Neurociência da dor na medicina convencional: O que se ignora não se pratica

Neurociência da dor na medicina convencional: O que se ignora não se pratica

A neurociência da dor veio para revolucionar o que se sabe sobre a dor e seu gerenciamento até um par de décadas atrás. Contudo, o seu papel na prática clínica ainda é incerto, senão ignorado. Em paralelo, a dor crônica continua sua corrida epidêmica. Esses dois fenômenos – o descaso com que a neurociência da dor é tratada pelo sistema de saúde e o avanço da dor crônica, estão relacionados. Intimamente relacionados.

“Seja cético, faça perguntas, exija provas. Evidências. Não tome nada como garantido. Mas tem uma coisa: quando você recebe uma prova, você precisa aceitar a prova. E não somos tão bons nisso.”

Michael Spectre, jornalista especializado em ciência e tecnologia

Uma das razões para eu ter criado esse blog foi a neurociência. Ou melhor, a irrupção da neurociência no conhecimento da dor. Um tsunami científico. As placas tectônicas, no caso, foram uma teoria e uma máquina.

A teoria – a do Controle do Portão da Dor – hoje é arquiconhecida. A sua contribuição? O ingresso da mente à dança dolorosa. Até então, nos anos 60, acreditava-se que a dor era uma sensação que ocorria na pele e que a pele tão somente interessava. Quando mais, o cérebro entrava com o choro e a definição do que fazer a seguir – médico ou farmácia? Supersimplificando, a teoria do Controle do Portão da Dor, aventou ser o cérebro, com a colaboração apenas informativa do corpo, o reitor da dor – e ele tão somente.

A máquina foi a que hoje conhecemos por functional Magnetic Ressonance Imaging ou fMRI – que fornece imagens internas do corpo humano através da tecnologia da ressonância magnética. O aperfeiçoamento dessa tecnologia hoje está permitindo descobrir as regiões do cérebro que participam da sensação da dor e os mecanismos neurais que controlam a dor crônica, por exemplo. Ou seja, com uns quantos eletrodos grudados na cabeça e uma tela de computador à frente, você vê o que ocorre no seu cérebro (luzes piscam) quando você está com dor. E consequentemente – e isso já está acontecendo – você pode pilotar uma ação cognitiva na direção oposta. Ou seja, pensar em algo que o alivie e monitorar se aquilo está dando certo. Nada mal, não é?

Pois bem, assentada nesses dois pilares, a teoria e a máquina, a neurociência da dor cuspe novas descobertas extraordinárias a cada dia. Algo para lá de portentoso, e com implicações práticas fantásticas: a esse passo pode até ser possível bloquear a dor crônica antes de a China comprar o Citibank (Ou será que já comprou? Vai saber.).

O único problema é que, para minha surpresa e espanto, todo o anterior não têm a menor importância para quase ninguém, exceto os neurologistas.

Por que digo isso, que parece ser uma sandice?

Eu explico. O blog Dor Crônica foi ao ar fazem 7 meses e uma das primeiras coisas que fiz foi incluir um questionário medindo o conhecimento da neurociência da dor que alguns próceres nesse campo – Moseley & Cia – usam para testar alunos e pacientes. Disponibilizei o tal questionário no blog para qualquer profissional da saúde que estiver trabalhando com pacientes doloridos, se auto testar. Achei minha ideia genial, na época. Eu não sou médico, nem neurologista, mas fui alfabetizado e ainda estou lúcido, e assim divido cirurgicamente o conhecimento da dor no Ocidente em duas épocas: a Escura/Passada, antes da neurociência da dor, e a Iluminada/Futuro, depois daquilo. Preencher aquele questionário daria ao profissional da saúde uma ideia da época em que ele estaria. (Pode ser feito em 5 minutos e é grátis.)

Apenas 18 pessoas encararam a besta. Em 7 meses. Em contraste, no mesmo período alguns posts e ebooks publicados no blog superaram os 15 mil acessos/downloads. Diante disso, levantei no Google os dados relativos à procura dos artigos e posts sobre neurociência da dor publicados no blog até a data: 400 e 200, respectivamente. Procura pequena, abaixo da crítica. Buaááááá!

“A diferença entre uma pessoa de sucesso e outras não é a falta de força, nem a falta de conhecimento, mas a falta de interesse, de vontade…”.

Vincent Lombardi, lendário técnico de football americano

Ok, eu sei. Pode ser que profissionais da saúde não se interessem em visitar o blog (os visitantes seriam todos leigos). Não é o caso. Pelos comentários, é claro que há entre eles médicos de distintas especialidades, anestesiologistas (muitos), fisioterapeutas, enfermeiros, veterinários… Outra: eu devo ter sido incompetente em interessá-los no tema da neurociência da dor. Seria isso?

Fiquemos com essa hipótese. O que obriga a responder o mesmo que Pedro Alvarez Cabral exclamou – avidamente, alguns historiadores especulam – ao avistar o Monte Pascoal: “O que a baiana tem?” Ou, no caso, o que a neurociência da dor tem a oferecer para o profissional da saúde que pratica seu ofício dentro do perímetro da biomedicina convencional, tal como aprendido na faculdade – onde o estudo da dor, como matéria à parte, não figura até hoje?

Uma resposta completa daria vários textos, aqui vão apenas alguns lampejos.

A dor é feita pelo cérebro. Toda ela. A biomedicina convencional pressupõe que toda dor emana de anormalidades estruturais anatômicas ou relativas ao sistema nervoso – um tornozelo quebrado, uma incisão cirúrgica, dor nas costas causada por hérnia de disco, diabetes ou doença neurológica. Tudo então é tratável com a medicação correta, intervenção processual ou operação. Ora, se assim for, a dor crônica hoje não seria uma epidemia mundial.

“Nunca em meus sonhos mais loucos eu teria percebido quanto da dor crônica, um distúrbio complexo que é completamente diferente da dor aguda, estaria relacionado ao sistema de órgãos que está alojado em nossos crânios – o cérebro.”

David Hanscom, MD – neurocirurgião. Back in Control.

Toda dor é real. Para muitas pessoas com dor crônica, a “validade” da dor é suspeita. Pacientes com dor crônica são frequentemente incompreendidos por médicos, familiares e amigos. Eles não estão inventando. Ansiedade faz você se machucar mais. Eles se sentem ansiosos, e suas costas começam a doer, então eles tomam um analgésico.

A dor é subjetiva. Todos a experimentam de maneira diferente. Não há uma maneira objetiva e fácil de acessar para medir o nível de dor de outra pessoa. A interpretação e expressão da dor de cada indivíduo é baseada em uma interação complexa de fatores físicos, psicológicos e emocionais, todos originários do cérebro.

Emoções conduzem a experiência da dor. Muitas pessoas hoje em tratamento estão ali tentando se livrar de uma dor emocional que percebem como dor física. A dor emocional é uma parte muito importante da dor crônica, grosso modo talvez 80% dela. Apenas os 20% restantes teriam cunho físico. Pelo menos cinco emoções-chave pioram a dor: medo, culpa, raiva, solidão e desamparo.

A mente gera dor. O processo de pensar e depois sentir em resposta aos pensamentos influencia a experiência da dor.

As expectativas sobre a dor influenciam o resultado. Aqui entra o efeito placebo, que é real e pode vir a ter ação analgésica importante. O que cria esse efeito? É a crença de que haverá um efeito. Essa crença causa mudanças significativas no cérebro e no corpo, que se traduzem em uma experiência diferente.

Então, que tal refletir sobre esses seis pontos acima? A neurociência hoje os tornou inquestionáveis e é óbvio que eles deveriam servir para remodelar a típica consulta médica. Se eles continuarem a passar batidos por ela – enfim mutilando diagnóstico e tratamento – não mais será por falta de informação, e sim pura e simplesmente por não se saber o que fazer a respeito. E essa é uma outra estória.

Nota do Editor: Este post tem cheiro de desabafo… e é isso mesmo. Porém, desabafar e desistir são coisas bem distintas. Tanto assim que os dois artigos publicados no blog nessa semana tratam de… você adivinhou!.. a neurociência da dor.

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