Educação em dor: Uma proposta pequena demais para um país grande demais?

Educação em dor: Uma proposta pequena demais para um país grande demais?

Se você já conhece o blog deve ter notado que o seu objetivo é a chamada “educação em dor”. Foi este um termo que uns gringos inventaram em 2007 para destacar o óbvio: primeiro, que o paciente com dor crônica precisa participar do seu diagnóstico e tratamento ou suas chances de recuperação diminuem a quase zero; e segundo, que para participar produtivamente convém saber do que se trata o riscado (da dor percebida).

“Sempre parece impossível, até que é feito”.

Nelson Mandela

“A dor crônica é reconhecida como uma condição de longo prazo (e, portanto, requer que o paciente participe ativamente no gerenciamento de sua própria condição. Para capacitar a pessoa ao autogerenciamento, recomenda-se educação e treinamento sobre a natureza da dor e seus efeitos e como viver com ela.”1

Isso, porém, não passou de um slogan. Alguns grupos de cientistas (fisioterapeutas, a maioria) e instituições, principalmente na União Europeia e na Austrália, embarcaram nessa canoa, e só. No Brasil, uma ou outra instituição médica atualmente faz por treinar médicos em dor e até existe uma especialidade focada nisso, mas com um viés exagerado em favor da acupuntura (??!!).

Porém, vira e mexe, a realidade (por mim percebida, ao menos) é que todo o esforço anterior é praticamente nada vezes nada diante do monumental objetivo a ser alcançado. No Brasil, por exemplo, seria o de fazer com que 160 milhões de pessoas que hoje moram em 0,63% do território nacional, ou 84,3% da população brasileira, soubessem distinguir entre dor aguda e dor crônica, entender que os analgésicos não curam e têm efeitos colaterais, que os exames de imagem não são infalíveis, que uma dor aguda mal tratada pode migrar para uma dor crônica e que uma dor crônica carece de cura, que os médicos realmente especializados em dor são muito poucos e que portanto, meu amigo, se você tem dor persistente há mais de 3 meses, seja nas costas, ou na barriga, é bom se virar porque ninguém mais vai te ajudar a rever a qualidade de vida de antes-daquela-maldita-dor.

E como levar essas informações a quem precisa? Ok, nem todos esses 160 milhões têm dor crônica, você pensa. Contudo, se acreditarmos nas estatísticas da Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que 1 em cada 5 adultos sofrem disso.2 Em 1998, um estudo multicêntrico publicado pela OMS já mostrava prevalência de dor crônica em 22% no mundo.3 Fora isso, é sabido que 1 em cada 10 adultos é diagnosticado com dor crônica a cada ano.

Ou seja, no mínimo 46,2 milhões de brasileiros então deveriam ser “educados em dor”. É muita gente.

E como fazer isso:

  • sem educadores (os profissionais da saúde – médicos, fisioterapeutas, etc. – definitivamente não vem isso como parte de sua entrega profissional (e quem afirmar o contrário está delirando ou mentindo); e
  • sem educandos (o paciente típico quer se curar já, e não estudar para concluir que a dor crônica não tem cura e que qualquer tratamento para aliviá-la irá exigir coisas chatas como fazer exercícios e comer mais saudavelmente, em vez do conforto de passar pela farmácia).


Então o que pode um reles blog movido a 1 humano de potência fazer diante de uma porta fechada dessas? Essa pergunta me diverte todos os dias. E me diverte porque então posso ficar batendo nela até o resto dos meus dias, o que exige pesquisar, estudar, escrever, ler o que gente com muita dor têm a dizer, responder a desconhecido(a)s que perguntam onde se informar sobre isso ou aquilo relacionado à dor crônica, pegar um tema terapeuticamente relevante (ex.: dor crônica, fibromialgia, dores femininas) e destrinchá-lo até entender do que trata e depois arquitetar uma forma de levá-lo até o maior número de pessoas possível via internet, redes sociais, etcétera… enfim, prazeres íntimos que, imagino, muito poucos entendem. Há vida, nisso tudo, acredite. Vida que vale a pena de ser vivida.

Tudo bem, mas o que de concreto você tem a oferecer? o caro leitor deve estar pensando. Boa pergunta. Eu poderia dizer que quase nada, considerando o monumental objetivo a ser alcançado, eu já disse, mas muito mais do que muita faculdade de medicina e fisioterapia tem feito, faz ou pensa fazer sobre educar gente em dor. 95 artigos científicos, 140 posts, 8 ebooks, 49 vídeos e dois aplicativos educacionais, em 13 meses.

E isso, até ontem. Quer conhecer o que será oferecido aos visitantes do blog com dor crônica a partir da próxima semana? Clique aqui.

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