Médicos devem reconhecer as diferenças de gênero

Médicos devem reconhecer as diferenças de gênero
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Nesse post apresento um artigo de autoria da Dra. Marcia L. Stefanick, da Stanford University. Ele é uma amostra do que é a segunda parte de “O Paradoxo de EVA”, um e-book que comenta o contraste entre o sofrimento da mulher e os cuidados de saúde que ela recebe, especialmente em relação a dores crônicas, nas que ela em geral prevalece sobre o homem.  “Doctors Must Dig into Gender Difference to Improve Women’s Health Care”, ou “Os médicos devem investigar as diferenças de gênero para melhorar os cuidados de saúde da mulher”, é tão direto quanto o e-book, e talvez venha a incomodar muita gente. As verdades ocultas quase sempre dão nisso.

O artigo foi publicado originalmente pela revista Scientific American há 3 anos, em setembro de 2017. O título era outro: Not Just for Men.  Está sendo republicado com outro nome: “Doctors Must Dig into Gender Difference to Improve Women’s Health Care”.

É exatamente o mesmo nas duas ocasiões, não assim as datas. Por que será? Especulando, eu posso arriscar que a doutora, ou os editores da Scientific American perceberam que o primeiro título do artigo – “Not Just for Men” – não fazia jus ao (excelente) conteúdo. Politicamente correto demais e pouco comprometido com um movimento feminino silencioso que vem se notando em vários países desenvolvidos por reclamar melhor atendimento médico para a mulher. Atendimento este que estaria sendo influenciado, ou prejudicado, enfim, em parte por um viés de gênero.

O segundo título põe os pontos nos i´s e tem destinatário fixo: os médicos. Estes deveriam estudar, pesquisar e atentar para as diferenças de gênero se quiserem melhorar os cuidados de saúde fornecidos à mulher. A ênfase no “se quiserem” é minha.

Porque eu não sei se querem. Ou se no Brasil as mulheres querem. Aliás, às vezes duvido que uns e outras tenham sequer se apercebido do problema. Ou se isso por aqui é mesmo um problema!

A questão me deixa irrequieto porque dediquei meio 2019 a produzir um e-book denominado “O Paradoxo de EVA”, em que examino detalhadamente as peculiaridades da dor na mulher vis-a-vis a reclamação (feminina) de que elas não estariam sendo bem atendidas pelo “sistema de saúde” – ali incluídos o atendimento primário, a pesquisa médica, a medicação, entre outras coisas.

Curto e grosso, se as dores femininas são diferentes das masculinas, porque o “sistema de saúde” não leva isso satisfatoriamente em conta ao entregar seus cuidados?

Eis o paradoxo que dá origem ao título do e-book. Ele contém informações sobre 1) o quanto as dores femininas são diferentes e mais severas que as do homem, 2) as razões biopsicossociais e culturais para isso e 3) até que ponto os cuidados que a mulher sofre por causa de um preconceito de gênero que permeia o atendimento, a pesquisa, a medicação e até a hospitalização na área da saúde.

Paradoxo ainda mais chocante do que o anterior é que as informações eu coletei em uma dúzia de países localizados nos 5 continentes, entre os quais o Brasil, onde as mulheres são maioria na população geral, na médica e na de enfermagem… brilha pela sua ausência. E não foi por falta de empenho que eu achei quase nada de informações sobre as dores da mulher por aqui; é que, como eu já escrevi acima, o assunto não é assunto. Todo mundo parece estar conforme com a situação atual, nada de bagunçar o coreto.

É por isso que estou curioso quanto ao volume de leitores/visitantes que um apanhado dos principais trechos do artigo em pauta irá atrair. Eu os escolhi por traçarem um esboço bastante acurado do meu e-book. Guardando as proporções, claro. Ele tem 3 páginas e o e-book mais de 240, divididas em dois volumes. Haja assunto, pelo meu lado! A autora, Dra. Márcia L. Stefanick leva vantagem sobre mim, em todo caso. Ela é professora de medicina no Stanford Prevention Research Center e também professora de obstetrícia e ginecologia na Stanford University School of Medicine. Fora isso, dirige o Stanford Women and Sex Differences in Medicine Center e está conduzindo um grande estudo com mulheres mais velhas relacionadas à prevenção de doenças cardíacas e envelhecimento saudável. E acima de tudo, é mulher. Predicados para bater na mesa, então, é que não lhe faltam.

O tema, tanto o do artigo da Dra Stefanick quanto o do meu e-book é para lá de incômodo. Se o apelo é o de que pesquisadores e médicos devem se aprofundar nas diferenças de gênero antes que possam oferecer melhores tratamentos às mulheres, é porque essas diferenças estão sendo ignoradas (ou esnobadas) em prejuízo da mulher. E isso soa muito mal. E naturalmente gera repúdio. Foi assim nos países em que nos últimos 10 anos a questão veio à tona com muita força no exterior, e se tiver alguma divulgação, o será também no Brasil. Como é possível suspeitar que os cuidadores da saúde da mulher não estejam levando as dores femininas devidamente em conta? Chutar a imagem da Virgem, como aliás alguém já fez, seria menos sacrílego. Ora, no mundo, e principalmente em países que um dia foram colônias europeias, os médicos ainda são vistos como entidades infalíveis e intocáveis, o que certamente não são. O viés de gênero, que vê a mulher como um ser inferior ao homem, e que acompanha o andor da humanidade desde o fim da Idade do Gelo, seria então magicamente expurgado da psique do(a) recém formado(a) em medicina ou em qualquer outra ciência da saúde na cerimônia de formatura, ou até antes. Diferenças no tratamento de saúde por conta do gênero seriam impensáveis, inexistentes. Mesmo que haja razões de todo tipo para reconhecé-las e que durante os anos de faculdade em nenhuma das matérias da grade elas tenham sido oficialmente estudadas.

O artigo da Dra. Stefanick é para poucas? Eu não sei. Atreva-se a lê-lo. Talvez você faça parte desse grupo e não sabia.

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