Doutor, ouça a minha estória!

Doutor, ouça a minha estória!

A primeira consulta com um profissional da saúde influencia o sucesso ou fracasso de um tratamento de saúde posterior. É o que apontam as pesquisas sobre a relação médico-paciente. Esses profissionais, porém, não foram preparados para entrevistar gente. Alguns aprenderam na marra, mas a maioria aprendeu nada – e isso não parece ser visto como um problema, quando, de fato, é.

Cada um de nós é necessariamente o único herói em sua própria história.

John Barth
Eu estava indo bem. Contando a minha história; ou melhor, a história da minha cervical cronicamente dolorida. O consultório? Também muito bom. A mobília? Excelente, poltrona confortável, Samsung 4D (ou 5D, talvez), na parede, e uma máquina top-of-the-line – um troço cheio de cabos e interruptores para lá de moderno – estacionado num canto. Eu começava a sentir, enfim, confiança. Aquilo que muitos outros profissionais da saúde anteriormente consultados tinham me negado: confiança.

E de repente acabou.

“Onde dói? – o meu interlocutor, perguntou, me interrompendo sem mais.

Eu hesitei. Afinal, ia me encantando isso de alguém no mundo da saúde querer ouvir da minha dor persistente, dos tratamentos falidos, da angústia de ter que entrar no carro em três tempos… e sobretudo, ouvir de mim.

Apontei para a minha cervical, num gesto fugaz, e quis retomar o meu relato. Não deu.

“Onde dói?” – Fulano repetiu, bancando o Fiscal da Receita Federal.

Eu engoli em seco, virei-me um tanto e pus a mão no meu pescoço.

“Ah, é entre a L5 e a L6” – ele decretou, enquanto olhava para mim como quem descobre a América e procura pela aprovação do índio que o recebe na praia.

Mas eu já tinha ido embora. Não do local, claro. O meu corpo ainda estava lá, com a cabeça do proprietário acenando que sabia tudo sobre L5 e L6. Mas para mim, a entrevista terminara segundos antes.


O lamento do paciente crônico inclui esperança, já que, ao lamentar, o indivíduo se afasta do isolamento em si mesmo e confia a sua dor a outrem, na esperança de ser ouvido e compreendido.

Isso já faz um tempo. Nunca esqueci daquele sentimento de frustração experimentado ao o sujeito me impedir de contar a história da minha dor. No íntimo, meio envergonhado, cheguei a me declarar culpado. Eu teria sido prolixo demais, tagarelando coisas que não evocavam objetividade, concretude, tipo L5 e L6? Ou talvez o fisioterapeuta aquele fosse competente demais, sabido demais e tudo demais, diante de um sujeito fragilizado que nem eu, um nada demais em anatomia, fisiologia, neurociência, e sobretudo, L´s de qualquer numeral?

Jamais me convenci, mas o tempo passa e um dia eu parei de pensar no episódio.

Até que, preparando um ebook sobre educação em dor tive que ler sobre a comunicação-centrada-no paciente – um novo tipo de relacionamento entre terapeuta e paciente que, além de ser condizente com um modelo médico biopsicossocial, traz melhores resultados clínicos para o paciente que o modelo tradicional de comunicação-centrada-no-terapeuta.

Foge ao escopo desse post se aprofundar no assunto. Apenas vale mencionar a ideia central em ambos, relacionamento e modelo:  a de que o paciente deve assumir um papel ativo nas decisões clínicas que lhe dizem respeito, e que nisso ele/a deve ser incentivado pelo seu terapeuta. E como seria isso? Dando ao paciente mais espaço (oportunidade, tempo, respeito) para ficar sabendo, opinar, discordar… e também para contar a sua história de dor.

Isso mesmo, contar a tal história no “contexto do seu cotidiano”, é uma das coisas que – segundo o National Cancer Institute americano – o médico deve incentivar no paciente logo na primeira consulta.

“A história do(a) paciente deve resultar em uma partilha de experiências entre ele(a) e o(a) médico(a). Uma consulta pode permitir que o(a) paciente se alivie. Ele(a) pode estar chateado(a) com sua condição ou com as frustrações da vida e é importante permitir que dê vazão a esses sentimentos.”

Então eu estava certo. Naquela consulta que antes comentei, e lamentei – eu estava certo. Relatando a minha história de dor, eu estava certo, e o outro, errado. Ora, eu gastaria alguns minutos a mais lamentando-me, faria uma pausa para ganhar fôlego e isso daria chance a ele de me cortar sem me alienar da conversa. Em troca, eu ficaria mais relaxado e com uma sensação participativa; e o sujeito entenderia melhor quem eu era e o motivo da minha dor. Ora, qualquer vendedor de carros usados sabe disso, falar é terapia. (O mesmo, aliás, que Freud descobriu faz um século.)  

Com a sua obsessão pela “objetividade”, pelo “bom aproveitamento do tempo”, pela preocupação em tornar a consulta “mais produtiva” etc., o meu interlocutor aquele dia somente conseguiu me chatear, me alienar e, em último termo, me perder como paciente/cliente. E tudo por nada: L5 e L6 fatalmente viriam à tona na conversa um par de minutos depois.

Ouvir a narrativa dolorosa de um(a) paciente é um recurso terapêutico valioso, não uma perda de tempo. Uma forma de trazer à tona emoções que muitas vezes ocultam razões para sua dor. E também um aceno com a possibilidade deste vir a ser tratado com atenção e respeito. Não é pouco. L5 e L6 podem esperar.

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