Educação em dor... Para inglês ver?

Educação em dor... Para inglês ver?

A Educação em Dor é uma boa ideia para aliviar a dor crônica. Em certos países, ela tem pé e cabeça. Noutros, ela parece ter apenas boca.

Todos nós queremos progresso, mas se você está no caminho errado, o progresso significa dar a volta e voltar ao caminho certo.

S. Lewis, Pensador e autor de As Crônicas de Nárnia.
Eu ia mostrar neste blog o que está sendo proposto por acadêmicos europeus especializados em dor – belgas e holandeses, mais precisamente – para os profissionais da saúde (médicos, fisioterapeutas etc.) ensinarem seus pacientes ao respeito da dor e seu gerenciamento.

Eu ia e não vou mais. É que, ao que parece, por aqui estamos muito, muito longe disso.  Seria como cantar em sânscrito num baile funk. Sem noção.

O que me fez desistir foi uma lembrança. A de um congresso médico sobre dor ao qual assisti há pouco tempo. Mais de um milhar de profissionais da saúde, e trezentas, quatrocentas… cansei de contar… palestras, mesas redondas, depoimentos, o escambau. E dentre as várias impressões que tive, destacou-se a ambivalência caracterizando o tema da educação em dor. Afinal, ele foi o escolhido pela International Association for the Study of Pain IASP, para marcar o ano 2018.

The 2018 Global Year for Excellence in Pain Education. “Bridging the gap between knowledge and practice.”

Foi esse o slogan de uma campanha encampando Public and Government Education, Patient Education, Professional Education e Pain Education Research. Isso, no mundo todo.

Pois bem, naquele congresso médico ninguém falou contra educar o paciente, é verdade; mas também ninguém disse que conviria educar também o profissional da saúde que, supõe-se, deve educar o paciente. Ou será que não precisa?

“A unidade psicobiológica do homem exige que o médico aceite a responsabilidade de avaliar quaisquer problemas que o paciente apresente e recomende um curso de ação, incluindo o encaminhamento para outras profissões que o ajudem. Daí que o conhecimento e as habilidades profissionais básicas do médico devam abranger o social, o psicológico e o biológico, pois suas decisões e ações, em nome do paciente, envolvem as três.”

George L. Engel. A necessidade de um novo modelo médico: um desafio para a biomedicina.
Em 1977, George Engel, professor de psiquiatria na Universidade de Rochester (EUA) dedicou a conferência da qual eu extraí o trecho acima – um marco na história da medicina, a meu ver – aos médicos americanos, seus alunos. Porém, o seu alcance atinge todos os profissionais da saúde, de fisioterapeutas a psicólogos, passando por enfermeiros, anestesiologistas, osteopatas, preparadores físicos…

Então, olhe ao redor e repetindo: será que esses profissionais não precisam, eles mesmos, aprender sobre a dor e seu gerenciamento antes de se dispor a educar seus pacientes?

Mas, voltando aquele congresso: vários palestrantes recomendaram fervorosamente a educação em dor, ganhando palmas entusiasmadas. Contudo, hoje relendo o programa do mesmo confirmo paradoxalmente não ter havido nenhuma palestra focada no ensino da dorrefiro-me ao lado prático, concreto, da coisa. Nada nesse sentido – os objetivos do ensino, os temas, as estratégias pedagógicas, as opções didáticas e os ajustes a serem feitos por tipo de paciente, as inter-relações com a prática clínica, ou com a pesquisa em dor, os tipos de avaliação do aprendizado etc… e sobretudo, o quem-faz-o-que, nessa história. Nada. (Aliás, entre as várias centenas de intervenções programadas nos quatro dias do evento, apenas três – repetindo, três – tangenciavam a educação em dor.)

Não que sirva de consolo, mas parece que o fenômeno é global. Os três mais importantes expoentes da nova neurociência da dor nesse momento – Lorimer Moseley, Jo Nijs e Adriaan Louw – coincidem no seguinte:

“Em contraste com a ciência, há uma falta de aplicação prática consistente da Educação em Neurociência da Dor no ‘mundo real’ da prática clínica.”

Ok, eu sei que é estrondosamente injusto criticar a montagem de um evento complicado como um congresso desses. Organizá-lo deve dar um trabalho gigantesco. E a educação em dor, eu sei, é apenas um tema entre tantos outros (que foram muito bem tratados, por sinal). Porém, pior do que deixar um tema tão importante como esse de fora, é fantasiar que ele está dentro. Algo bonito, mas fictício – como a Constituição de 98, a ginga inigualável do jogador brasileiro, etc. A verdade – a minha, ao menos – é que nesse momento, no Brasil, sobre a educação em dor há mais ruído que substância. Como Moseley, Nijs e Louw já perceberam, o ponto álgido da coisa é que atualmente os médicos em geral não educam em dor seus pacientes, ponto final. Com prejuízo para os quase 70 milhões de sofredores de dor crônica perambulando por aí.

Nota de esclarecimento: Como cheguei nesse número absurdo? Fácil. O Brasil tem 208 milhões de habitantes e a taxa de doentes crônicos, nos países em que é reportada fica entre um terço (EUA) e a metade da população (Inglaterra). Extrapolando então, por baixo, 67 milhões padecem de dor crônica no Brasil. Desmentidos bem fundamentados são bem-vindos.

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