É o caos! Viva o caos!

É o caos! Viva o caos!
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O descaso demonstrado por boa parte da população brasileira é um mistério para a ciência. Será objeto de dezenas de teses de grau, artigos científicos e palestras em congressos de psiquiatra – ou de ufologia, quem sabe – nos próximos anos, pode apostar. Parece haver uma perfeita correlação inversa entre os menos que ficam em casa e os mais que vão para o cemitério. Grosso modo, um sujeito que saia de casa sem motivo no Tremembé, em São Paulo, condena à morte um outro sujeito na Vila União, Fortaleza. O espantoso, porém, não é isso, mas que aconteça em clima de “tudo bem”, “nada como um dia depois do outro”. Ora, eu tenho uma explicação para aquele fenómeno espantoso. Muito interessante. Veja aqui.

Os cientistas da mente, os filósofos, os sociólogos e os antropólogos, alguns cidadãos – o seu número é incerto – e até o novo coronavírus, ele próprio, perplexos, se perguntam o mesmo:

“Por que o isolamento social não funciona no Brasil?”.

Eu penso que essa questão, em tempo presente, carece de sentido. Tempo perdido. Não funcionou. E tem mais, o isolamento social, no nível que deveria existir – acima dos 70% ficando em casa – jamais será atingido no futuro. Falou Zaratustra.

Por trás do meu pessimismo há um fenômeno psicossocial, um viés cognitivo coletivo, chamado “comportamento de manada”. Refere-se a quando as pessoas são influenciadas por seus pares a adotar certos comportamentos em uma base amplamente emocional, e não racional. Levadas de roldão, elas se animam a tomar decisões eventualmente diferentes das que tomariam individualmente. “Maria vai com as outras”, vai.

Exemplos contemporâneos de “comportamento de manada” sobram. Todos trágicos.

Na história do futebol, por exemplo. Em 1985, no Estádio Heysel, Bélgica, torcedores da Juventus escapando dos do Liverpool acabaram pressionados contra uma parede – 39 mortos e 600 feridos. Em 1989, no Hillsborough Stadium, Inglaterra, a abertura equivocada de um dos portões levou a uma estampida que deixou 96 mortes e 766 feridos.

O comportamento de manada é um caldo do inferno que precisa de ingredientes. Veja a seguir:

Motivação

O objeto de desejo da manada, no caso, é irresistível. Obter a liberdade, recuperar o velho normal, e reduzir o tédio são desejos ancestrais dos humanos. A busca do conforto, ou a fuga da penúria, inspiram comportamentos absurdos, como o do sujeito que fuma, sabendo que isso dá câncer, ou do obeso comilão que já está diabético, ou o do machão que, para não perder a chance numa noitada de sorte, vai em frente sem preservativo. A prudência é mandada às favas enquanto a perspectiva de se obter conforto assume o comando.

Alguém abre a porteira

O isolamento social praticado no Brasil, em todos os estados, foi do tipo meia-boca desde o primeiro minuto. Nos últimos tempos, algumas cidades endureceram mais as penalidades para quem sai à rua, porém mais por conta do desespero e porque não havia mais como segurar a estampida, do que para preveni-la. Ontem assisti uma “otoridade” anunciar que a meta oficial para o isolamento social ora perseguida em São Paulo não é mais 70%. É “um mínimo de 50% de adesão”, entendeu? É mais ou menos como o Enem exigir que o examinado saiba soletrar ou ao menos três das quatro operações.

Um dos animais lidera a manada

A expressão americana é “líder of the pack”. Você já deve ter visto estampidas de gado em filmes antigos ambientados no Velho Oeste. Percebeu que a manada sempre corre atrás de um exemplar que se diferencia dos demais apenas por tomar a iniciativa de sair correndo na direção que for? Ou seja, não há caminho, mas apenas a imagem algo confusa da bunda do dito cujo correndo à frente. A manada vai atrás, não importa se à frente há um precipício.

Uma boa dose de caos

Nessa semana, o Dr. Amílcar Tanuri, um infectologista da UERJ muito respeitado, admitiu ignorar em que ponto está a curva dos novos infectados e dos mortos do Brasil atualmente. Isso quer dizer que os infectados e falecidos podem estar subindo sem controle, ou chegando num pico, ou – considerando que os dados que são apresentados diariamente são de vários dias atrás – descendo. Ou seja, não há como saber se é seguro flexibilizar o isolamento. No dia seguinte, porém, foi autorizada oficialmente a abertura de todas as academias no país. Horas depois, o presidente da associação que reúne os proprietários das dito cujas em todo o país reconheceu que, o ramo não estaria preparado para abrir as portas. Quase que simultaneamente o Ministro da Saúde, o daquele momento, fazia cara de espantogem – mistura de espanto e paisagem – ao ser comunicado do atropelo superior.

Se isso não é caos da melhor qualidade, eu não sei o que é.

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