Então, doutor, o meu problema é...

Então, doutor, o meu problema é...
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No Ocidente há evidências de que os médicos se comunicam mal com seus pacientes, com consequências deletérias para estes últimos. Mas não no Brasil. Veja como eu cheguei nessa portentosa conclusão.

“Não há pior surdo do que aquele que não quer ouvir.”

Provérbio português (embora os espanhóis também o reivindicam)

Recentemente, durante um congresso de profissionais da saúde dedicado à DOR, um dos palestrantes discorria sobre a educação em dor como se isso fosse uma realidade no Brasil, no mundo, na Galáxia. Como eu penso o contrário, perguntei como isso seria possível sem a participação dos médicos, a qual inexiste nessa empreitada (e cá entre nós, ninguém se atreve a dizer que o rei está nu).

Aquela pessoa, um fisioterapeuta, replicou que não via problema toda vez que ele já atendia muitos pacientes que, desencantados por não receber informação de seus médicos, recorria a sua classe, a dos fisioterapeutas, para se informar.

Eu não sou médico nem fisioterapeuta, apenas paciente de ambos, e não tinha reparado nisso. Talvez fosse um exagero daquela pessoa, pensei.

Todavia, semanas depois me deparei com um artigo recente (2017) publicado no Physicians Weekly, um site bem conceituado destinado a médicos nos Estados Unidos. A manchete era essa:

WHY DOCTORS ARE LOSING THE PUBLIC’S TRUST

Curioso, resolvi investigar. E descobri que a maioria das reclamações estão relacionadas à comunicação, e não à competência – lá fora e no Brasil também. Noutras palavras, em geral, os médicos se comunicam mal com seus pacientes. Essa é, por exemplo, uma das conclusões de uma revisão de literatura científica publicada sobre a comunicação dos médicos com seus pacientes até 2010… na Austrália.

No Reino Unido, o problema custava ao país – alguém se deu ao trabalho de calcular isso em 2010 – 1 bilhão de libras. Por outro lado, a classe médica é a mais prestigiada de todas com diploma universitário, em qualquer país – exceto nos EUA. Então, quem se atreve a prender o sino no rabo do gato?

“Escute seu paciente; ele está lhe dizendo o diagnóstico.”

Sir William Osler, médico canadense e um dos fundadores do Johns Hopkins Hospital.

Eu que não tenho sido capaz de fazer isso, confesso.

Em meados do ano passado o blog publicou 3 ebooks sobre a comunicação médico-paciente:

  • No primeiro ebook, a comunicação sistema de saúde – paciente é mostrada como a bandeira com a qual os melhores hospitais do mundo – Mayo Clinic, Cleveland Clinic, Harvard/Beth Israel Deaconess Medical Center, Weil Cornell Medical Center, Johns Hopkins Hospital – vem acenando para se manter excelentes.
  • O segundo ebook municia o médico para ele(a) se conduzir, e conduzir, bem uma consulta, mostrando os recursos que os behavioristas recomendam – escuta ativa, empatia, uso de imagens etc. – e também porque deveria usá-los sob pena de continuar aturando olhares vazios dos pacientes e comprometimento nenhum com o tratamento.
  • O terceiro ebook se refere a um tema em alta na literatura voltada para a medicina centrada no paciente: o uso de metáforas e analogias para educar em dor os pacientes, e explicar as características e nuanças das suas doenças. Doze tipos de metáfora diferentes são explicados e exemplificados.


E qual foi a resposta dos profissionais da saúde, a quem a mensagem dos ebooks é dirigida? Muito abaixo da expectativa. Qual pode ser a explicação? Como passei meses trabalhando neles, passei mais uns quantos matutando a busca de uma resposta. Até que enfim, se fez a luz! Isso deve ter acontecido por eu ter imaginado que haveria semelhança na maneira de se comportar com os pacientes entre médicos estrangeiros e brasileiros. Erro meu, claro. Os rudes e distantes estrangeiros – clinicando na América do Norte, Reino Unido, na Austrália… esses países gélidos de onde eu colhi as críticas a eles vindas dos pacientes – pelo visto não se comparam à afabilidade e atenção de que estes disfrutam por aqui. Por isso, eu suponho, não, eu estou convicto, no Brasil técnicas de boa comunicação entre médicos e pacientes são plenamente dispensáveis. Vivendo e aprendendo.

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