Mulheres com Dor Crônica nas costas, uni-vos! Como fazer sexo sem doer.

Mulheres com Dor Crônica nas costas, uni-vos! Como fazer sexo sem doer.
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Que a dor lombar pode prejudicar em muito a qualidade de vida de um adulto não é novidade. As alternativas para isso acontecer são inúmeras. E paradoxalmente, uma das mais importantes é também a menos falada, ou investigada. Refiro-me a atividade sexual, que a dor lombar torna intolerável, seja provocando desconforto físico ou exacerbando a dor durante a relação sexual. O problema atinge os dois sexos e em posts anteriores ele foi comentado, primeiro no geral, e depois, do ponto de vista do homem. No caso deste último, posições a adotar durante o ato sexual recomendadas por cientistas foram descritas e explicadas. Agora é a vez da mulher.

“Eu nem quero falar sobre ‘sexualidade feminina’ até que haja um grupo de controle. E nunca haverá.”

– Maggie Nelson, The Argonauts

Autor: JULIO TRONCOSO

Há duas semanas postei um artigo postulando que a dor lombar pode influenciar negativamente a atividade sexual, seja provocando desconforto físico ou exacerbando a dor durante a relação sexual. O resultado disso? A redução acentuada na frequência da atividade sexual. O artigo mostrava evidências de que o tal problema é endêmico, e apontava seus efeitos (físicos e psicológicos), relevância epidemiológica e os fatores culturais que o sustentam, especialmente no âmbito da relação médico-paciente.

Um segundo post, publicado na semana seguinte, foi direto à prática apresentando os achados de uma dupla de pesquisadores canadenses no que se refere às posições coitais mais e menos recomendáveis para o homem com dor lombar.

Agora é a vez da mulher. De acordo com Statistics Canada, até 84% dos homens com dor lombar e 73% das mulheres relatam uma diminuição significativa na frequência das relações sexuais quando sofrem de dor nas costas. 

Os antecedentes

Alguns pesquisadores ventilaram os temas da incapacidade sexual tanto em mulheres saudáveis1 como em mulheres que foram operadas de hérnia de disco.2

Neste último caso, 55% dos homens e 84% das mulheres relataram ter problemas sexuais após o início da dor lombar. Os problemas sexuais mais comuns foram diminuição do desejo sexual (18%) e ejaculação precoce junto com disfunção erétil (18%) nos homens e diminuição do desejo sexual (47%) no caso delas.3

Contudo, esses trabalhos focaram apenas no problema. Propor soluções é mais espinhoso porque requer especificar posições coitais mais seguras, detalhes considerados fora do politicamente correto ou até pornográficos por muitos e muitas.

Mas como vimos no post da semana passada, Sidorkewicz e McGill conseguiram fazer isso em relação ao homem e, que eu saiba, sobreviveram academicamente.

Portanto, comecemos lembrando os três grupos que eles distinguem entre os pacientes com dor lombar em geral:

Pacientes com dor nas costas intolerantes à flexão
A dor geralmente piora durante os movimentos de inclinação para a frente, como pegar uma caneta no chão, amarrar os sapatos, ou ficar sentado por longos períodos.
Pacientes com dor nas costas intolerantes à extensão
Para esses pacientes, movimentos ou atividades de flexão para trás causam dor. Exercícios que requerem arquear as costas são problemáticos, assim como deitar de bruços e tentar se levantar.
Pacientes com dor nas costas intolerantes a movimentos
Qualquer movimento da coluna para longe de uma posição neutra, em pé ou deitado pode incomodar as costas.

Do anterior se deduz que a posição sexual certa para quem tem dor lombar varia dependendo do tipo de movimento que causa problemas.

Os Resultados

No artigo Documenting female spine motion during coitus with a commentary on the implications for the low back pain patient”, a dupla Sidorkewicz e McGill, escolheram três posições coitais comuns já pesquisadas na amostra masculina: a posição Quadrúpede (cachorrinho com duas variações), a posição Missionário (papai e mamãe) e a posição Colher (deitada de lado), para examinar a mecânica espinhal do parceiro receptor (a da mulher, geralmente).

“Do ponto de vista evolutivo, tudo leva à cópula e reprodução, mas da perspectiva da mulher que recentemente se apaixonou por alguém, trata-se de uma sensação de calor e deleite, e raramente de natureza sexual.”

– Abhijit Naskar, Love, God & Neurons: Memórias de um cientista que se perdeu.

Na posição Quadrúpede, a mulher apoia a parte superior do corpo com os cotovelos (Quadrúpede 1) ou com as mãos (Quadrúpede 2).

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Na posição Missionário, a mulher deitada de costas flexiona os quadris (Missionário 1) ou os joelhos (Missionário 2).

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E na posição Colher, ela deita lateralmente e adota uma postura fetal.

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Um sistema de captura de movimento eletromagnético foi usado para medir os ângulos tridimensionais da coluna lombar que foram normalizados para a amplitude máxima de movimento ativo – um transmissor e um receptor foram fixados na pele sobre a face lateral da pelve e o processo espinhoso da décima segunda vértebra torácica, respectivamente.

Obs. do blog. Para benefício da interpretação, levar em conta que quanto maior a “amplitude de movimento” no coito, maior o risco de exacerbar a dor lombar.

O movimento da coluna lombar feminina variou de acordo com a posição coital. Por exemplo, ambas as variações da posição Quadrúpede, usam uma amplitude de movimento da coluna significativamente maior do que a segunda posição Missionário. E com exceção de ambas as variações da posição (Missionário), a amplitude de movimento mormente usada foi em extensão.

Com base nos perfis cinemáticos da coluna de cada posição, as posições recomendadas para uma paciente com intolerância à flexão são, de menos a mais: as posições Missionário 2 e 1, pela ordem; a posição Quadrupede 1, em que a mulher apoia a parte superior do corpo nos cotovelos; a posição Colher; e posição Quadrúpede 2, em que a mulher apoia a parte superior do corpo nas mãos.

Essas duas últimas posições limitam a flexão da coluna vertebral da mulher, e reduzem as chances de agravar uma coluna vertebral intolerante à flexão.

Inversamente, para a mulher com uma espinha intolerante à extensão, as duas variações da posição do Missionário foram consideradas as melhores.

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Figura 1. Recomendações iniciais sobre as posições coitais que as pacientes cuja dor lombar crônica é exacerbada por movimentos/posturas específicas (ex.: flexão, extensão). As posições a EVITAR (AVOID) são as que apresentam o maior risco de exposição à variável biomecânica provocadora da dor, assim exacerbando a dor lombar.

Sob risco de parecer redundante, mas para que fique bem claro:

Para mulheres com intolerância à flexão, normalmente aquelas cujas dores nas costas pioram ao tocar os dedos dos pés ou sentadas por longos períodos de tempo, a posição coital recomendada é a da Colher ou (preferencialmente) a do Quadrúpede 2, com a mulher apoiando a parte superior do corpo com as mãos, não nos seus cotovelos.

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Mulheres com intolerância à extensão, ou seja, aquelas cujas dores nas costas pioram arqueando as costas, deveriam substituir a posição de Colher pela posição de Missionário 1 ou 2. Adicionar um suporte para a região lombar, como um travesseiro, também pode ajudar a manter a coluna em uma posição mais neutra.

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“O que sabemos agora é que as posições sexuais adequadas para um tipo de dor nas costas não são adequadas para outro tipo de dor”, disse Sidorkewicz. “Essas diretrizes têm o potencial de melhorar a qualidade de vida – e a vida amorosa – para muitos casais”.4

Observação: recomendações limitadas a intolerâncias de movimento específicas e posições específicas e não consideram a cinética nem incluem indivíduos com dor.

Esses achados são mais pertinentes a pacientes com lombalgia exacerbada por movimentos ou posturas.

Se você leu o artigo da semana anterior, focado no homem notará que as recomendações para a mulher – diferem das recomendações fornecidas para o parceiro ‘entregador’ – o homem, geralmente.

Assim sendo, se por ventura ambos os parceiros estiverem experimentando dor lombar crônica ao mesmo tempo com diferentes padrões de intolerância, isso pode criar um desafio não só para eles, mas também para o profissional de saúde que os trata.

Por outro lado, tenha em mente que pequenos ajustes na postura ou no posicionamento podem fazer uma grande diferença. Se a sua posição atual é desconfortável por causa da dor lombar, arquear o corpo centímetros para a frente ou para trás ou até mesmo mudar a maneira como você está se apoiando pode aliviar sua dor. 

“Muitos médicos agora reconhecem que numerosas doenças nervosas e outras estão associadas à falta de alívio fisiológico para sensações sexuais naturais ou estimuladas nas mulheres.”

– Dra. Marie Stropes (1880-1958). primeira acadêmica do corpo docente da Universidade de Manchester (Inglaterra).

Levou mais de um século para outra universidade tornar a afirmação da Dra. Stropes mais específica. Sob o título “Best sex positions for bad backs”, a University of Waterloo, que deu abrigo laboratorial à pesquisa de Sidorkewicz e McGill, publicou recentemente na sua revista oficial (UWMagazine):

“Para tornar qualquer posição mais poupadora da coluna ao fazer sexo, as diretrizes sugerem que o indivíduo que controla o movimento use mais os quadris e joelhos, ao invés da coluna, enquanto o parceiro mantém uma posição mais neutra da coluna”.5

Ficou claro?

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