Dor no pós-operatório – Crônica de uma dor anunciada

Dor no pós-operatório – Crônica de uma dor anunciada

É óbvio que diferenças na percepção da dor no período pós-operatório devem-se à dose de analgésicos recebida antes e durante o procedimento cirúrgico. Isso está comprovado cientificamente. Porém, é somente isso.

“O que não mata você normalmente dói muito e demora um bocado em sarar”

Anônimo
Como você se sentiria se visse esse cara, ou outro cara que lembrasse você “desse cara”, entrando na sala de operações? Na sua sala de operações, ali onde você vai ser operado nos próximos minutos, para sermos mais exatos?

Um tanto incômodo, angustiado talvez, ou declaradamente em pânico, provavelmente. O ponto a ser aqui destacado é que qualquer um desses estados de ânimo – ou melhor, o seu conjunto – irá influenciar a intensidade da dor que você irá sentir nos próximos dias.

O tema é um dos preferidos dos cientistas especializados em dor. Afinal, a dor no pós-operatório é coisa garantida. Porém, quanta dor o paciente irá sentir após a cirurgia, isso ele ignora (e anestesistas sinceros, também).

Os achados de uma pesquisa enorme realizada na Holanda, por mim comentados num post anterior, sugeriram que as diferenças na percepção da dor no pós-operatório devem-se a dose de analgésicos recebida antes e durante o procedimento cirúrgico. (Procedimentos cirúrgicos menores eram mais dolorosos que outros maiores e isso em parte se explicava por que os pacientes envolvidos nos primeiros não teriam recebido opioides, ou os receberam apenas em doses baixas, apesar de relatar dor significativa.)

A conclusão de que as diferenças em percepção de dor dever-se-iam a dose de analgésicos recebida deve estar correta, mas ainda é incompleta. Ela somente vê o lado biomédico da coisa.

“Cada pessoa experimenta a dor de forma diferente, tanto do ponto de vista emocional quanto físico, e responde à dor de maneira diferente. Isso significa que médicos como eu precisam avaliar os pacientes individualmente e encontrar a melhor maneira de tratar a dor.”

Karen Sibert, Associate Clinical Professor of Anesthesiology and Perioperative Medicine, University of California
Qual o impacto na psique do paciente com dor no pós-operatório, do fato de relatar dor significativa e “ser ignorado”, ou “não ser levado a sério”? Isso não entra na equação clínica? As experiências psicológicas no período pré-operatório, está comprovado, influenciam a dor sentida no pós-operatório. De fato, a maioria das pesquisas sobre a dor pós-operatória apontam ela estar associada a fatores como ansiedade e depressão, e a expectativas sobre a dor pós-operatória.

Porém, e o vivenciado pelo paciente no pós-operatório, não conta?

Resumo da Ópera: a dor pós-operatória é altamente provável e dependente de vários preditores, alguns objetivos, como a intensidade da dor pré-cirúrgica, e outros subjetivos, como o estado de ânimo e as expectativas do paciente também prévios ao procedimento. Dessa forma, se mal conduzidos, os preparativos biopsicossociais de um procedimento cirúrgico simples, podem depois causar mais dor do que intervenções de maior monta. Contudo, muito já foi falado, pesquisado e escrito sobre isso. E ocorre que no período pós-operatório é quando o paciente mais vulnerável está, fisicamente e psicologicamente. Os holofotes da atenção médica, e não me refiro apenas aos da biomedicina, deveriam se deslocar nessa direção.

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