Espectadores inocentes

Espectadores inocentes
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A pandemia da Covid-19 atualmente piora (muito) nos Estados Unidos, e melhora (pouco, mas melhora), no Brasil. É o que os números dizem todo dia. Por que será? Onde fomos melhores que os americanos? O que fizemos de diferente para nos darmos tão bem nessa corrida? Você sabe?

“Recusemo-nos a ser espectadores, mesmo que não saibamos exatamente aonde nossas ações nos levarão.”

Howard Schultz

O filme de suspense The Innocent Bystanders, ou Os Espectadores Inocentes, protagonizado por Stanley Baker e Geraldine Chaplin (sim, a filha de Carlitos), estreou há exatos 50 anos. Eu vou tomar emprestado o nome para nomear outro episódio de suspense no qual hoje nós, você e eu, somos os protagonistas, ou seja, os espectadores inocentes.

Refiro-me ao que irá ocorrer no Brasil vis-a-vis a pandemia da Covid-19 nos próximos 9 meses. Ou seja, até quando eu calculo que, na melhor das hipóteses, o grosso da população no país comece a ser vacinada, seja em chinês, em russo, em inglês, e até em sânscrito, se possível.

Semanas atrás bastava acompanhar a trajetória das curvas epidemiológicas (novos casos de infectados e de mortos pela Covid-19) do Grande País do Norte para saber o que ocorreria por aqui duas semanas depois. Porém, essa referência foi perdida.

Não sei você, mas há dias que eu ando meio perplexo – ou quase. Isso porque há dias que o Brasil vem se descolando do páreo semitrágico mantido durante meses com os Estados Unidos.

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

The New York Times – Atualizado em 8 de novembro de 2020 – 12h57

Preste atenção na primeira quinzena de setembro. Até então, o páreo era renhido. Depois, os Estados Unidos decolaram para a estratosfera e o Brasil foi melhorando, melhorando a cada dia. Nos últimos 45 dias o que vemos são dois vetores, o americano e o brasileiro, indo em direções opostas. Um espanto.

E por que a mim isso parece tão espantoso?

Primeiro, porque há dois meses, quando os bares do Leblon e as praias do Rio apareceram lotadas, eminentes epidemiologistas brasileiros pressagiaram em coro pelas redes de TV uma explosão viral monumental se a quarentena meia boca da época ruísse de vez. E ruiu. E os números epidemiológicos melhoraram. Vai entender.

E segundo, porque as explicações corriqueiras que ouço para o fenômeno do Brasil ter aliviado tanto a sua situação, comparado com os Estados Unidos, não me convencem.

Vejamos…

  • Os brasileiros usam máscaras e os americanos se resistem. A afirmação não é verdadeira em nenhum dos dois casos. Em ambos os países, algumas pessoas usam e outras não. Os usuários são maioria em São Paulo e Nova York, e minoria em Jordanésia e Jacksonville.
  • Os jovens americanos se esbaldam em festas universitárias toda sexta-feira e sábado e viram mega-espalhadores do vírus. E os jovens brasileiros? Fazem vida monástica nessas mesmas ocasiões?
  • Ah, e o clima? O frio do outono americano facilita aglomerações e já viu. Pode ser, mas o Brasil é uma imensa praia e nelas aglomerações maiores ocorrem também aos fins de semana.
  • Ou será que as medidas de flexibilização brasileiras são mais drásticas que as americanas? Ou que o Presidente brasileiro dá o exemplo à população de como se proteger do vírus antes da chegada das vacinas e o Trump faz o oposto? Ou que a estratégia de combate ao vírus emanada do Planalto é mais eficiente, comunicativa e inteligente que a da Casa Branca? Ou que o Brasil já está próximo de atingir a imunidade de rebanho, e não assim os Estados Unidos?


No artigo “América e o vírus: Uma falha colossal de liderança”, Nicholas Kristoff, colunista do The New York Times, tem a quem culpar pelo quarto de milhão de americanos muito mortos pela Covid-19 antes de novembro terminar:

“… em retrospecto, Trump fez quase tudo errado. Ele desencorajou o uso de máscara. (…) nunca implementou o rastreamento de contatos, perdeu oportunidades de isolar os infectados e expostos, emitiu conselhos que mais confundiram do que esclareceram e entregou responsabilidades a estados e localidades que não estavam preparados para agir.”

Ora, e por aqui foi diferente?

Duvido, em todos os casos. Mas eu também careço de explicações para o fenômeno (do recente divórcio das curvas epidemiológicas dos dois países), a não ser devaneios como o de que as estatísticas mentem, ou que Deus é brasileiro e o Diabo por esses dias anda meio distraído.

Enfim, aqui estamos nós, espectadores inocentes, contemplando a debacle americana piorando à razão de um milhar de mortos por dia, como quem contempla um enigma, inexplicável em termos comparativos. E acima de tudo, como se essa hecatombe não mais nos dissesse respeito. E talvez não nos diga mesmo. Ou sim? Ou não? Vai saber.

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