Eu sou uma mulher. Me escuta ou...

Eu sou uma mulher. Me escuta ou...

Você sabia que hoje o que se comenta sobre dor é mormente baseado em dados masculinos – ou de camundongos machos? Veja como isso afeta a mulher com dor crônica.

“O conselho da mulher é pouco e quem não aceita é louco.”

Miguel de Cervantes
Eu a encontrei de quatro, escrevendo no chão. A minha esposa. Não, não no chão, mas numa cartolina. Aquilo parecia um cartaz, de momento em branco. Mais um, pensei. Desde a prisão do Weinstein aquilo tornara-se habitual. Brotavam no bairro vários movimentos de mulheres indignadas e a minha fazia parte de quase todos.

Qual é o tema do momento? – perguntei.

Ela nem olhou. “O bônus”, disse apenas.

Que bônus? Pensei. Isso era novo. Anteriormente eram abaixo-assinados…

Que bônus?

O bônus da dor, ué!

Bônus da… nem me ocorre o que pode ser isso? Dor de quê? De dente? De cotovelo? E o que isso tem a ver com, digamos, o “movimento”? (Recentemente eu descobrira que falar em “movimento” não acendia os ânimos tanto quanto “esse-negócio-que-vocês-mulheres-andam-aprontando”, por mim tentado inicialmente.)

Tudo. E não fica olhando para mim desse jeito! – ela respondeu, se erguendo do chão.

Pelo visto, aquilo do “movimento” não dera certo. Melhor contemporizar.

Bem, mil desculpas. Mas, então… bônus de dor? Explica para…

Da dor. Da dor feminina.

Onde? Na novela…

Na saúde. No sistema de saúde.

No SUS? Ora, a gente tem convênio e mais ou menos resolve e…

Não no SUS. Mas no sistema de saúde todo, público, privado, militar, evangélico, PCC… todo ele.

No Brasil?

Não, no mundo.

!!!!????!!!!????!!!

Muito bem, eu explico. A mulher sofre mais dor do que o homem – aqui e no Curdistão.

Ah, isso todo mundo sabe – reagi, suspirando. A mulher é mais sensível, chora por tudo e…

Parei por aí. Contemporizando, contemporizando… Bem, e então?

Então, que uma das integrantes do grupo, que é secretária na USP, trouxe uns dados de pesquisas das quais ouviu falar por lá. Segura essa!

  • As mulheres têm dor crônica em maior proporção que os homens.1
  • A proporção feminina da população impactada pela dor crônica é o dobro da masculina (70%).2
  • Geralmente, as mulheres informam experimentar uma dor maior recorrente, dor mais intensa e dor mais duradoura que os homens.
  • A mulheres com dor crônica podem sofrer mais e durante mais tempo que os homens.3

Então, no grupo decidimos adotar como plataforma de luta um bônus de 47% sobre salário, seguro-desemprego, décimo-terceiro… de todas as mulheres do planeta.

Quarenta e sete…! Eu preferi olhar pela janela. Era menos ofensivo, imaginei.

Que grupo? – atinei a perguntar. O do abaixo-assinado contra o síndico?

Não, este é um grupo distinto, mais combativo. O SOCONOSACO.

SOCO…NO…SACO? Ouvi bem?

SOCONOSACO, sim senhor. Isso diz algo para você? No começo, a metade do grupo queria uma sigla que espelhasse o genuíno espírito do pessoal: Somos Contra, SO… CO, SOCO… entendeu?

E aí?

E aí, que a outra metade achou meio morno, queria algo mais… contundente, digamos assim. No final, votamos e deu SOCONOSACO. Soa bem, não soa?

Soa bem, claro… muitíssimo bem – me apressei em dizer. E instintivamente levei as minhas mãos à região da virilha. Porém uma dúvida: como calcularam esse bônus, o da dor? Isso de 47%, convenhamos, é algo bem preciso.

Certamente. E tem base científica inegável. Quero ver esses políticos ignorantes questionar isso – exclamou, desafiante.

Quando?

Quando se vejam diante do nosso projeto de lei. Outra colega do grupo que é jornalista já o está redigindo.

Hummmm…

Você não acredita, como sempre – acusou. Então, vamos ver.

  • As mulheres experimentam doenças mais severas (dores mais agudas) que os homens.4
  • As mulheres são duas vezes mais propensas a ter esclerose múltipla.
  • As mulheres são duas a três vezes mais propensas a desenvolver artrite reumatóide.
  • As mulheres são duas vezes mais propensas a ter síndrome da fadiga crônica que os homens.
  • A fibromialgia tem 75% mais chances de ser diagnosticada em mulheres do que em homens.5
  • As doenças auto-imunes atingem as mulheres três vezes mais frequentemente do que os homens.6
  • E os sintomas de dor músculo esquelética, nem se fala. As mulheres têm mais dores nas costas do que homens.E desordens temporo mandibulares, cefaléias e enxaqueca, mesma coisa.7

E a cereja no bolo: as chances de uma mulher experimentar algumas dessas condições dolorosas ao mesmo tempo são maiores que as de um homem. Várias dessas pragas juntas, já pensou?

E como calcularam esse 47%? – perguntei, mudando de tema. Aquela lista não ia acabar nunca.

Ah, isso foi fácil. Somamos todos os percentuais em que a mulher supera o homem e dividimos pelo total de doenças. Deu 47%. Matematicamente perfeito.

A minha esposa não era boa de contas, é verdade, mas tinha-se formado em Direito numa faculdade privada das boas. E estava falando sério.

Eu fui na cozinha pegar um copo d’água, e quando retornei à sala vi que a pintura do cartaz aquele recomeçara. O número 47 começava a aparecer.


Blog Dor Crônica - Dores Crônicas em Mulheres

Uma semana depois, ao voltar do trabalho, encontrei-a sentada na sala. Desolada. A seus pés, o cartaz dos 47%, amassado e no chão. O tal do bônus da dor, pelo visto, tinha ido para o espaço.

O que foi? – perguntei, cauteloso.

Novos dados – respondeu, olhando pela janela. Parecia querer sair voando por ela.

Ahhhhh, e sobre o que seriam esses… novos dados?

A dor da mulher no mundo, claro!

Como assim? O que tem a ver…

  • Você sabia que a maioria dos testes de analgésicos e anti-inflamatórios em desenvolvimento são feitos com homens?8

E antes que eu fosse pegar o copo d’água, continuou.

  • Você sabia que a maioria das pesquisas sobre dor, seja em laboratórios ou no campo, em geral miram prioritariamente homens e camundongos… e camundongos machos? E que os protocolos relacionados a intervenções cirúrgicas – anestesia, execução, pós-operatório etc. – também estão enviesados masculinamente?

Não, eu não sabia. Eu e mais de 7,6 bilhões de terráqueos.

E há variações marcantes na maneira como homens e mulheres respondem à drogas.9

Homens e mulheres não respondem igual à anestesia e o ibuprofeno.10 E sabe por quê?

Não me restou outra coisa que fazer cara de paisagem.

Pelo mesmo motivo anterior – a minha esposa prosseguiu, implacável. Porque as doses, os parâmetros de “normalidade”, os tempos de recuperação, as expectativas de dor pós-operatória, etc…. estão mormente baseados em pesquisas de homens, homem!

Espantoso – reconheci. Mas por que saber disso detonou o projeto…o do SOCONOSACO?

Porque agora não podemos afirmar nada com qualquer base científica, entendeu?

E diante do meu silêncio – eu juro que estava mesmo tentando entender – ela explicou.

Como vamos alegar que a mulher reage à anestesia pior do que o homem, se a pesquisa em que essa afirmação se baseia foi pautada em marcadores que não são femininos? Ou que a mulher é mais sensível à dor que o homem, se o que entendemos por “sensibilidade”, tem origem numa pesquisa de população eminentemente tetosterônica?

Tetoste… e agora? – inquiri. O grupo, o projeto de lei, a causa femi…

Sei lá! – ela exclamou. O grupo está dividido. Uma quer desistir, outra, levar o assunto ao tribunal internacional de Haya, afinal está se cometendo um crime hediondo contra 3,8 bilhões de mulheres… aproximadamente, vamos. E ainda uma terceira quer prosseguir na luta na base de fake news.

Aí, eu me perdi. Como…

Ora, se não podemos afirmar nada por serem os dados enviesados, pelo mesmo motivo nós também podemos afirmar o que quer que seja, não podemos? Enfim, quanto a mim, eu estou confusa.

Sim, mas e o grupo? – insisti. Essas são posturas, individuais, isoladas. O que pensa a comunidade SOCONOSACO como um todo?

Pensa isso mesmo. Porque o grupo é esse, ué! Somos quatro. Ora, o Women´s Lib dos anos 60 não começou com menos?

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