Existe uma coisa como a dor psicológica? E por que isso importa?

Existe uma coisa como a dor psicológica? E por que isso importa?

As pessoas reportam dor por razões estritamente psicológicas, admite a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP, 2007). Mas, apesar da concessão, a IASP não abre espaço em seus esquemas de classificação de distúrbios da dor para a dor vivida ao se perder um ser querido. Enquanto a dor regional complexa – que afeta em algum lugar na ordem de 6-26 pessoas em 100.000 – aparece na lista, a dor relacionada à tristeza ou à depressão, muito mais comum, fica de fora. Eis o tema do presente artigo. Você não irá entendê-lo, a menos que, infelizmente, já tenha perdido alguém na sua vida.

David Biro, National Library of Medicine, National Institutes of Health dos EUA

INTRODUÇÃO

“Eles dizem que expulsar uma pedra dos rins é a pior dor que você poderia sofrer. Eles estão errados. Claro que foi ruim. Lembro-me de choramingar como um bebê na Sala de Emergência. Mas era uma piada comparada a essa dor que nunca passa. Continua a me comer por dentro. Eu ainda sinto isso agora, intenso como sempre, 10 anos depois.”

Dan Vento está falando sobre o tempo em que sua filha sofreu uma recaída de uma forma incomum de câncer chamado osteossarcoma. Jennifer tinha nove anos, a mais nova de suas três filhas. Dan e sua esposa Mary pensaram que tinham resistido à tempestade. A primeira rodada de quimioterapia pareceu funcionar. Mas um ano depois, o joelho esquerdo de Jennifer começou a inchar e a doer novamente, depois a coxa, depois as costas. O câncer não só tinha retornado, mas agora estava em todo o corpo de Jennifer, e tinha acontecido tão rapidamente que até mesmo os médicos foram pegos de surpresa.

Naturalmente os Ventos tentaram de tudo, até mesmo um transplante de medula óssea. Mas o câncer não pôde ser interrompido. Tumores metaestáticos invadiram os ossos de Jennifer, obstruíram suas vias aéreas e destruíram sua visão. Durante a noite, sua filhinha se tornou irreconhecível, uma massa inchada e irregular coberta de tubos e linhas ligadas a máquinas bipando. A pior parte é que não havia nada que pudessem fazer para ajudar. Eles ficaram parados, sentindo como se o câncer estivesse rasgando seus ossos também.

Menos de 2 meses após a recaída, Jennifer morreu. Foi quase um alívio no início; os Ventos não suportavam ver a filha sofrer mais um dia. Mas quando viram Jennifer no caixão pequeno, quando viram o caixão sendo abaixado na terra, quando viram a terra cobrindo o caixão – daquele dia em diante sua dor nunca terminaria.

“Eu tentei ser forte por conta de minha esposa e filhos”, explicou Dan Vento. “Se elas me vissem desmoronar, como seriam capazes de continuar?” Mas apesar da fachada forte, Dan Vento estava desmoronando. “Eu me senti fraco e tonto o tempo todo, como se eu fosse desmaiar, e precisava me agarrar em algo – uma cadeira, a parede, qualquer coisa-para evitar cair.”

Vento sempre foi um sujeito forte. Embora não fisicamente imponente – ele era pequeno e atarracado – Vento era um homem do Bronx, que possuía uma exitosa rede de mercearias e sempre conseguiu o que queria, no trabalho e em casa. Quando Jennifer morreu, no entanto, ele não parecia querer mais de nada e era cada vez mais difícil de se concentrar. Sua vida começou a se desfazer. Só havia dor.

VISÕES DIVERGENTES

O que Dan Vento experimentou quando ele assistiu a sua filha sofrer, quando ele a enterrou, e agora, 10 anos depois, ainda enredado em sofrimento – seria isso dor? Ele certamente pensa que sim, e usa a palavra tal como o fez quando passou uma noite agonizante no pronto socorro com pedras nos rins. Assim como muitas outras pessoas que sofrem trauma semelhante, é igual aqueles que sofrem “dor” em doenças psiquiátricas como depressão e esquizofrenia.

A maioria dos profissionais, no entanto, discordaria. Os cientistas que estudam a dor e os doutores que tratam a dor consideram a experiência um fenômeno estritamente físico, no sentido que pode somente ser causado por um ferimento ao corpo. A dor ocorre quando os receptores nas células nervosas na pele e nos órgãos internos detectam estímulos potencialmente nocivos, um beliscão, por exemplo, ou altas temperaturas (Melzack E Wall 1983, pp. 81 – 108). O nociceptores (do latim nocere, para ferir), em seguida, sinalizam o cérebro, que avalia a ameaça e coordena uma série de respostas protetoras. Puxamos o braço para longe da chama; descansamos a perna quebrada. Este sistema de alerta biológico é altamente eficaz. Ele impede mais danos e ajuda na cura, enfim, é algo sem o qual não podemos viver muito bem. Basta pensar em pacientes incapazes de sentir dor, aqueles com defeitos genéticos e aqueles com doenças que afetam a transmissão neural como diabetes e lepra; os benefícios da vida sem dor são facilmente superados pelos efeitos negativos decorrentes de lesões progressivas no corpo e de uma morte prematura (veja Brand e Yancey 1997).

Dan Vento não sofreu nenhuma lesão física. Igual a pacientes que experimentam a dor psíquica que acompanha a depressão aguda. Ou a pacientes com câncer (e seus pais) que experimentam o medo, a ansiedade e o isolamento esmagadores que acompanham os sintomas físicos de suas doenças. Seus nociceptores, pelo menos com respeito a estes sentimentos particulares, permanecem silenciosos, sem emitir nenhum sinal de aflição ao cérebro. Portanto, seus sentimentos não são realmente dor, mas algo categoricamente diferente, o que os profissionais preferem chamar de sofrimento ou angústia (Cassell 1991, pp. 30 – 46). E consequentemente, um não encontrará nenhuma menção a sofrimento ou a depressão nos esquemas médicos de classificação da dor.

Mesmo os psiquiatras são cautelosos ao falar sobre a dor com seus pacientes, reservando isso somente para aqueles casos raros e estranhos de dor psicogênica ou da desordem de dor somatoforme – isto é, dor parecida com a dor física localizada numa parte do corpo que não foi ferida, a versão moderna do que Freud chamou de histeria ou reação de conversão (DSM 3, Rev.; Associação Psiquiátrica Americana 1987). A conclusão é que a dor psicológica vivida por Dan Vento e milhões de pacientes com depressão aguda é um paradoxo ou, no máximo, uma metáfora. Ela simplesmente não existe. 1

O ARGUMENTO SUBJETIVO

Como pode haver tal abismo entre o leigo e o perito, especialmente no que diz respeito a uma parte tão comum da vida? E se os especialistas estão certos, como poderiam pessoas comuns como Dan Vento, bem como os nossos profissionais da língua – celebrados escritores como William Styron e Joan Didion, por exemplo, que escreveram tão eloquentemente sobre a dor na depressão (Visible Darkness e The Year of Magical Thinking) – terem entendido as coisas tão errado?

A não ser que, claro, tenham se equivocado. Talvez uma tendência instintiva para ver a dor de forma mais ampla, como uma categoria que incorpora tanto as variedades físicas e psicológicas, pode ser mais esclarecida do que a concepção mais estreita do perito. Talvez haja boas razões para falar de dor no cenário do luto ou da depressão ou da esquizofrenia ou do divórcio ou do sofrimento não-físico que acompanha uma doença.

Vamos examinar as evidências. Em primeiro lugar, há muitas provas subjetivas – o que as pessoas sentem e pensam e, em seguida, transmitem aos outros através da linguagem. Quando pedimos às pessoas falar sobre experiências emocionais negativas e, descobrimos que elas não só usam a palavra genérica “dor” para rotular essas experiências, mas também as descrevem da mesma maneira que descrevem a dor física. Agora a dor de qualquer tipo é notoriamente difícil de expressar. Há problemas para conceitualizar a experiência da dor porque ela é perceptivamente inacessível (não podemos ver ou tocar a dor) e porque, ao contrário de outros estados internos, nem sempre está ligada a objetos externos que podemos ver ou tocar (como a pessoa que nos provoca raiva ou o cão que nos mata de medo) (Scarry 1985, pp. 161 – 162; BIC 2010, pp. 11 – 47). Como resultado, um é forçado a pensar sobre a dor indiretamente, através da metáfora: imaginamos um objeto reconhecível ligado à dor e, em seguida, falamos da experiência em termos desse objeto.

De longe, a metáfora mais comum usada para descrever a dor física é a arma (Scarry 1985, pp. 15 – 19). Relacionamos a dor com atirar ou esfaquear. Longas listas de adjetivos semelhantes podem ser encontradas no Questionário da Dor McGill, criado na década de 1970 para ajudar os pacientes a comunicar seus sentimentos aos médicos. A dor pode ser descrita como perfuração, queimadura, moedura, latejamento, picaduras, e assim por diante. Cada um dos escritores implica a presença de uma arma ou de algo parecido capaz de ferir o corpo – a broca que perfura, o fogo que queima. E como a maioria dos pacientes nunca foram esfaqueados ou baleados ou não estão sendo esfaqueados ou baleados no momento da dor, eles usam esses termos figurativamente para objetivar o que seria de outra forma difícil de fixar e representar; agora eles podem ver a dor e descrevê-la como se estivessem falando em facas e armas e nos danos que estas podem fazer ao corpo.

Pessoas com dor psicológica usam as mesmas metáforas para descrever suas experiências. Dan Vento, silenciado por tanto tempo pela dor incapacitante da perda, acabou eventualmente por se abrir a um psiquiatra. Parecia como se uma bomba tivesse explodido dentro dele, obliterando tudo em seu corpo – explicou ele. Em outros momentos, sentia que o dano estava ocorrendo mais lenta e metodicamente, como se houvesse um enxame de parasitas corroendo seus órgãos. Mas de qualquer forma, o resultado para o Vento era  o mesmo: ele estava sendo esvaziado do interior para fora -“eviscerado” foi a palavra que ele usou – até que tudo o que restava era uma ferida aberta, grande e crua.

Quando seu marido morreu e ela foi inundada de tristeza, Joan Didion viu ondas gigantes. Em suas memórias, ela escreve que sentiu como se estivesse sendo espancada por “ondas destrutivas, paroxismos, apreensões súbitas enfraquecendo os joelhos e cegando os olhos e obliterando o dia-a-dia da vida “(Didion 2005, pp. 27 – 28). Para Kay Redfield Jamison, uma psiquiatra que sofre de depressão maníaca, a arma é uma centrífuga gigante, contendo tubos de seu sangue. Gira em torno de sua mente mais rápido e mais rápido, fora do controle, até explodir, espalhando o sangue em toda parte (Jamison 1996, p. 80).

Ouvindo a linguagem da dor de todos os tipos, descobrimos uma estrutura de sentimento que a metáfora da arma efetivamente captura (BIC 2010, pp. 79 – 96). Desencadeada pelo luto, pela dor e depressão ou por pedras nos rins ou uma lesão espinhal, a dor pode ser lida como uma história em três partes:

Arma → Ferir → Fugir

Na dor sentimos como se deve haver alguma arma – como um objeto (bomba, enxame de parasitas, onda gigante, centrífuga) que está se movendo em direção a nós e ameaçando-nos; que quando ele nos atingir, ele vai nos ferir, possivelmente até mesmo destruir-nos; e que devemos fugir dele ou nos proteger dele a todo custo. Mesmo quando não há nada vindo para nós, quando não há nenhuma lesão, quando permanecemos imóveis, sentimos o movimento, a lesão e o desejo de correr.

Aconteça o que acontecer que nos faz sentir essas coisas – a perda de um ente querido ou a destruição física do câncer – nós experimentamos a dor.

NOVA EVIDÊNCIA OBJETIVA

A evidência subjetiva para a existência de dor emocional é convincente, especialmente porque não há nenhuma maneira objetiva de verificar e caracterizar a dor de outra pessoa. Embora possamos anexar a uma pessoa um dispositivo de ressonância magnética funcional (FMRI), observar o fluxo sanguíneo para centros de dor no cérebro e, em seguida, inferir a sua presença, o único teste definitivo é a palavra da pessoa: Eu sinto dor ou não.

Na verdade, a maioria dos especialistas reconhece a natureza inescapável da dor. Em um adendo à sua definição universalmente aceita de dor – “uma experiência sensorial desagradável e emocional associado com danos reais ou potenciais tecidos” – a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP 2007) admite que as pessoas reportam dor por razões estritamente psicológicas e que, desde que tais relatos não podem ser distinguidos dos exemplos onde há uma causa física, estes devem ser considerados conforme relatados: “Se a gente considera a experiência do paciente como tendo dor, e se ele a relata na mesma maneira que a dor causada por danos nos tecidos, Então ela deve ser aceita como dor. ”

Mas, apesar da concessão, o IASP não abre espaço em seus esquemas de classificação de distúrbios da dor para a dor vivida por Dan Vento, Joan Didion, ou Kay Redfield Jamison. Enquanto a dor regional complexa – que afeta em algum lugar na ordem de 6-26 pessoas em 100.000 (de mos et al. 2007) — aparece na lista, a dor relacionada a tristeza ou a depressão, muito mais comum fica de fora.

Para os médicos e cientistas que apoiam o argumento subjetivo apenas “para inglês ver”, no entanto, há agora cumulativa evidência objetiva ampliando a nossa noção de dor. Desde a introdução da Teoria do Controle do Portão nos anos 1960, a ligação entre o dano do tecido e a dor vem se enfraquecendo progressivamente. Agora temos uma melhor compreensão de que pode haver grave lesão sem dor (soldados feridos em batalha) e, inversamente, nada de lesão e dor severa (enxaqueca, fibromialgia). Isto acontece, como os proeminentes cientistas da dor Ronald Melzack e Patrick Wall explicaram, porque há fatores psicológicos – cultura e experiências passadas, nossos estados emocionais e cognitivos, o contexto da dor-que podem intensificar ou amortecer o sinal nociceptor antes de se registrar em centros cerebrais superiores (Melzack e Wall 1983, pp. 15 – 33). Além disso, muitos casos de dor crônica parecem ocorrer sem qualquer estimulação nociceptiva direta. A dor neuropática resulta quando um sistema nervoso disfuncional dispara espontaneamente ou interpreta mal estímulos sensoriais ordinários como sendo nocivos (Woolf e Mannion 1998). No caso do tic dolouroux, por exemplo, o movimento de uma pena em todo o rosto pode desencadear espasmos de dor intensa.

Um segundo fio de evidência vem da nossa compreensão crescente de como o cérebro processa a dor. Acontece que a dor é um sistema perceptivo incrivelmente complexo com vários subsistemas. Mais importante para esta discussão, existem áreas distintas no cérebro que processam a sensação de dor (sua qualidade, localização, intensidade) e nossos sentimentos sobre a sensação (a narrativa de sua aversão) (Price 2000). Além disso, o centro sensorial (no córtex somatossensorial) e o centro afetivo (no cingulado anterior e insula córtices) não são apenas espacialmente distantes, mas dissociáveis: ou seja, uma pessoa pode ter a sensação de dor, mas não sentir dor (Grahek 2007, pp. 29 – 50). Podemos observar isso em pacientes que estão passando por uma pequena cirurgia com medicação que os torna indiferentes a serem cortados com um bisturi. Ainda mais dramático é um raro grupo de pacientes cujos centros de dor afetiva (ou as conexões com esses centros) foram destruídos. No caso da dor assymbolia, o paciente ainda pode sentir uma picada de agulha (porque o sinal nociceptor registra isso no córtex somatossensorial), mas vai rir da sua insignificância (porque o sinal não é processado pelo córtex cingulado anterior).

Estes casos de desconexão entre a sensação e o sentimento de dor nos dizem que, apesar da complexidade da dor que envolve sensações e comportamento, sentimento, cognição e memória – o componente crítico é sentir. Se não tivermos os sentimentos que Dan Vento teve quando a pedra do rim estava passando através da sua uretra – que algo ruim estava acontecendo com ele, que algo estava danificando seu corpo, e que ele devia fazer tudo o possível para evitar mais danos – então a dor perde o seu valor biológico. Porque eles riem da dor ao invés de fugir dela, os pacientes com dor assintomática provavelmente não se diferenciam dos pacientes com insensibilidade congênita ou adquirida. Na verdade, eu diria que se não sentimos dor, não faz sentido sequer usar o termo. Pacientes com lepra, soldados no campo de batalha, pacientes sedados em cirurgia, pacientes com dor asyimbolia podem experimentar sensações desagradáveis, mas não sentem dor e não tomam medidas de proteção. Tudo depende do sentimento doloroso.

Se o dano do tecido não é necessário para sentir dor e se há um centro afetivo especial no cérebro dedicado a tal sentimento, por que não pode esse centro ser ativado por outros meios que não o caminho nociceptor? Por que não é possível que os estímulos psicológicos nocivos-estímulos que ameaçam o bem-estar emocional de uma pessoa, como a perda de uma criança ou a dor da depressão ou o sofrimento de pacientes com câncer – encontrem o seu caminho na direção do giro cingulado anterior, fazendo-nos sentir da mesma forma que fazemos quando experimentamos dor física?

Isto é precisamente o que cientistas estão descobrindo. Naomi Eisenberger e seus colegas da UCLA desenvolveram recentemente um modelo inteligente de dor psicológica que pode ser estudado objetivamente (Eisenberger et al. 2003). Sujeitos normais jogaram um jogo de bola de vídeo enquanto seus cérebros foram monitorados por ressonância magnética. Quando excluídos do jogo virtual, os sujeitos experimentaram angústia correlacionada com o aumento do fluxo sanguíneo para a cingular anterior e o córtices insular, exatamente o mesmo padrão que teria ocorrido se tivessem sido perfurados por uma agulha. Quanto maior o sofrimento social gerado, mais ativos estes centros afetivos da dor tornaram-se. Estudos feitos em sujeitos entristecidos e afligidos produziram resultados similares (Gundel et al. 2003).

Ao que parece a intuição do leigo sobre a dor está sendo suportada pela ciência; a dor psicológica parece rolar nas mesmas trilhas neurais que a dor física. E por que não deveria? Assim como estímulos físicos que podem danificar nossos corpos geram certos sentimentos e respostas, assim também estímulos psicológicos podem danificar a nossa psique, como a perda de uma criança ou os sintomas intrínsecos da depressão. Da mesma forma que precisamos descansar o corpo para nos proteger de mais danos, assim também devemos proteger a mente. Este sistema de alerta mais completo e abrangente certamente faz sentido a partir de uma perspectiva biológica.

POR QUE AS PALAVRAS IMPORTAM

Importa se chamamos o sentimento de Dan Vento de dor ou de sofrimento? Isto é apenas uma questão semântica, um desacordo entre dois conjuntos de usuários de línguas que, no final, não tem quaisquer consequências negativas?

Sim, importa, e sim, tem consequências adversas. Importa porque o desacordo reflete uma questão muito maior: a mentalidade rígida da comunidade científica, que vê o mundo de uma certa maneira e não permite o desvio, mesmo de dissidentes dentro de suas próprias fileiras. A ciência foca seu foco exclusivamente no mundo objetivo, o que pode ser estudado, quantificado e explicado. Porque parece resistente a tal inquérito, o âmbito subjetivo tem sido deixado tradicionalmente fora dos limites, como algo a ser apreciado em termos muito mais “levianos” e por ciências “mais suaves” (como a psicologia).

Esta mentalidade informa valores, e não apenas os valores dos cientistas. Devido à sua posição na hierarquia intelectual, há um efeito trickle-down, que se estende à prática ciência da medicina e à cultura em geral. No caso da dor, existe apenas um tipo, o tipo real ou físico que pode ser objetivamente verificado observando a atividade nociceptiva ou encontrando lesões em uma tomografia. Outras experiências podem ser dolorosas, mas se não estivessem ligadas a danos do tecido elas não são dor. Sendo material muito mais subjetivo e menos transparente, elas são, portanto, marginais, menos importantes, e melhor rotuladas de outra coisa (como sofrimento ou angústia).

Enquanto a dor psicológica pode ser desagradável, o fato permanece de que ela está “em nossas cabeças”, não nos nossos corpos. À medida que continuamos a desdobrar a lógica do paradigma- objetivista – agora permeia completamente nossa consciência cultural – aqueles que sofrem sem qualquer corroboração física para mostrar inevitavelmente começam a parecer suspeitos. Eles são loucos (mentalmente doentes), enganados (porque não há nenhuma dor real) ou fracos (tudo doe nesses sujeitos). Eles não precisam de analgésicos ou analgésicos, mas de psiquiatras e padres.

Desconsiderando por um momento que toda dor está “na cabeça” – mesmo a dor de pedra renal de Dan Vento, localizada do lado direito da sua pélvis – a verdade é que a dor psicológica é muitas vezes mais intensa e perigosa do que a “coisa real”. Para Dan Vento, sua luta com pedras nos rins, entre as mais dolorosas de todas as condições médicas, não era nada comparada com a dor do luto. Da mesma forma, Lucy Grealy nos diz em suas memórias, Autobiography of a Face (1995), que ela preferiria enfrentar a dor do câncer e seus tratamentos do que a dor muito pior do sentimento de estar deformada e solitária (PP. 7, 170, 186). Na verdade, muitos desses sofredores dão as boas-vindas, mesmo cortejam, a dor física, sentindo que ela realmente alivia a sua dor emocional a um certo grau. E quando, sem alívio, a dor se torna insuportável, alguns vão escolher terminá-lo, terminando com a própria vida. As taxas de suicídio são significativamente maiores no cenário do luto e de dor e depressão do que da dor física (Schneidman 1998).

Além de relegar os sofredores psicológicos para o status de segunda classe, a mentalidade objetivista prevalecente é também prejudicial     para outro grande grupo de pessoas. Sofredores de condições de dor crônica como enxaqueca, dor lombar, e fibromialgia encontram -se em algum lugar no limbo entre a dor real e a derivada, tipo mental. Por um lado, a sua dor parece física (porque é localizada numa parte do corpo), mas, por outro, tem mais em comum com a angústia psicológica (porque não há lesão detectável). Por um longo tempo, a medicina não tinha ideia do que fazer com esses pacientes, e assim eles derivaram de médico em médico sem encontrar alívio. Embora suas vidas tenham melhorado com a introdução de especialistas em dor e clínicas de dor, os pacientes com dor crônica ainda são muitas vezes atormentados pela lógica insidiosa da perspectiva objectivista (ver Heshusius 2009, pp. 1 – 19). Alguns, de fato, recorrem à automutilação para legitimar sua dor face ao ceticismo contínuo de familiares e médicos: “Você vê agora,” eles dirão, apontando para seus braços cortados, e a dor não está na minha cabeça, é real” (ver Padfield 2003, pp. 41 – 43).

Eu trago a tona a seriedade da dor psicológica e a situação “tipo limbo” das condições de dor crônica, porque, ambas vão contra a mentalidade predominante. Talvez, então, devamos mudar essa mentalidade e ampliar nossas perspectivas. Em vez de privilegiar um tipo de dor sobre o outro, vamos abordá-los com um espírito mais democrático, inclusivo, em que todas as dores são criadas iguais. Ou melhor ainda, vejamos a dor como ocorrendo em um continuum ou espectro que rola de um prisma ideal (dor ligada somente ao ferimento físico) a outro (dor ligada somente ao ferimento psicológico).

Um espectro de dor certamente reflete à nossa experiência com mais precisão do que o paradigma convencional. Ele acomoda a nossa crença de que o sentimento de dor pode surgir de uma lesão ao corpo, bem como de uma lesão na mente. Ele também acomoda a nossa experiência quanto a uma sobreposição considerável entre as duas variedades, porque nunca há dor psicológica pura física, nem dor física pura, mas sempre combinações. Aqueles que sofrem de dor de luto e doença mental muitas vezes têm queixas somáticas: Dan Vento sentiu a perda de sua filha em seu intestino; a descida de William Styron em depressão foi acompanhada por problemas de sono e respiração (Styron 1992, pp. 18, 42 – 43). Ao mesmo tempo, pacientes com dor física inevitavelmente sofrem emocionalmente; pacientes com câncer rotineiramente se sentem aterrorizados, indefesos e solitários (Cherney et al. 1994).

Além disso, os benefícios de adotar uma perspectiva mais ampla vão além de validar e valorizar nossas experiências vividas. Há implicações práticas. Para a ciência, significaria mais apoio para o trabalho de transformação de pesquisadores como Joseph Lopes e Antonio Damasio no âmbito subjetivo de sentimentos e emoções (Lopes 1996; Damasio 1999). Afinal, essas experiências são tão materiais como a batida do coração e a da molécula de DNA, mesmo que no momento não saibamos exatamente como traduzir a atividade neural (linguagem cerebral) em estados mentais (linguagem mental). Acontece também com a dor psicológica. Agora que sabemos que compartilha substratos neurológicos com a dor física, os cientistas vão, sem dúvida, olhar para estender o trabalho de Eisenberger, encontrando os “caminhos nociceptores” correspondentes a lesão psicológica. Como os sentimentos de luto ou depressão são detectados e transmitidos para o córtex cingular anterior? E como poderiam esses sinais ser modificados? Esta nova mentalidade também pode levar a uma visão nova sobre os estados da dor patológica. A dor prolongada de Dan Vento — o que os psiquiatras classificam como luto complicado— tem muito em comum com certos estados de dor crônica. Em ambos os casos, a lesão existe há muito tempo e mesmo assim o circuito de dor reverberante, embora não servindo mais nenhum propósito biológico, continua. Existem mecanismos semelhantes trabalhando aqui, e poderiam ser eles manipulados para ajudar o Vento a escapar de sua rotina autodestrutiva?

Também haveria mudanças no âmbito clínico, melhorando a forma como os médicos tratam a dor. Alguns pacientes podem exigir mais atenção ao corpo; outros, para a mente; a maioria, para ambos. Aqui também há espaço para o pensamento inovador. Tomar, por exemplo, o efeito placebo em ensaios clínicos, em que uma pílula falsa tem demonstrado aliviar a dor na ordem de 15-30% dos casos. A maioria dos investigadores vê o fenômeno como um contaminante que deve ser eliminado para avaliar a eficácia da droga “real”. Mas por que não mudar as molduras, como Benedetti (2009) tem instado, e se concentrar diligentemente na realidade dos fatores psicológicos que são igualmente eficazes, e em alguns casos, ainda mais (PP. 6, 30)? Por que não tentar aproveitar e melhorar esses fatores para ajudar os pacientes? Esta mesma maneira nova de pensar conduziu a DeWall et al. (2010) para administrar a medicamentação para a dor física (Acetaminophen) a gente que sofria da dor psicológica, e não surpreendente, pareceu funcionar.

Um dos maiores pensadores do século XX, Ludwig Wittgenstein, mostrou que prestar atenção à linguagem comum pode ajudar a promover a filosofia. Talvez o mesmo seja válido para a ciência. Ele também mostrou que apegar-se dogmaticamente a uma determinada imagem pode levar a uma doença conceitual (Wittgenstein 1958, SECT. 115). Se podemos romper completamente com o nosso insalubre (e impreciso) legado dualista e realmente ver que a mente e o corpo estão intrinsecamente conectados, então devemos concordar com Dan Vento, Joan Didion, e muitos outros sofredores, em que a dor psicológica existe e é tão importante e digna de nossa atenção quanto a dor física. Eles são dois lados da mesma moeda e devem ser falados e tratados como tais.

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Tradução livre de Is There Such a Thing as Psychological Pain?

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