Ei doutor, o que foi que o senhor disse?

Ei doutor, o que foi que o senhor disse?

Estudos indicam que o jeito do profissional da saúde falar com o(a) paciente influencia a sua recuperação – para bem ou para mal.

“Ninguém pode me ferir sem a minha autorização.”

Mahatma Gandhi
“Você falhou no teste de esforço”, ou “Seu cardiograma está anormal”, ou “A sua vida está por um fio”, ou “Não tem jeito. Temos que operar você.” Você acha que algum médico faria o despropósito de dizer uma coisa dessas a um(a) paciente? Um exagero, certo?

Errado. Quem afirma ter ouvido ao longo da vida declarações do tipo às pencas é um médico. E um vencedor do Prêmio Nobel (1985), nada menos. O Dr Bernard Lown, também autor do bestseller The Lost Art of Healing (A Arte Perdida de Curar).1

Da minha própria colheita, eu poderia agregar: “A sua coluna está degenerando” (um médico); e “A sua respiração está uma m…” (um fisioterapeuta). Sério. Aconteceu comigo.

“Ter medo não ajuda a viver.”

Ivo Pitanguy
Brutalidades vocais como essas, todas elas, não causam apenas desconforto. Todas elas desembocam em dor.

Quem diz isso?

A nova neurociência, para começar. A dor tem a ver com a percepção de um perigo ou ameaça corporal. Estimulado, em um milissegundo, o cérebro se informa em zilhões de fontes através dos sentidos e, se decidir que há perigo, ele decreta a sensação de dor.

Então, reveja as quatro frases acima e cole a palavra “ameaça”, no finzinho de cada uma delas. Não é que encaixa direitinho?2

E depois temos o medo. Advertências agressivas a respeito da própria saúde inspiram medo. Medo da dor e de suas consequências. E esse medo, do ponto de vista da recuperação, é pior do que a dor – especialmente em se tratando de dor crônica.

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Baseado em The Fear Avoidance Model, de Johan W. S. Vlaeyen e Steven J. Linton

Siga a seta a partir de “Experiência da Dor”, no sentido horário. E verá que a dor crônica provoca catastrofismo, que provoca mais medo relacionado à dor, que fomenta a hipervigilância e a evitação (ex.: de movimentos), que leva à incapacidade e à depressão… e onde vai parar tudo isso? Em mais dor.

E por fim temos a relação entre processos emocionais e dor crônica. Uma revisão de tudo o que as revistas científicas publicaram sobre isso na última década não deixa dúvidas de que a relação existe – apenas ainda não se sabe qual é o ovo e qual é a galinha.

“A pesquisa neurobiológica documenta os processos neurais que distinguem as dimensões afetivas das sensoriais, ligam emoção com dor, e geram dor de sensitização central.”3

E de que emoção se trata? De todas as ruins, não apenas o medo, mas também raiva, desamparo, impotência, humilhação… emoções que, gostemos ou não, pairam sobre a relação médico-paciente.

Em suma, como reza o ditado: “você foi buscar lã e saiu tosquiado”. Ou seja, foi ao médico se aliviar e saiu mais dolorido. E tudo por causa de expressões torpes ou inoportunas… emitidas com a melhor das intenções, claro.

O linguajar descuidado não é privilégio dos médicos, aliás. Acentua-se no caso deles por ocuparem o topo da cadeia alimentar – ou no Monte Olimpo, se preferir – mas abrange todos os profissionais que cuidam de pessoas com dor.

“Nós devemos focar nesta doença, Complexo de Sub-luxação Vertebral (CSV). Ela causa dor e a progressiva destruição do tecido corporal. O CSV é um assassino silencioso, uma das ameaças mais sérias conhecidas pelo homem”.

“Talvez você nunca ouviu falar de sub-luxações. Tudo bem. Houve um tempo em que você nunca ouviu falar de AIDS ou Alzheimer”

Ambos esses apelos foram feitos ao grande público, via marketing digital, por clínicas de quiropraxia.4

O conteúdo desse post lhe é familiar? Se não for, parabéns, porém, mais dia, menos dia, provavelmente o será. (Olha a ameaça aí!) E por isso os próximos dois posts, em que dou continuidade ao comentado neste, poderiam lhe interessar.

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