Enfrentando a dor crônica: um método

Enfrentando a dor crônica: um método

Em post anterior apresentei o Mapa da Minha Dor, um recurso analítico que permite ao paciente com dor crônica identificar, com calma, os diversos efeitos da dor (sensoriais, emocionais, cognitivos e existenciais) sobre a sua vida. A questão agora é, se a ideia for agir para obter alívio, identificar em qual desses efeitos convém mexer primeiro, e com ajuda de qual método cognitivo-comportamental.

“Curar a dor grave ou crônica, acredito, inclui transformar nossa relação com a dor e, em última análise, transformar nossa relação com quem somos e com a vida”.

Sarah Anne Shockley

Em post anterior apresentei os 4 níveis em que a dor crônica pode agir para prejudicar a vida do portador: sensorial, afetivo, cognitivo e existencial.

E deixei no ar uma indagação: em qual desses níveis o paciente interessado em autogerenciar essa dor para aliviá-la deveria se concentrar primeiro?

Eu explico a razão da pergunta. Os quatro níveis são um arranjo fictício, feito apenas para facilitar a análise e a ação a seguir. Na realidade, eles se interligam desordenada e dinamicamente, como fios num novelo imaginário girando no ar.

Dor Crônica - O Blog das Dores CrônicasNo momento, esse novelo é todo negativo e você quer mudá-lo para melhor por intuir que isso está alimentando a sua dor.

Então parece sensato escolher aquele fio que é central para a existência do novelo. Qual dos quatro fios seria esse?

O correspondente ao Nível 3. Por quê? Porque este é o único com base cognitiva. O único “pensado conscientemente”, se preferir. O único com lastro em percepção, memória, juízo e raciocínio. Dá para intuir que é viável trabalhar em cima disso.

Reveja no post anterior a imagem exemplificada no Nível 3:

“Amanhã não vou poder ir trabalhar e o meu chefe, que me odeia, vai aproveitar para passar o meu projeto ao Fulano, que aliás, há tempo que quer o meu posto”.

Note que são pessoas e/ou situações concretas que fazem parte da vida da pessoa (ex.: o chefe, o colega, o projeto, o posto de trabalho), mas as quais agrega-se uma inferência, uma suposição (ex.: o repasse do projeto ao colega, e a possibilidade de ser demitido como consequência). Os outros níveis de dor não se podem ou não vale a pena tentar mudar em primeira instância. O Nível 1 é uma sensação, e sensações são imutáveis. Os Níveis 2 e 4, o afetivo e o existencial, por sua vez, são invenções mentais influenciadas pelo Nível 3.

Estrategicamente, então, faz sentido concentrar um esforço de mudança no Nível 3.

Agora a questão é: como?

Dois passos. Fixando um alvo e escolhendo uma técnica para atingi-lo.

O alvo da mudança deve ser as inferências e suposições negativas forjadas pela pessoa na sua mente, as quais costumam ser irracionais ou não-adaptativas (ou seja, inflexíveis e míopes). Conhecidas como distorções cognitivas, entre elas se contam “… pensamento mágico, filtragem, generalização, magnificação, raciocínio emocional, e muitas outras comumente associadas a distúrbios de saúde mental”.

A origem dessas distorções, acredite se quiser, é pré-histórica. É com a sua ajuda que os nossos ancestrais sobreviviam a ataques de animais, desastres naturais, a fome e a intempérie, só que há milhares de anos atrás… elas não são mais funcionais hoje em dia. Boa parte da Terapia Cognitiva Comportamental dedica-se a expulsar esses vieses do raciocínio humano, com tal de mantê-lo objetivo, mas essa é matéria para outro(s) post(s).

E quanto a técnica?

Isso eu vou apresentar no próximo post. Por enquanto, recapitulemos o visto nos dois primeiros.

Você partiu padecendo de dor crônica inexplicável, não específica, sem diagnóstico e o termo que você quiser dar ao que a ciência médica por enquanto ignora. Depois você imaginou – corretamente, aliás – que a causa dessa dor teria um componente psicológico e se aprestou a abordá-lo. Para tanto, preencheu o Mapa da Minha Dor e depois se concentrou no Nível 3, o cognitivo, por lhe parecer ser o mais estratégico. Como esse nível abriga distorções cognitivas, o método terapêutico – psicoterapêutico, melhor dizendo – escolhido foi o da Reestruturação Cognitiva, também conhecido como de Ressignificação, – um termo hoje na moda dos famosos.

A técnica então terá que ajudá-lo a ressignificar o material tóxico que hoje você tem na sua cabeça, para assim desativar a linha direta que ele mantém com a dor crônica.

Veja outros posts relacionados...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *