Hoje a sua vida depende de um estudo. Você não quer saber que estudo é esse?

Hoje a sua vida depende de um estudo. Você não quer saber que estudo é esse?
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Termos como “comorbidade”, “distanciamento social”, “estudo científico” … antes desconhecidos, agora estão se tornando corriqueiros. Tem sido dito que não haverá vacina nem remédio para o coronavírus até o fim do ano, no mínimo. A razão? Não há estudos científicos avalizando uma vacina ou um remédio, e eles demoram meses, ou anos em dar resultados. Ou seja, vira e mexe, você e eu podemos morrer esperando por esse tal de “estudo científico” vir à tona e trazer bons resultados, certo? Por quê? Afinal, o que é um “estudo científico”, esse do qual a nossa vida depende?

“Vivemos em uma sociedade primorosamente dependente de ciência e tecnologia, na qual quase ninguém sabe nada sobre ciência e tecnologia.”

Carl Sagan

Dois termos têm aparecido constantemente nas falas dos que comentam sobre o coronavírus pela mídia. De infectologistas a governadores de estado, passando por âncoras e repórteres, todos mencionam: “estudo” e “científico”, e alguns até conseguem falar tudo junto: “estudo científico”. Aquilo serve de argumento para justificar ações ou inações.

A principal das inações se refere a comercializar remédios e vacinas para o coronavírus. Os cientistas concordam em que isso vai demorar – no caso da vacina, antes de 12 a 18 meses, nem pensar. E isso porque um estudo científico capaz de avalizar a eficácia e segurança de uma vacina demora esse tempo em ser completado.

Quanto as ações, o governador de São Paulo cuida de esclarecer que as medidas tomadas por ele estão sempre pautadas nesse tipo de estudo, o científico.

Mas afinal, o que é um estudo científico?

Eu sei que quem fez faculdade e tudo mais, provavelmente sabe, porém muitos não tiveram essa sorte e mais de algum deve estar se perguntando: “Então a minha vida e a de meus familiares depende de um tal de estudo científico? Como assim?”

Então resolvi escrever este post.

Para começar, onde se encaixa a figura do tal estudo? Num esquema de autorização de medicações a cargo de uma autoridade sanitária, a ANVISA, no Brasil, ou o Food and Drug Administration (FDA) americano. Menciono este último não por ter me vendido ao imperialismo ianque, mas porque, gostemos ou não, a maioria dos remédios que por aqui temos são produzidos, testados e aprovados no Grande País do Norte. Essas instituições aprovam ou rejeitam a comercialização de um remédio, vacina, droga… o que for mexer com a saúde da população em geral.

O que garante que o tal remédio seja eficaz e seguro?

Que ele seja avalizado por um estudo científico bem feito.

No caso em pauta, sendo bem sucinto, um estudo dessa natureza é baseado num ensaio clínico aleatorizado (ou randomizado) e controlado. O ensaio clínico aleatório é um estudo prospectivo que compara o efeito e o valor das intervenções em seres humanos, utilizando um ou mais grupos contra o grupo controle. Em epidemiologia, esse tipo de ensaio clínico é considerado o padrão ouro porque pode claramente estabelecer a diferença em “exposições” (ao remédio que está sendo testado) entre grupos de tratamento e controle.

Ficou muito complicado?

Imagina que há uma epidemia de qualquer coisa (QC) no seu quarteirão, onde moram 100 famílias, todas infectadas. O QC é desconhecido e você inventa um comprimido que, você pensa, pode curar o portador. Porém, o dono da farmácia não aceita o seu invento para venda, a menos que você prove que funcione.

Então você faz o seguinte: dá o comprimido à metade do quarteirão, e um comprimido contendo açúcar à outra metade. E depois de um tempo, compara os resultados obtidos nas duas metades. Se a que tomou o seu comprimido melhorou do QC – se livrou dele, ou coisa parecida – significativamente mais do que a que tomou o comprimido fake, você está feito. Caso contrário, você perdeu o seu investimento e só lhe resta rezar para que depois da experiência ninguém fique pior do que já estava.

Voltando à nossa situação, aqui e agora.

O “estudo científico” que os cientistas mencionam em relação ao coronavírus é bem mais complicado e amplo que o normal. O novo coronavírus é desconhecido, não se comporta exatamente igual aos parentes (SARS 1, MERS) e acima de tudo, afeta a humanidade inteira, que não é pouco. 

“Afinal, o que é um cientista? É um homem curioso olhando através de um buraco de fechadura, o buraco da fechadura da natureza, tentando saber o que está acontecendo.”

Jacques Yves Cousteau

Então, devagar com o andor. O que a comunidade científica e médica no fundo e na prática exige é uma revisão científica capaz de tranquilizar as apreensões ao máximo. O que seria ela? Um artigo que resume o estado atual de entendimento de um tópico. Esse tipo de artigo de revisão pesquisa e resume estudos publicados anteriormente, em vez de relatar novos fatos ou análises.

Para se ter uma ideia da grandiosidade da tarefa. Nessa semana, postei uma matéria sobre o Impacto Psicológico da Quarentena, baseada parcialmente numa revisão científica de artigos sobre o tema. Veja o começo dela:

“As decisões sobre como aplicar a quarentena devem basear-se nas melhores evidências disponíveis. Fizemos uma revisão do impacto psicológico da quarentena usando três bancos de dados eletrônicos. Dos 3166 artigos encontrados, 24 estão incluídos nesta revisão.”

Para complicar as coisas, o autor de uma revisão por ventura validando uma vacina para prevenir, ou um remédio para curar a doença do Covid 19 também não pode ser qualquer um: se ele(a) for da Harvard ou da Stanford, e a revisão publicada por publicações acadêmicas especializadas em artigos de revisão, como a Nature ou The Lancet, as mais prestigiadas no mundo, então todos (ou quase todos) dirão que a tal vacina ou o tal remédio “funcionam”. Esta tradição, que é ocidental e baseada na história científico-médica dos últimos 300 anos, hoje vai de encontro a produção científica chinesa decorrente da obtenção de dados em primeira mão sobre o coronavírus. Os cientistas chineses estão produzindo artigos bons, porém eu duvido que eles estejam sendo levados em devida conta. Porém, eis apenas a minha opinião.

Em suma, convém você se armar de paciência. Vacinas e remédios para o coronavírus vão demorar em vir ao mercado e agora você sabe e entende o porquê.

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

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