Fibromialgia: a dor crônica que até clube próprio tem

Fibromialgia: a dor crônica que até clube próprio tem

Você está exausto? Você tem dor por toda parte, mas não sabe a causa? Ora, há uma chance de você estar sofrendo de fibromialgia, uma condição crônica que causa exaustão, distúrbios do sono, dor difusa em seus músculos, tendões e ligamentos, além de distúrbios cognitivos.

“Quando você chegar ao fim de sua corda, amarre um nó e pendure-se nele”.

Theodore Roosevelt

Se você quiser sair dessa situação convém visitar este site. Ele é mantido pela Associação Brasileira dos Fibromiálgicos e uma grata surpresa, imagino, para quem padece de – você adivinhou! – fibromialgia.

Porém, antes de justificar o anterior, do que estamos falando?

A fibromialgia está presente em todo o mundo. Uma pesquisa recentemente realizada em 5 países europeus (França, Alemanha, Itália, Portugal e Espanha) indicou uma prevalência entre 4,7% (IC95%: 4,0 a 5,3) e 2,9% (IC95%: 2,4 a 3,4). Idade, sexo e país geraram variações.

Mas aqui temos uma primeira curiosidade relacionada à fibromialgia. Embora ninguém questione a sua prevalência, também não há quem consiga formular a sua definição, patogênese, diagnóstico e tratamento de maneira a obter unanimidade. Esses são pontos de discórdia, e até tem quem conteste a existência da fibromialgia como distúrbio específico.

Os vários sistemas de classificação de acordo com a medicina da dor, psiquiatria e neurologia (doença da dor, transtorno de dor somatoforme persistente, depressão mascarada, transtorno do sintoma somático, neuropatia de fibras pequenas, doença cerebral) capturam apenas alguns componentes desse transtorno complexo e heterogêneo.

De qualquer maneira, pelo sim, pelo não, a medicina clínica se vale de algumas ferramentas para cercar o bicho. Uma delas é o London Fibromyalgia Epidemiology Study Screening Questionnaire.

Tabela 1 London Fibromyalgia Epidemiology Study Screening Questionnaire

Critérios de dor

Nos últimos 3 meses:

  1. Você teve dor nos músculos, ossos ou articulações, com duração de pelo menos 1 semana?
  2. Você sentiu dor nos ombros, braços ou mãos? De que lado? Direita, esquerda ou ambas?
  3. Você sentiu dor nas pernas ou nos pés? De que lado? Direita, esquerda ou ambas?
  4. Você sentiu dor no pescoço, no peito ou nas costas?
Atender aos critérios de dor requer respostas “sim” para todos os 4 itens de dor, e (1) tanto uma resposta positiva à direita quanto à esquerda, ou (2) uma resposta positiva de ambos os lados.

Critérios de fadiga

  1. Nos últimos 3 meses, você se sentiu cansado?
  2. O cansaço ou a fadiga limitam significativamente suas atividades?
A triagem positiva para fadiga crônica e debilitante requer uma resposta “sim” a ambos os itens de fadiga.

Pelo visto, nada que um clínico geral não possa descobrir – somente, claro, após descartar qualquer doença somática capaz de explicar suficientemente esses sintomas.

Contudo, o tal diagnóstico fibromiálgico continua sendo contestado por profissionais especializados em doenças mentais que a consideram apenas uma forma de depressão mascarada ou de distúrbio de dor somática.

A depressão mascarada seria uma forma de depressão atípica, na qual os sintomas somáticos ou distúrbios comportamentais dominam o quadro clínico e disfarçam o distúrbio afetivo subjacente.

O distúrbio de dor somática é um transtorno somatoforme, caracterizado pela “ocorrência de uma ou mais queixas físicas para as quais a avaliação médica não revela patologia física explicativa ou mecanismo fisiopatológico, ou quando… as queixas físicas ou o prejuízo resultante são muito superiores ao que seria esperado dos achados físicos “. Esse tipo de distúrbio tem foco extremo em sintomas físicos – como dor ou fadiga – que causam grande sofrimento emocional e problemas de funcionamento.

Em suma, enquanto a dor não pode ser totalmente atribuída a um distúrbio médico conhecido, nada de autorizar um CPF para a fibromialgia.

Conclusão temerária essa. E mal informada, ao que parece. Nas últimas décadas o conhecimento da fibromialgia tem tido um progresso impressionante.

Por exemplo:

  • Os fundamentos neurológicos dessa condição estão sendo desvendados aos poucoss e já se atribui importância aos fatores psicossociais na predisposição, desencadeamento e cronificação dos sintomas da fibromialgia.
  • Os melhores hospitais do mundo ocidental, a Mayo Clinic entre outros, reconhecem e tratam a fibromialgia como um distúrbio caracterizado por dor musculoesquelética generalizada acompanhada por problemas de fadiga, sono, memória e humor.
  • As mulheres são mais propensas a desenvolver fibromialgia do que os homens.
  • Muitas pessoas que têm fibromialgia também têm dores de cabeça tensionais, distúrbios da articulação temporomandibular (ATM), síndrome do intestino irritável, ansiedade e depressão.
  • Os pesquisadores neurocientistas acreditam que a fibromialgia amplifica sensações dolorosas, afetando a forma como o cérebro processa os sinais de dor.
  • E também já se sabe que a terapia medicamentosa não é obrigatória. Apenas uma minoria de pacientes experimenta alívio substancial dos sintomas com duloxetina, milnaciprano e pregabalina.

“A dor não precisa ser sentida. Dizer que não há problema não solucionará o problema”.

Emm Roy, em The First Step

Feita essa breve introdução, a que se deve a minha recomendação para visitar o site da ABRAFIBRO?

Três bons motivos:

  • É um site que, igual ao meu blog, divulga informações destinadas a ajudar gente com dor, financia-se com recursos próprios, e não tem fins de lucro nem patrocínio.
  • O site da ABRAFIBRO tem mais mérito por representar uma comunidade, que imagino seja vasta e doída. O meu blog é o projeto pessoal de-uma-pessoa-só. E eu não estou com dor, por enquanto.
  • É possível encontrar boas coisas brasileiras no site da Abrafibro.


Recentemente, por exemplo, foi ali publicado um post – “Terapia fotodinâmica é usada para tratar caso incomum de fibromialgia”, sobre como a “aplicação combinada de ultrassom e laser nas mãos de paciente do sexo masculino reduziu dores intensas da fibromialgia, doença muito mais comum em mulheres”. Um trabalho de pesquisadores do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP, a Unidade de Terapia Fotodinâmica (UFT) da Santa Casa da Misericórdia de São Carlos (SCMSC). Vale a pena ler.

Por outro lado, o site contém uma batelada de artigos sobre a fibromialgia estendendo-se num amplo espectro eclético. Os temas vão  de “O papel da Psicologia na Fibromialgia e a Contribuição do Psicólogo”, à “Fibromialgia ligada a diminuída conectividade do cérebro”, passando pela “Fisioterapia aquática no combate à fibromialgia”, e por aí vai. Garimpando com paciência – o site não colabora nisso – o fibromiálgico emerge sabendo quase tudo sobre a sua condição, o que certamente irá ajudá-lo a sair dela.

Ah, ia me esquecendo, eu não conheço ninguém por lá, não me pagaram para escrever sobre o site e nem parente fibromiálgico eu tenho. Acho, sim, que esse pessoal está de parabéns.

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12 comentários
  1. Minhas dores são diárias , tem vezes que Preçiso ficar internada tomando analgésicos e inflamatórios. As dores vão dos cabelos ao pentear até o dedão dos pés

  2. Eu tenho , depressão, transtorno de anciedade e fibromialgia,…sinto dores pelo corpo hora no ombro ora no braço ora no joelho tanto do lado esquerdo como no direito ,tenho hérnia de disco na lombar e bico de papagaio 😔 não sei o Q fazer não consigo trabalhar ,ficar de pé por muito tempo ou sentada e até mesmo deitada tenho insônia e fadiga ,pernas inquietas , mesmo com tudo isso não consigo me aposentar 😔 obrigado pelas informações e muito importante pra quem sofre com estas condições físicas que os médicos dizem não ser Nada 😤

  3. Sofro MUITO com essas dores, doe tudo isso desanima muito pq é constante mesmo tomando antidepressivo.
    Torço muito pra que se descubra cura ou um tratamento eficaz

  4. Meu filho está sofrendo com dores intensas atrás dos joelhos , muitos exames e não detectamos nada, teve Hidrocefalia recentemente com causa desconhecida e tem 10 anos, com o uso da válvula sofreu um grande trauma, acha q se encaixa nesse quadro de fibromialgia

    1. Nos últimos anos foi estabelecida uma classificação baseada num certo número de pontos de dor no corpo do paciente. Acima de x pontos seria diagnosticada fibromialgia. Essa classificação foi mudada recentemente. Com base nela, é que um médico, necessariamente com experiência em fibromialgia, poderia avaliar o seu filho.

  5. Estou reafirmando o diagnóstico do médico reumatologista, o qual disse que tenho Fibromialgia, apertou alguns pontos e eu simplesmente dei um grito que ecoou no consultório. Depois disso, uma exaustão tem tomado conta e tarefas simples como ler e estudar são difíceis e a vontade é ficar na cama, pois o peso na cabeça e a fraqueza é constante. Estou tomando remédios para a “depressão”, embora sempre fui de “sorriso fácil”, disposta, ágil e trabalhadora. Pode-se dizer que é tão impactante quanto um câncer , receber um diagnóstico desses.

    1. Luciene, infelizmente, o Blog Dor Crônica não pode dar conselho profissional ou psicológico específico já que somente um profissional especializado tem condições de fazê-lo. O Blog é um canal informativo. Mas, eu posso, sim, dar uma opinião. Coincidentemente, eu hoje estou lendo (e destrinchando) um artigo sobre fatos e mitos da fibromialgia. Eu não achei complicado a ponto de não entender, como a maioria dos artigos sobre o tema. Se você tiver a paciência de examiná-lo (vou mandar para seu e-mail) irá constatar que o seu diagnóstico não está escrito em pedra. Outros posts no blog comentam o desnecessário impacto devastador sobre os pacientes de diagnósticos “definitivos”, apesar de baseados em exames ou protocolos falíveis. Não piore (você mesma) sua condição dolorosa antes de se informar bem sobre ela.

  6. Tenho dores inacreditáveis em todo corpo, sinto como se todo tia alguém tivesse conseguido tocar nos meus músculos e me deixar roxa. Não durmo mais direito nem com medicação, só penso em dormir, estou tão cansada dessa dor que as vezes desisto do dia que estou vivendo é só quero passar para o próximo dia.

    1. Fiquei muito comovido com seu comentário sobre as dores que sente. Tem sido tantas as manifestações sobre as dores da Fibromialgia, que decidi preparar um e-book exclusivo sobre o assunto. Deve estar pronto nas próximas semanas. Até lá, o que eu tenho a dizer é: informe-se. Esta semana há um post sobre isso. Não há cura para a Fibromialgia, mas é possível conviver com a doença, melhorando a qualidade de vida. Não piore (você mesma) sua condição dolorosa perdendo a esperança, sem antes tomar a iniciativa para se aliviar (aliás, nem sei se você foi diagnosticada com essa doença em definitivo). Informe-se sobre o assunto. Eu sei que essa recomendação não soa bem para quem convive com dor, porém, o primeiro passo para aliviar uma dor generalizada é saber dela, de onde pode estar vindo, dos tratamentos possíveis, das consequências de nada fazer. Depois disso, a consulta com um médico especializado em dor fica muito mais produtiva.

  7. COMO EU LI ALGUNS COMENTÁRIOS, NÃO TENHO UM DIAGNÓSTICO PRECISO, MAS ACHO QUE TENHO FIBROMIALGIA E O PIOR, A GENTE “SE ACOSTUMA” COM A DOR. MUITO CANSADA, DORES MUSCULARES, PESO…TOMO 3 SERTRALINAS E FUI INDICADA PELO CLÍNICO A TOMAR PREGABALINA, QUE COINCIDENTEMENTE, É PARA FIBROMIALGIA. EXISTE UMA MISTURA DE DEPRESSÃO CAMUFLADA E ANSIEDADE. QUERO UM GRUPO DE APOIO E AJUDA, A GENTE SOFRE BASTANTE.

  8. Faz alguns dias que tenho dores nas costas , nuca, joelhos , mãos, dedos e pés. Ando sempre de tênis devido a dor no calcanhar. Tenho sensação de areia no pescoço ao levanta-lo. Faço quiropraxia uma vez por mês. agora estou fazendo uso do artrolive. Tomo angeliq que são hormônios a mais de dez anos. Resolvi parar um mês. Ai pensei que estas dores eram por isto e voltei a tomar. Estou aguardando para ver o resultado. Estalo muito os dedos e joelhos.

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