Enfrentando a dor crônica: o mapa da minha dor

Enfrentando a dor crônica: o mapa da minha dor

O médico pode destinar dias ou semanas a explicar a um paciente com dor crônica absolutamente TUDO o que a pesquisa científica e a prática clínica hoje sabem sobre esse tipo de dor e, no fim, o paciente fatalmente irá perguntar: “O que eu faço para me aliviar, então?” Este post, o primeiro de uma série de três, começa a mostrar um dos caminhos possíveis.

“A palavra “rendição” não pode ter lugar no dicionário de um doente crônico.”

Qual é o primeiro passo para tratar de uma dor crônica, de preferência inexplicável1? Marcar (de novo!) uma consulta médica? Correr (de novo!) para a farmácia?

Pode ser, se a dor for repentina e severa, porém não é o mais comum em se tratando de uma dor crônica, que é persistente.

Em cada 10 pacientes padecendo desse tipo de dor, a metade sai da última consulta médica com uma questão piscando na mente: “Como eu faço para sair dessa?”. O “EU” entre aspas e sublinhado porque, à essa altura, aquela dor inicialmente inexplicável, depois de meses ou anos continua assim, inexplicável. E o paciente – eu já passei por isso – sente que não pode contar com mais ninguém, exceto consigo mesmo, para responder a tal pergunta.

Fight or flight? Lutar ou fugir? Até agora foi só flight. Porque quando a gente entrega 100% dos cuidados da própria saúde a um terceiro, repetidamente e sem resultados, eu chamo isso de flight, fugir. Fugir da responsabilidade de assumir o gerenciamento da própria dor. Flight.

Então, resta o fight. Vejamos uma proposta em relação a como seria isso, lutar com uma dor crônica. Obviamente, se você escolheu enfrentar um adversário tão inescrutável quanto a fibromialgia, por exemplo, convém você planejar bem o que vai fazer.

O primeiro a fazer é traçar o que eu chamo de Mapa da Minha Dor.

O Mapa da Minha Dor

Não, não é o que você está pensando, nada a ver com um quadro clínico. O Mapa da Minha Dor se refere ao que acontece comigo enquanto convivo com a dor.

Demorei meses, anos, talvez décadas, percorrendo vales e morros – e gastando os tubos – procurando por uma cura médica que não existia. Agora só me resta aliviar a dor para ganhar funcionalidade e, por tabela, preservar qualidade de vida.

Eu tenho, então, que me mexer. Confesso que não sei muito bem onde eu vou parar, ou mesmo se tem parada nesse processo, mas por outro lado, sei duas coisas: somente tenho a mim mesmo, e se não usar já o que tenho, essa dor vai ficar e talvez aumentar.

Então, vamos ver: o que a dor está fazendo comigo?

Isso pode ser percebido em quatro níveis de impacto da dor.

O Nível 1 é o sensorial. A reação animal que temos quando sentimos dor.

Exemplo: “O meu pé está doendo.”

O Nível 2 é o afetivo. Ou seja, as emoções e sentimentos que a dor provoca ou evoca.

Exemplo: “Que pena! Eu que detesto parar de fazer exercício!”

O Nível 3 é o cognitivo – o Dr. Gregg Henriques, em cujo artigo The Four Levels of Pain eu me inspirei para redigir esse post – prefere denominá-lo “imaginativo”.

Imaginativo por conta deste nível concentrar as imagens que eu tenho do que causa a minha dor e as imagens do que consequentemente vai acontecer no meu dia-a-dia, nas minhas relações interpessoais, no meu trabalho/lazer etc. por causa disso.

Exemplo: “Amanhã não vou poder ir trabalhar e o meu chefe, que me odeia, vai aproveitar para passar o meu projeto ao Fulano, que aliás, há tempo que quer o meu posto”.

O Nível 4 é o existencial. O que eu penso sobre o que a está causando a dor (ex.: um tumor?), o que significa a dor na minha vida e como o binômio eu-dor vai se desdobrar no tempo.

Exemplo: Será que eu vou sobreviver a essa dor, ou ao que há por trás dela? A que custo, pessoal e familiar, psicológico e financeiro, presente e futuro?

A essa altura eu já entendi mais ou menos o que a dor está fazendo comigo. Eu estou sentindo dor (Nível 1), e isso não só está me chateando (Nível 2), mas também envenenando a minha alma (Nível 3), a ponto de empapar de incerteza o que eu menos quero arriscar na vida:  a minha essência (Nível 4).

Mas, eu estou confuso. Não estou acostumado a esse tipo de análise. As informações sobre o meu problema – o quanto a cronicidade está prejudicando a minha existência – estão ali, nesses quatro níveis – a maioria delas, ao menos. No entanto, ignoro o que fazer com elas. Por onde eu começo?

É o momento de eu subir na lâmpada. O de imaginar que tudo isso está acontecendo não comigo, mas com outra pessoa que nesse momento está sozinha, sentada no meio de uma sala vazia, enquanto eu apenas observo a situação, de cima, trepado numa lâmpada. Ou seja, objetivamente e sem compromisso.

Em qual dos quatro níveis essa pessoa – não eu, lembremos – deveria se concentrar primeiro com vistas ao autogerenciamento de sua dor crônica? Ou dito de outra forma, qual dos quatro níveis é o mais estratégico, do ponto de vista de um plano de alívio dessa dor?

Cansei. Vou deixar você com a incumbência de responder essa pergunta. No próximo post vamos ver qual é a resposta correta. E a partir dela, continuar avançando no que fazer para se aliviar de uma dor crônica.

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