Mudar é preciso. Porém, vai você na frente que eu te cubro.

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O modelo biopsicossocial na prática fisioterápica: mais um delírio?

É da natureza humana, pensar sabiamente, e agir de maneira absurda.

Anatole France, escritor
Afinal, o Trump é mesmo um lunático, clinicamente falando? Por que os maiores salários estão em Brasília, onde nada é produzido? Por que no Brasil há 97 vezes mais sindicatos do que na Inglaterra, e 152 vezes mais do que na Argentina? E last but not least, nessa galeria de absurdices, por que o modelo biopsicossocial aplicado aos serviços de saúde no Brasil não emplacou?1

Ok, provavelmente ninguém gostou do que leu. Mas, que tal examinar isso no campo da fisioterapia? Ora, se tem um(a) profissional da saúde na linha de frente no combate à dor em pacientes não hospitalizados, é o(a) fisioterapeuta, certo? E por outro lado, o conceito humanista que sustenta o modelo biopsicossocial – um que vê cada paciente como uma entidade distinta, complexa e participativa etc. – é de uma obviedade ululante. No entanto, mal que se pergunte: o(a)s quase 50 mil fisioterapeutas atualmente licenciados no Brasil embarcaram mesmo nessa canoa?

Para evitar ter gente me apedrejando na rua ou em casa, prefiro responder com achados distantes. Um estudo realizado em 2017 por pesquisadores e neurocientistas da Universidade de Sidney, Austrália, por exemplo. Este abrangeu dados quantitativos e qualitativos (de outros dez estudos) de tratamentos fisioterápicos administrados a pacientes com dor lombar crônica, e concluiu o seguinte:

OS PACIENTES COM DOR CRÔNICA TÊM MEDO DO MOVIMENTO. ORA, ORA, ORA… E SEUS TERAPEUTAS TAMBÉM.

  • Os fisioterapeutas ainda não compraram o modelo biopsicossocial, e preferem se manter entrincheirados no que sabem (ou acham que sabem), que é o modelo biomédico, com foco numa patologia física e suas consequências impeditivas, por sinal, também físicas. As atitudes e crenças dos fisioterapeutas, dizem os pesquisadores, apontam inequivocamente nessa direção.
  • O próprio paciente é um fator determinante do anterior. As suas expectativas, quanto a receber um tratamento manual, ativo, a sua passividade no tratamento, e o desejo de se manter com ele um bom relacionamento (o que seria prejudicado se as expectativas fossem desatendidas), fortalecem as atitudes, crenças e decisões conservadoras do(a) fisioterapeuta em relação ao tratamento.

Consequências? A referida prática clínica restringiu a volta ao trabalho, aumentou a percepção de risco relacionada ao trabalho e provocou uma maior expedição de licenças por doença. Fora isso, a propensão a evitar o medo da dor, apresentada pelos fisioterapeutas, incutiu nos pacientes uma abordagem à dor passiva e cautelosa, crenças desadaptativas (maladjusted) sobre a atividade física, e distanciamento da possibilidade de autogerenciarem a própria dor.

“Noto uma crescente relutância por parte dos terapeutas em geral quanto a usar o julgamento; eles confiam demais em exames de imagem, protocolos de exercícios e terapias manuais aprendidas em fins de semana, e as usam como um bêbado que usa um poste de luz como suporte, e não como iluminação.”

David Ogilvy (Adaptação)
Incidentalmente, o custo direto da dor lombar na Austrália – quase vinte anos atrás – era de AU$ 1,02 bilhões que somando os custos indiretos de AU$ 8,15 bilhões chegava-se a um total de AU$ 9,17 bilhões. E por que isso interessa? Porque aproximadamente ¾ disso eram destinados a pagamento de profissionais da saúde – quiropráticos, massoterapeutas, fisioterapeutas e acupunturistas.2

E agora vamos para Europa, onde na mesma época pesquisadores de três países – Irlanda, Austrália e Bélgica – averiguaram as percepções dos fisioterapeutas sobre a identificação e gestão dos fatores cognitivos, psicológicos e sociais que poderiam travar a recuperação de pessoas com dor lombar.

O que foi constatado? Primeiro, os fisioterapeutas só reconheceram parcialmente alguns fatores cognitivos, psicológicos e sociais; alguns deles estigmatizaram pacientes com lombalgia como “exigentes, atentos à atenção e pouco motivados”; e principalmente, a maioria questionou a relevância da triagem baseada nesses fatores psicossociais porque percebidos como extrapolando a prática, com muitos sentindo-se pouco qualificados em abordá-los. Segundo estes “…nem o treinamento inicial, nem o treinamento de desenvolvimento profissional disponível, lhes daria as habilidades e confiança necessárias para abordar e tratar com sucesso as manifestações de dor multidimensionais vistas na lombalgia”.3

E no Brasil? Por aqui ninguém sabe nem de longe o que poderia estar-se gastando, a nível de país, no total dos custos relacionados a dor lombar crônica. (Se eu estiver errado, publico o desmentido na hora.) Sabe-se, sim, que a doença é prevalente: entre inacreditáveis 40 e 51% da população, tomando como referência a cidade de Londrina, pesquisada em 2007.4

E quanto aos fisioterapeutas e sua absorção do modelo biopsicossocial? Ah, por esse lado não há com que se preocupar. Em 2015, supervisores de estágio de um curso de fisioterapia foram entrevistados para verificar a presença de práticas baseadas no modelo biopsicossocial (BPS) no processo de ensino e aprendizagem. (É a única publicação sobre o tema de que eu, ao menos, tenho notícia. E já disse, se eu estiver errado mande o desmentido. Ou me processe.)

“Conclusão da averiguação: o modelo BPS teve seus componentes incorporados pelos docentes em sua rotina de ensino”.

Quantos foram os entrevistados? Quinze.5

Pronto, por aí não há com que se preocupar.

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