Espiritualidade: A terapia da fé – Parte 1

Espiritualidade: A terapia da fé – Parte 1
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A possibilidade de podermos influenciar, ou até controlar uma experiência de dor persistente pareceu ser uma utopia até pouco antes da virada do século. Hoje é sabido que redes neurais no cérebro transportam informações emocionais, motivacionais e cognitivas dos centros corticais e subcorticais superiores até o corno dorsal no intuito de inibir a dor. O combustível que produz essa analgesia caseira (endógena, para os entendidos) são crenças e pensamentos positivos, da paz. É aqui que a espiritualidade, ingressa no quadro. Como um novo recurso terapêutico que, além de acessível e barato, se agrega naturalmente ao modelo biopsicossocial da medicina.

Autor: JULIO TRONCOSO

Há muito tempo, não lembro onde, eu me deparei com o folheto de um hospital. Americano, me parece. Entre chamadas propagandeando os serviços oferecidos, alguns textos sobre doenças, tratamentos, novas tecnologias médicas… um chamou a minha atenção. Era sobre a espiritualidade e o câncer. Ou melhor, sobre o uso da espiritualidade como analgésico, paliativo ou coisa parecida, no tratamento oncológico.

Mais uma lorota gringa, eu pensei. Na hora. Outra peça de autoajuda desenhada para engrupir gente frágil. Como eu disse, foi há muito tempo. Na época, era mais fácil pensar no próximo projeto, no próximo cliente, no próximo voo, do que em doença e morte. Eu era forte, pertencia a tribo dos fortes.

Hoje não sei se fiquei fraco, mas certamente estou bem mais humilde. Com o passar dos anos, a noção da própria insignificância cósmica, da finitude da vida, se tornam a cada dia mais nítidas.

E você então se volta para onde poderia estar a explicação de “tudo isso”. Do absurdo que é um dia respirar ar puro, contemplar um rochedo ser açoitado por ondas eternas, ler um poema de Neruda e de repente, sem mais, se ver beirando o Nada. E para onde você volta o seu olhar nessas horas?

Para cima, já reparou? Sempre para cima. O corpo pode até se encolher, mas o olhar vai para cima, para o infinito. Como se alguém lá lhe devesse uma explicação.

Pesquisas sustentam consistentemente a ideia de que religião e espiritualidade são importantes para a maioria dos indivíduos. Mais de 90% dos adultos expressam uma crença em Deus…”

Igualzinho ao Homem de Neandertal quando topava com um Tigre Dentes-de-Sabre pela frente, há 400 mil anos; ou a Napoleão voltando da campanha falida na Rússia com a sua Grande Armée reduzida de meio milhão de soldados a apenas 27 mil bípedes tropeçando na neve; ou ao Zé Mané que vê seu time do coração perder de 7 a 1, ou receber um diagnóstico de câncer (que para alguns dá mais ou menos na mesma).

Para cima. Sempre. A explicação tem que estar lá. Espiritualidade é mais ou menos isso.

Nesse post eu vou abordar as quatro questões seguintes:

  • O que é espiritualidade?
  • O que a espiritualidade tem a ver com a dor?
  • Por que a espiritualidade pode aliviar a dor?
  • A espiritualidade é terapia?


Ficam para um próximo post:

  • Padrões de enfrentamento espiritual à dor
  • Estratégias de enfrentamento espiritual à dor

O que é espiritualidade?

Definições de espiritualidade as há mais eruditas, claro. A melhor que eu achei, mergulhando em vários textos muito sisudos, foi a seguinte:

“Uma experiência que incorpora uma relação com o transcendente e o sagrado. Fornece um forte senso de identidade ou direção, e que influencia não apenas as crenças pessoais, mas atitudes, emoções e comportamentos, criando uma sensação de plenitude e sentido para a vida”.1

A espiritualidade, então, pode ser expressa em muitos contextos fora de uma religião formal ou mesmo informal, e é preciso admitir que ela significa coisas diferentes para pessoas diferentes.2

Fica claro, em todo caso, que espiritualidade e religião são conceitos separados. Mas, de novo, o que é espiritualidade?

Pergunta difícil, essa. Encardida. Há duas décadas um artigo comparou três visões de espiritualidade em pessoas que vivem com câncer. Uma perspectiva teológica examinou abordagens religiosas, filosóficas e místicas. Os autores também revisaram inúmeras perspectivas psicológicas, particularmente das escolas de pensamento analíticas, humanísticas e existenciais. E uma perspectiva da teoria de enfermagem do tornar-se humano também foi vista.3

Como era de se esperar, foi concluído que a espiritualidade é um conceito multifacético, algo assim como um caleidoscópio – qualquer giro do conjunto mostra uma faceta diferente.

Eu penso que chegar a uma meta-definição de espiritualidade não deve nos preocupar além da conta. Uma coisa é certa: a espiritualidade é um conceito, não um objeto, e como tal se assemelha a outros também indefinidos como a alma, a mente, a personalidade, o amor… Indefinidos, mas nem por isso desconhecidos e capazes de inspirar vida, isto é, sentimentos, pensamentos, comportamentos… Suficiente.

E o que a espiritualidade tem a ver com a dor?

Além do fato óbvio de ela ser um indicador essencial de qualidade de vida, especialmente em idosos4, o bem-estar espiritual está positivamente associado aos resultados de saúde em pacientes com diagnóstico de câncer.5

  • Segundo relatório do National Cancer Institute americano, pacientes com câncer que apresentam altos níveis de bem-estar espiritual relatam melhor qualidade de vida, menor nível de depressão, menos ansiedade em relação à morte e menor nível de angústia.6
  • Pacientes internados em hospitais (77%) relataram que os médicos deveriam levar em consideração suas necessidades espirituais e 37% queriam que os médicos abordassem as crenças religiosas com mais frequência.7
  • Um outro estudo confirmou isso, agregando que a necessidade espiritual está correlacionada com autorrelatos de depressão, mas não com dor física ou com a percepção da gravidade da doença.8
  • A maioria (72% de 230) dos pacientes com câncer avançado relatou que o sistema médico não atendia suas necessidades espirituais.9


Para pacientes com câncer, a espiritualidade é uma fonte de força que os ajuda a enfrentar a doença, encontrar significado em suas vidas e dar sentido às suas experiências durante a doença.10

Experimentar sofrimento espiritual, porém, não é exclusividade dos pacientes com câncer. Necessidades espirituais não satisfeitas podem agravar os sintomas de uma doença crônica, perturbar mentalmente o paciente e piorar seu quadro clínico.11

Chegar a um acordo com Deus e consigo mesmo pode trazer calma, serenidade e motivação para enfrentar da doença.12

Por que a espiritualidade pode aliviar a dor?

Não surpreende que a relação entre a espiritualidade e o alívio de uma dor crônica, ou entre a espiritualidade e a aceitação das condições que provocam ou acompanham essa dor, seja um tema que hoje atrai pesquisadores e profissionais de equipes multiprofissionais dos centros de tratamento da dor.13

Quem se propor a estudá-lo, no entanto, logo se defronta com a pergunta seguinte:

O que ocorre no íntimo da pessoa para ela buscar conforto na espiritualidade, na ideia de que algo superior determina o seu destino, de preferência com fins protetivos?

Ora, a dor nunca é uma boa notícia, e às vezes é péssima. Nesses momentos estamos muito sós e nos sentindo desamparados. A reação natural do ser humano a isso sempre foi buscar explicação e apoio no sobrenatural. Há milhares de anos, o sol, a lua, os rios e o vento podiam ser nada mais que isso, mas conferia-se a eles uma força superior, tão inexplicável quanto absoluta. A conexão com essa força, enfim, trazia esperança.

Se a angústia exacerba a dor, a esperança a mitiga.

E se a angústia exacerba a dor, a esperança a mitiga. Estabelecer uma conexão com forças superiores tem função até certo ponto balsâmica porque a desgraça, quando compartilhada, é quase sempre mais suportável do que se vivenciada sozinho. A sensação de abandono é menor, e principalmente se o apoio vem do Além. Os seres queridos de um doente com câncer terminal – e ele próprio, no íntimo – em geral, mantém viva até o último suspiro a expectativa de que algo miraculoso pode acontecer e que tudo voltará a ser como antes. Não fazem isso por masoquismo, para sofrer, mas para sofrer menos. Mesmo que o desfecho fatal seja inevitável, visões positivas de esperança trazem algum conforto. E a procura pelo conforto, lembremos, é uma das motivações humanas mais poderosas que existem.

A espiritualidade, então, pode ter função no tratamento convencional de uma doença ou dor crônica, ajudando no controle dos sintomas e no desenvolvimento de estratégias eficazes para amenizar crises de dor ou o impacto emocional de diagnósticos clínicos desfavoráveis. Nada há de esotérico nessa afirmação, nem ela surgiu do nada.

Vejamos,

  • A neurociência tem demonstrado (e a cada dia continua demonstrando) que assim como ideias e ruminações negativas e deterministas colaboram na migração de uma dor aguda para crônica ou agravam os sintomas de uma doença ou dor crônica, pensamentos transcendentes positivos podem suspender ou amenizar esses processos.
  • A pesquisa sobre a biologia e a neurobiologia da dor escancarou uma relação entre espiritualidade e dor. Se a dor persistente é uma experiência complexa e multidimensional decorrente das interrelações entre fatores biológicos e não-biológicos, “o espiritual” não seria tão relevante quanto “o psicológico”, ou “o cultural”?
  • Paralelamente, o reconhecimento de que a dor, por ser uma “experiência complexa e multidimensional”, merece uma abordagem “biopsicosocioespiritual”, torna inevitável a incorporação da espiritualidade à caixa de ferramentas da medicina clínica.
  • Por último, a realidade. Pacientes com dor (ex.: musculoesquelética, câncer ou célula falciforme) relatam que religiosidade e espiritualidade são importantes em sua vida. Eles naturalmente usam uma série de estratégias cognitivas e comportamentais para lidar com sua dor, incluindo fatores religiosos/espirituais, como orações e aconselhamento.14Em um estudo transversal multicêntrico abrangendo 580 pacientes com dor crônica constatou-se que a contribuição da espiritualidade / religiosidade ia muito além da mera aceitação fatalista, mas podia ser considerada um processo de enfrentamento ativo da dor.15

A espiritualidade é terapia?

A essa altura, porém, cabe se perguntar: a espiritualidade funciona em relação a dor? A reduz? A alivia? Ou apenas contribui para suportá-la? Ou ela tem a utilidade analgésica, fugaz e menor, de uma aspirina?

Se bem pesquisas empíricas indicam que práticas espirituais ajudam a melhorar a tolerância da dor, seja aguda ou crônica, não há provas de que elas a curem ou a aliviem.16

Isso desqualifica a espiritualidade como recurso terapêutico?

Certamente que não. É ingênuo esperar de um conceito a mesma analgesia que se espera de um fármaco. Embora não haja evidências científicas robustas de que a espiritualidade reduza a dor, o fato de ela ser solicitada pelos pacientes, e de eles acharem que contribui ao seu bem-estar, já ajuda a melhorar a qualidade de vida dessas pessoas. No mínimo, de forma indireta, ela pode melhorar o seu quadro doloroso ao atenuar estados depressivos e ansiosos.17

A meditação, por exemplo, pode influenciar não só a tolerância à dor, mas também a sensibilidade das dimensões afetivas e sensoriais da dor.18

Isso foi sugerido por uma pesquisa realizada nos Estados Unidos em 2004, abrangendo 108 pacientes com condições complexas de dor crônica.19

Ao invés de se concentrar principalmente em se a espiritualidade reduzia a dor, os pesquisadores visaram a redução das influências angustiantes e incapacitantes da dor. O experimento demorou um mês e no fim revelou “melhorias significativas no funcionamento emocional, social e físico e no uso dos serviços de saúde”, por parte da maioria dos pacientes. As melhorias continuaram 3 meses após o tratamento, correlacionadas com aumentos na aceitação e apoio ao tratamento. Em suma, a capacidade de aceitar a presença de dor e de reorientar seus hábitos de vida apesar da presença de dor foi associada a melhorias funcionais na vida dessas pessoas.

Em suma, as crenças espirituais dos pacientes são um recurso valioso para ajudar a controlar a sua dor. A maioria deles acredita num poder superior e quer que o médico aborde os fatores espirituais da dor.20 Na medida que as doenças crônicas em geral, e as doenças crônicas não específicas (unspecific chronic diseases) em particular, teimam em crescer e afetar cada vez mais gente, a demanda por assistência espiritual na área da saúde aumenta. O problema está pelo lado da oferta. Boa parte dos profissionais da saúde sequer conseguem definir o conceito de espiritualidade, não saberiam instrumentalizá-lo e, compreensivelmente, nem estão preocupados em ajudar os pacientes a fortalecê-lo com fins terapêuticos.

Num próximo post eu irei abordar os padrões de enfrentamento espiritual à dor e as estratégias usadas para tanto.

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