Dores femininas: é tudo culpa da biologia?

Dores femininas: é tudo culpa da biologia?

Na América do Norte, no Reino Unido, na Suécia, na Austrália… há evidências de que as mulheres não recebem do(a)s médico(a)s o mesmo tratamento dado aos homens… e de que algumas acabam padecendo ou falecendo antes da hora por esse motivo. Eu perguntei aos seguidores do blog se isso era “assunto” no Brasil. Veja aqui os resultados dessa enquete.

437                65                35

Semanas atrás decidi consultar as redes sociais para dirimir uma dúvida:

ao escrever sobre dores femininas no Brasil, o foco deveria se limitar à biologia – genes, hormônios etc. – ou também à maneira em que essas dores são acolhidas e tratadas pelos profissionais da saúde?

A dúvida, lembremos, se pautava em informações vindas do exterior. Na América do Norte, no Reino Unido, na Suécia, na Austrália… há evidências de que as mulheres não recebem do(a)s médico(a)s o mesmo tratamento dado aos homens… e de que algumas acabam padecendo ou falecendo antes da hora por esse motivo.

Várias respondentes à enquete, não sei se para confirmar ou desmentir a minha dúvida, escreveram para o blog solicitando mais informações.

Então, vejamos de onde veio a minha curiosidade. Ela foi despertada por um achado um tanto insólito. Por favor, dê uma olhada no gráfico seguinte.

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Observe o crescimento das duas curvas. A de baixo corresponde ao número de publicações científicas sobre DOR que vieram à luz no período 1980-2007, no mundo. A de cima mostra o crescimento das publicações sobre SEXO, GÊNERO e DOR, no mesmo período e local.

Note que até 1992 ambas as curvas sobem muito discretamente e sem se afastar muito uma da outra. E que depois a curva de cima, dispara. Ou seja, até o ano 1992, DOR era um fenômeno assexuado, e depois ele recebe um banho de realidade, começando a ser pesquisado reconhecendo diferenças de sexo e gênero.

O que houve? Um Prêmio Nobel puxou a fila? A Pfizer finalmente descobriu o Viagra feminino? Nada disso. Uma professora de psicologia, Karen Berkley, lecionando numa universidade que não era a Harvard (Florida State)… botou a boca no trombone.

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Num breve artigo incluindo uma revisão de 100 artigos em respeitáveis ​​revistas de neurociência, a Berkley constatou que 45% deles não mencionavam o sexo dos sujeitos pesquisados, e depois demonstrou haver diferenças biológicas e psicossociais mediando a inflamação entre homens e mulheres. Finalmente reclamou:

“… as diferenças entre mulheres e homens, que todos sabemos serem importantes, podem e devem ser exploradas na pesquisa científica”.12

Dez anos depois, em 2001, o Journal of Law, Medicine & Ethics, publicava “The Girl Who Cried Pain: A Bias Against Women in the Treatment of Pain” uma revisão de artigos hoje lendária.3 Nela, Diane E. Hoffmann e Anita J. Tarzian, ambas da escola de direito da University of Maryland apontavam:

“Em geral, as mulheres relatam níveis mais severos de dor, incidências mais frequentes de dor e dor de maior duração que os homens, mas, mesmo assim, são tratadas com menos assertividade.”

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O anterior inspirou o seguinte paradoxo:

  • embora homens e mulheres de fato experimentam a dor de maneira diferente,
  • por que as mulheres recebem tratamento desigual durante a sua exposição aos serviços de saúde – os clínicos, especialmente?


O paradoxo anterior foi suportado por dados de inúmeros estudos e hoje é matéria de publicações científicas e jornalísticas em diversos países.

No Brasil, porém, não existem os dados, muito menos a tal discussão.

Significa isso que o assunto é um “não-assunto”? A população feminina brasileira difere tanto assim das de outros países? O atendimento dado à mulher pelos profissionais de saúde brasileiros é único no mundo? Eu discordo. Porém esse sou eu, e por isso decidi consultar quem sabe: as mulheres.

Uma enquete foi lançada então via blog e redes sociais. Ela ficou no ar por um mês e os resultados foram os seguintes:

437 respondentes                65%                35%

Pelos resultados da enquete – que aliás, carece de qualquer pretensão científica – proporção considerável das mulheres brasileiras – dois terços! – estaria se sentindo desigualmente tratada pelos que cuidam da sua saúde. E pela experiência em outros países, já é sabido que isso está associado a diagnósticos errados, depressão e, no fim da linha, óbitos.

Atualmente eu estou escrevendo um e-book sobre as dores femininas. Os números acima indicam que vou ter que ir além das diferenças de gênero unicamente biológicas. Mais um ou dois meses de trabalho. Tomara que valha a pena.

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