A dor do luto: ela também pode ser aguda ou crônica

A dor do luto: ela também pode ser aguda ou crônica

A dor do luto se iguala a de pacientes que experimentam a dor psíquica que acompanha a depressão aguda, dizem os estudiosos. E a dor física de quem sofre de dor visceral, por exemplo, será que também se iguala? Ela pode ficar crônica? E se tal for o caso, como a biomedicina trata essa dor? Veja aqui algumas considerações infelizmente oportunas considerando tragédias recentes.

“Chorar é menosprezar a profundidade do luto.”

William Shakespeare, King Henry VI, Part 3

Nos dias posteriores às tragédias recentes ocorridas em Brumadinho e Suzano, a maioria de nós se fez uma simples pergunta:

“Quanta dor será que essas pessoas – pais, mães, irmãos… – estão sofrendo?”

E a resposta, também simples, é: não sabemos.

É que a biomedicina não aceita a dor emocional como um sintoma fisiológico. Confinada ao âmbito mental, a dor do luto clinicamente não existe. Como saber a respeito de algo que não existe?

Na prática e em geral, a maioria dos cientistas que estudam a dor e os doutores que tratam a dor consideram a experiência dolorosa um fenômeno estritamente físico, no sentido que pode somente ser causado por um ferimento ao corpo.

Ou seja, se você está ferido, a gente sabe o que fazer. Não há lesão? O exame de imagem deu em nada? Então só cabe lamentar, sou solidário, porém vai bater noutra porta, aquela com um letreiro que começa com “PSI”.

Isso está errado? Está, e por duas razões. Primeiro porque hoje há evidências científicas de que a dor emocional existe como dor, ela dói.

Segundo, porque embora haja como lidar com a emoção e seus efeitos deletérios na mente (ansiedade, depressão etc.), na prática, essa tecnologia desaparece quando os efeitos são físicos.

“A dor ocorre quando os receptores nas células nervosas na pele e nos órgãos internos detectam estímulos potencialmente nocivos, um beliscão, por exemplo, ou altas temperaturas. O nociceptores, em seguida, sinalizam o cérebro, que avalia a ameaça e coordena uma série de respostas protetoras. Puxamos o braço para longe da chama; descansamos a perna quebrada. Este sistema de alerta biológico é altamente eficaz. Ele impede mais danos e ajuda na cura, enfim, é algo sem o qual não podemos viver muito bem.”

Porém, o que acontece no caso de uma mãe que perdeu o filho em Brumadinho ou em Suzano? Ela não sofreu nenhuma lesão física. Oooops!

Segundo David Biro, médico americano, autor de The Language of Pain: Finding Words, Compassion, and Relief, a dor do luto se iguala a de pacientes que experimentam a dor psíquica que acompanha a depressão aguda. Ou a de pacientes com câncer (e seus pais) que experimentam o medo, a ansiedade e o isolamento esmagadores que acompanham os sintomas físicos de suas doenças.

“Seus nociceptores, pelo menos com respeito a estes sentimentos particulares, permanecem silenciosos, sem emitir nenhum sinal de aflição ao cérebro. Portanto, seus sentimentos não são realmente dor, mas algo categoricamente diferente, o que os profissionais preferem chamar de sofrimento ou angústia. E consequentemente, não se encontra nenhuma menção a sofrimento ou a depressão nos esquemas médicos de classificação da dor.”

A dor emocional com consequências físicas então, vai para uma espécie de Gulag patológico: existe, porém, é o mesmo que se não existisse.

Diga isso a quem já viveu a pena de perder um ser muito querido. Nos dias ou meses posteriores ao evento, ele ou ela provavelmente sofreu alguns dos transtornos seguintes e ainda não sabe o por quê:

As Dores Físicas que a Dor Emocional (provavelmente) provoca

1. Problemas Cardíacos

Existem riscos cardíacos específicos associados ao luto. Um estudo descobriu que a morte de um ente querido aumenta a chance de um ataque cardíaco. Há também uma síndrome temporária específica provocada por isso chamada poeticamente de “síndrome do coração partido”. Ela é causada por uma interrupção no sangue bombeado para uma parte do coração. (O nome técnico é cardiomiopatia de takotsubo – nada poético.)

2. Imunidade Baixa

Adultos mais velhos que sofrem de luto devido à perda de um cônjuge, não conseguem manter um equilíbrio do hormônio do estresse. Eles também são menos propensos a produzir alguns tipos de glóbulos brancos, propiciando infecções.

3. Dores no Corpo

O luto pode causar dor nas costas, dor nas articulações, dores de cabeça e rigidez. A dor é causada pela enorme quantidade de hormônios do estresse sendo liberados durante o processo de luto. Estes efetivamente “atordoam” os músculos que eles contatam.

4. Questões Digestivas

O luto faz sentir o estômago enjoado, assim como perda de apetite, compulsão alimentar, náusea e síndrome do intestino irritável.

5. Mecanismos de Enfrentamento Não-Saudáveis

Durante o processo de luto alguns podem recorrer ao consumo excessivo de álcool ou fumo, com efeitos duradouros no fígado e nos pulmões.

6. Problemas de Sono e Fadiga

A insônia é comum, ainda que temporária, naqueles que estão sofrendo…

A Dor do Luto e a Dor Crônica

E tem mais e pior. Para alguns o luto não acaba nunca. Memórias da perda do ente querido acendem os receptores de recompensa no cérebro. A pessoa vicia-se na tristeza e seguir em frente fica difícil. É como se a pessoa experimentasse a Síndrome de Estocolmo com a tristeza no papel do sequestrador. Um ciclo de luto extenso equivale a ter estresse crônico e este, sabe-se, está associado a dor crônica. Ou seja, um longo período de luto pode significar o risco de danos físicos e mentais.

“O que poderia ter sido um sintoma de curto prazo – dores no peito, dores no estômago ou problemas de sono, por exemplo – pode se manifestar de maneiras muito mais sérias. Estas podem incluir doenças cardíacas, distúrbios alimentares ou fadiga crônica.”

Em suma, a dor emocional (como a dor do luto) não apenas dói fisicamente no momento. Se repetida, ela pode resultar em dor crônica. (Até porque essa dor não acontece isoladamente, num vácuo. Distúrbios mentais como a ansiedade, a raiva e a depressão, quase sempre a acompanham.)

A Saída

O Dr.Biro culpa o paradigma biomédico convencional que separa o corpo da mente pelo fato de atualmente não haver resposta médica para a dor do luto. E propõe ver “…a dor como ocorrendo em um continuum ou espectro que rola de um prisma ideal (dor ligada somente ao ferimento físico) a outro (dor ligada somente ao ferimento psicológico)”.

Esse espectro de dor refleteria melhor à experiência comum de que “…nunca há dor psicológica puramente física, nem dor física pura, mas sempre combinações. Aqueles que sofrem de dor de luto e doença mental muitas vezes têm queixas somáticas. Ao mesmo tempo, pacientes com dor física inevitavelmente sofrem emocionalmente; pacientes com câncer rotineiramente se sentem aterrorizados, indefesos e solitários.”

O Epílogo

A dor psicológica existe e é tão importante e digna de nossa atenção quanto a dor física. Eles são dois lados da mesma moeda e devem ser falados e tratados como tais. Nos últimos tempos um destacamento de psicólogos e de assistentes sociais desceu em Brumadinho e Suzano. A sua intenção sendo a melhor possível: aliviar a dor emocional dos vivos. Contudo, desculpando a ignorância do macaco… será que eles sabem tratar a dor física que a dor emocional deve ter causado? Ou antes disso: será que eles sequer suspeitam, ou aceitam, que isso provavelmente aconteceu?

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