Espiritualidade: A terapia da fé – Parte 2

Espiritualidade: A terapia da fé – Parte 2
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As crenças espirituais têm efeito duplo sobre a capacidade de uma pessoa enfrentar a dor. Elas podem levá-la a negar a existência de uma pandemia ou a rejeitar a chance de se vacinar, família inclusive. Ou todo o contrário. Por isso, nas últimas décadas, a espiritualidade, não confundir com religiosidade apenas, está surgindo como opção terapêutica, e não apenas para os que foram desenganados, mas também para os que convivem com dor persistente. Esse post descreve o que essas pessoas podem fazer para enfrentar a sua condição se apoiando na espiritualidade.

“Você pode transformar todo drama feio e prejudicial em uma bênção genuína ao vê-lo de forma diferente. A questão é: você quer sofrimento ou paz? É simples assim.”

– Donna Goddard

O USO DA ESPIRITUALIDADE NO ENFRENTAMENTO DA DOR CRÔNICA

Autor: JULIO TRONCOSO

Afinal, qual é o impacto das nossas crenças espirituais na capacidade de enfrentamento à dor?

Além dos aspectos biológicos, psicológicos e sociais da dor de alguém, a espiritualidade pode ser um fator terapêutico. Alguns pacientes podem ver sua dor como um castigo infringido por um poder superior por causa de algo que eles podem ter feito de errado em sua vida. A eventual resolução desse conflito espiritual íntimo pode reduzir o estresse de quem vive com dor crônica e ajudar a controlá-la de maneira mais eficaz.

Causas espirituais comuns de dor crônica

Embora muitas vezes esquecido, o motivo pelo qual seu paciente está sentindo dor pode ser devido a um conflito não resolvido em sua vida espiritual. Algumas formas comuns de crenças espirituais instáveis que podem se manifestar como dor no corpo podem incluir1:

  • Culpa
  • Solidão
  • Falta de propósito
  • Baixa autoestima
  • Sentimentos de indignidade
  • Envergonhado do comportamento passado ou presente
  • Merecendo punição por comportamento anterior
  • Abandono por Poder Superior ou Amado


Crenças espirituais desestabilizadoras podem enfraquecer a disposição do paciente para enfrentar uma dor persistente, prejudicar a expectativa de vir a sentir alívio ou impedir uma recuperação tranquila. Por outro lado, há fortes correlações e associações indicando que pessoas espirituais percebem a dor crônica como uma chance de desenvolvimento humano e espiritual.

Elas recorrem a padrões e estratégias de enfrentamento à dor que comentarei a seguir.

Padrões e estratégias de enfrentamento à dor

Um padrão, é um comportamento que, por repetido, se torna previsível. Por exemplo, se recusar a ouvir más notícias. Veremos que, no caso em pauta, diferentes padrões de enfrentamento à dor pela via espiritual podem ser influenciados pelo lócus de controle da pessoa. Uma estratégia é a maneira de conseguir um objetivo maior. Por exemplo, rezar ou assistir uma série da Netflix diante de um diagnóstico de saúde ruim são estratégias diferentes. 

Diferentes padrões de enfrentamento espiritual

No âmbito de uma doença crônica severa, o conceito de “enfrentamento” se refere a como e onde o paciente encontra recursos para sobreviver à debacle de um diagnóstico clinicamente arrasador, como a descoberta de uma hérnia de disco, na melhor das hipóteses, ou de um tumor, na pior.

O lócus de controle é um conceito que se refere a expectativa do indivíduo sobre o quanto suas realizações, boas ou más, se encontram sob controle interno (esforço pessoal, competência etc.), ou externo (as outras pessoas, sorte, chance, etc.). Por exemplo, se você é diagnosticado com hérnia de disco, o primeiro assume a culpa por não ter se preocupado com a postura, enquanto o segundo vê nisso o desígnio de Zeus, Jeová, Thor ou o Deus dos cristãos.

Foi formulado por Julian B. Rotter em 1966 em seu artigo “Psychological Monographs“.

Diferentes pessoas veem seu controle sobre os eventos que ocorrem em suas vidas de maneiras diferentes. Alguns podem acreditar que têm controle total sobre tudo o que acontece e assumem total responsabilidade, enquanto outros acreditam que tudo acontece dependendo do plano de Deus.

Suponhamos que Fulano acaba de ser notificado pelo seu médico de que o ultrasom da próstata revelou uma mancha “muito suspeita” e que será necessário fazer uma biópsia. O mundo desaba igual, mas ele pode adotar uma de duas atitudes: conversar primeiro com Deus sobre o que ocorre e ouvir dele alguma opinião sobre o que fazer, e depois ir conversar com o médico para inquirir dele que precauções tomar (exercício, alimentação etc.), e como se informar melhor sobre a próstata, antes da biópsia; ou ir direto à secretária do consultório para acertar a conta da consulta e a data da biópsia, e em seguida bater a cabeça no primeiro poste que aparecer como forma de aplacar a ira divina.

As duas atitudes são explicadas pelo conceito do lócus de controle.

Digamos que Fulano 1 tem a Deus, ou a um poder superior que ele reconhece como tal, dentro de si. Um companheiro a quem informar e de quem ser informado, mas que acompanha e dá cobertura até certo ponto… porque desse ponto em diante a decisão e a responsabilidade é só dele, do Fulano 1. O locus de controle dele é interno.

Fulano 2 pertence a tribo daqueles que acham natural que, para bem ou para mal, um poder superior tenha controle total sobre a vida das pessoas e suas circunstâncias. Natural é, também, adiar decisões e delegar a esse poder superior a responsabilidade total pelas situações boas e ruins que surgem ao longo da vida. A ideia aqui é deixar a situação dolorosa, e a própria dor, “seguir o fluxo” e deixar aquele poder situar tudo de acordo com seu plano. O lócus de controle desse pessoal é externo.

Você pode encontrar pacientes que ficam totalmente à vontade com qualquer diagnóstico que recebam. Eles podem aceitar sua dor e também adotar a ideia de que não há muito o que fazer a respeito porque alguém ou algo tem um plano maior. Embora essas pessoas colham os benefícios de menos estresse e menos sintomas amplificados, elas podem não estar tão motivadas para agir no controle da dor. Você pode ser capaz de ajudar um paciente com essa estrutura de crença, confortando-o com o pensamento de que seu poder superior o ajudará a encontrar uma maneira de superar sua dor.

O lócus de controle que alguém acredita ter sobre suas vidas pode ser autodirigido ou colaborativo. 

Enfrentamento Autodirigido

Se alguém está em uma situação dolorosa e acredita que existe um poder superior, mas tem controle sobre suas circunstâncias, estará utilizando um enfrentamento autodirigido para sua dor. Esse padrão de enfrentamento leva a uma melhor capacidade de lidar com situações adversas por meio da resolução de problemas e aumenta a satisfação geral com a vida.2 Essa pessoa pode ver sua conexão com um poder superior como mais uma amizade, onde se voltam para os céus em busca de apoio emocional e conforto, mas trabalham para resolver os problemas por conta própria. Ela pode se sentir abandonada por seu poder superior em tempos de luta e pode ficar frustrada se as coisas não correrem de acordo com seus planos. Será vital para o médico lembrá-la da conexão que ela tem com esse seu poder superior e encorajá-la a buscar conforto neste momento de luta.  

Enfrentamento Colaborativo

 

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Nessa forma de enfrentamento, o paciente e seu poder superior trabalham juntos para resolver os problemas de forma colaborativa. O paciente acredita que um poder superior está trabalhando para ajudá-lo a superar sua dor, mas também é sua responsabilidade agir.

Por exemplo, se um paciente é diagnosticado com artrite reumatoide e usa uma abordagem colaborativa com um poder superior para superá-la, ele pode confiar em seu poder superior para fornecer alguém que possua o conhecimento para ajudá-lo a tratar sua artrite. Em vez de esperar que alguém apareça sem muita pesquisa, esse paciente provavelmente fez uma extensa pesquisa para encontrar um médico que considerasse o mais qualificado para ajudá-lo. Se eles decidirem que você é o clínico que possui essas qualidades, será seu dever continuar a motivá-los a fazer sua parte no cuidado de seu corpo, ao mesmo tempo em que encoraja sua crença de que seu poder superior fará a sua parte ajudando-os na cura.

Diferentes estratégias de enfrentamento espiritual

Os padrões de enfrentamento determinam as estratégias que podem ser utilizadas em situações adversas. Quando enfrentam desafios na vida, muitas pessoas podem recorrer a crenças, práticas ou atitudes religiosas ou não religiosas específicas para ajudá-las a superar esses desafios. A utilização dessas estratégias de enfrentamento pode ser eficaz na redução dos sintomas e, possivelmente, na aceleração do processo de cura.3 Alguns mecanismos de enfrentamento comuns usados ​​por pessoas para gerenciar sua dor física ou emocional podem incluir:

  • Oração
  • Meditação
  • Frequência à igreja
  • Conectando-se com a natureza
  • Interagindo com entes queridos
  • Aumento do envolvimento com hobbies
  • Fortalecimento do relacionamento com um poder superior


É vital que os médicos estejam cientes dessas estratégias para que possam ajudar seus pacientes a encontrar as estratégias de enfrentamento espiritual mais eficazes para eles.

Epílogo

“A mente ferida deve ser restaurada como um osso fraturado. Não pode curar a si mesmo sem realinhamento espiritual.”

– Anthon St. Maarten

A dor nem sempre é resultado de desequilíbrios que podem ser vistos com o olho. Às vezes, a dor é causada por fatores que não são concretos, como o conflito espiritual. Mesmo quando a espiritualidade pode não ser a causa da dor, pode ser útil examinar as estratégias de enfrentamento espiritual para ajudar no controle da dor. Os médicos precisam assumir a responsabilidade por determinar o estado espiritual de seus pacientes porque isso pode ajudá-los a decidir se sua dor pode ser mais do que apenas questões anatômicas. Estes também podem ser ajudados a lidar com qualquer tipo de doença ou dor que estejam experimentando e, possivelmente, diminuir a gravidade de alguns dos sintomas, tornando o tratamento um processo menos árduo. A dor espiritual não é algo que pode ser mascarado com medicamentos e não é algo que pode passar despercebido numa avaliação mesmo clínica.

Nota do blog.
Este post foi inspirado originalmente num artigo de autoria do Dr. Joe Tatta, (Doctor of Physiotherapy) e nutricionista, especializado em Terapia de Aceitação e Comprometimento,  sediado em Nova York. https://www.integrativepainscienceinstitute.com/spirituality-pain-management/ Vira e mexe, ele acabou sendo desfigurado por mim, após eu ter me entusiasmado com o tema e encontrado algumas informações que depois agreguei.

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