem se compara ao do Rio, por exemplo. No King´s Parade, o evento central do Mardi Grass, participam em torno de 50 mil pessoas. No Carnaval do Rio, nesse ano haverá todos os dias uma média de 2 milhões nas ruas. Apenas na passarela do Sambódromo cabem 72.000).

Quais são as lesões mais comuns, fora as intoxicações, que costumam render apenas belas ressacas?

As musculoesqueléticas lideram. Pulsos quebrados, quadris e tornozelos, juntamente com vários graus de feridas periféricas que vão de arranhões a grandes lacerações. Em geral essas lesões ocorrem menos por causa do tumulto, e mais pela desatenção causada pela euforia.

Até lesões oculares são reportadas, a maioria consideradas menores, mas que representam desconforto, fim da folia e ao menos uma consulta ao oftalmologista.

A causa mais prevalente de tudo isso? A bebedeira, obviamente. Não raro, ela desemboca em intoxicação alcoólica, anunciada quando o sujeito já não mais consegue fazer “o quatro”.

“A maioria das lesões ocorridas na rota (dos desfiles de rua com carros alegóricos) são causados pelas coisas estúpidas que as pessoas fazem quando bêbadas”.

Dr. Jeff Elder, head of Emergency Medical Services for New Orleans.
Durante a Oktoberfest, em Munich, os hospitais tratam de um bêbado a cada 10 minutos. E não conseguem dar conta mesmo com as tendas de emergência que a Prefeitura espalha pela região do festival. (Procurei, porém não achei estatísticas comprovando que nos carnavais carioca ou baiano o panorama seja diferente. Qual é a sua estimativa?)

“Seria de grande interesse avaliar os custos desses atendimentos clínicos, cirúrgicos e de CTIs, para pesar na balança! Nas delegacias, é outro lugar onde se pode constatar essas consequências, além dos registros das mortes no IMLs decorrentes da violência pessoal ou dos acidentes de trânsito relacionados abuso de álcool.”

Outros perigos capazes de causar dor relacionados ao Carnaval são relacionados a carros: o carro que o folião dirige e o carro portando o trio elétrico que ele segue.

No Brasil, entre a noite de sexta-feira (9) e a madrugada dessa Quarta-Feira de Cinzas (14) do ano passado, uma centena de motoristas foram flagrados dirigindo sob efeito de bebida alcoólica. Sabe onde? Em Manaus, cuja população não chega a um terço da carioca.

“O Mardi Gras é chamado de “O feriado Mais Mortal da Louisiana” devido ao número de acidentes de trânsito na ocasião.”

Quanto a carros alegóricos, dois acidentes nos desfiles do grupo especial do Rio deixaram 32 pessoas feridas em 2017, três delas gravemente.

E nos blocos de rua? Pulando atrás do trio elétrico, os foliões se viram, esbarram uns nos outros, são empurrados… ingressando alegremente, e inconscientemente, numa catarse em que o espaço vital perde sentido. Inseridas num bloco, elas não se importam como nem para onde estão indo – ora, é Carnaval! – e podem atravessar a calçada sem olhar para os seus pés, fazendo-os entrar em um buraco ou tropeçar nos detritos da rua.

Ou num poste inusitadamente eletrificado, onde um estudante encostou no Carnaval paulistano em 2017.

“Quem tem mais chance de se machucar num Carnaval? Os mais jovens, os mais velhos, e os bêbados”.

Dr. Jeffrey Sketchler, MD, ortopedista, East Jefferson General Hospital.
E ainda tem outros perigos a espreita do folião desavisado: a queimadura do sol (quem é que vai carregar um frasco de protetor solar durante 8 ou 10 horas pulando num bloco de rua?); a desidratação (quem é que… idem, idem?); e por fim o que poderíamos chamar de “temeridade estúpida” (ou “estupidez temerária”, se preferir).

Os foliões pernas-de-pau existem há mais de 10 anos, em Salvador (principalmente) e no Rio. Hoje eles têm marchinha, bloco e muita esperança em coisas que não controlam – como latinhas (o cara da foto se acidentou tropeçando numa delas), bueiros e outros foliões que, ligeiramente alcoolizados, queiram trepar pernas de pau acima ou, por que não, esbarrar nelas “só para ver o que acontece”.

Artista com perna de pau derruba Lia Khey no bloco de Preta Gil – Artista pisou em latinha de cerveja e perdeu o equilíbrio durante o Bloco da Preta, neste domingo, 12, no Rio.

Certo, falar em perigo, acidente, dor em relação ao Carnaval é absolutamente fora do lugar. Porém, você já procurou atendimento num Pronto Socorro num dia de Carnaval? Aí sim dá para se sentir fora do lugar, eu lhe garanto.

Quer se precaver? Leia isso: “10 dicas pra não ficar na roubada no carnaval de rua do Rio de Janeiro”, de Vitor Paiva, publicadas no site hypeness.

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