A sua dor crônica é sua. O seu cérebro, idem. Que tal colocar esses dois em contato?

A sua dor crônica é sua. O seu cérebro, idem. Que tal colocar esses dois em contato?

Graças ao fenômeno da neuroplasticidade, o cérebro pode se renovar até o fim dos dias, e no interim, desenvolver e pôr em prática extraordinários poderes não apenas para combater a dor, mas também para ajudar na recuperação de derrames, melhorar a visão doentia e atrasar sintomas de condições como a de Parkinson. Não, não é papo furado, mas neurociência da boa. Informe-se bem antes de dizer “não pode”.

“Qualquer homem poderia, se assim o desejasse, ser o escultor de seu próprio cérebro.”

– Santiago Ramon y Cajal, considerado “O pai da neurociência moderna”.

Quem segue este blog – obrigado, obrigado… – já deve ter notado que ele abrange cinco campos do conhecimento da dor. Um deles, para mim o mais importante, é o da neurociência.

Para mim e parece que para mais quatro ou cinco almas penadas, tão somente.

Sério. Toda semana eu reviso a leitura dos temas postados, no intuito de calibrar publicações futuras. E o da neurociência fica sempre na rabeira. Ou quase sempre. Os nossos visitantes simplesmente não gostam dele.

Confesso que já pensei em desistir. Do assunto, não da vida. Para que insistir, se outros temas como dor crônica, depressão, fibromialgia etc. são muito mais populares? Nunca foi bom para a saúde brigar com a realidade.

Mas então lembrei do Van Gogh. O Vincent. Ele pintou quase um milhar de quadros na sua vida e vendeu apenas um: A Vinha Encarnada, adquirido pela pintora belga Anna Boch em uma feira de arte em 1890. Pelo equivalente hoje a cerca de 1.200 dólares. Cem anos depois, em 1990, um outro quadro de Van Gogh, menos famoso, saiu por 145 milhões de dólares.

Então, quem sabe, daqui a um século alguém reconhece que eu estava certo em insistir com neurociência no blog. E a essa altura talvez admita, também, que seria 100% impossível entender de dor sem entender um mínimo dos traçados neurais, e da dinâmica, do vaivém doloroso. Vaivém, porque o mecanismo da dor envolve carga eletroquímica que vai do local da agressão ao cérebro, e carga eletroquímica que vem de volta modulando a dor a ser finalmente percebida. Vai e vem. Entendeu? Talvez não, e isso é muito ruim.

“Uma das coisas mais assustadoras da vida é quando você percebe que a única coisa que pode salvar você é você mesmo.”

Sim, ruim para você, se for apenas um paciente que jamais estudou medicina. Ou um médico que almeja praticar “Medicina Centrada no Paciente”, a bola da vez em congressos médicos e hospitais de ponta. E muitas vezes ruim porque ambos, paciente e médico, ao passar ao largo da neurociência da dor, estão deixando passar a oportunidade de – em muitos casos de dor crônica, principalmente – aliviar essa condição, sem remédios, sem cirurgia, com base no próprio esforço mental do paciente. E isso sim, é muito bom.

Não, não é vudú, nem macumba, mas neurociência. Ocorre que no cérebro, participam da fabricação da dor e, portanto, da sua modulação, várias regiões, algumas das quais responsáveis por cognição, emoção, memória… atividades não sensoriais. E talvez você não saiba, há atualmente um exército de cientistas e pesquisadores espalhados por dezenas de universidades em todo o mundo avançando por essa linha de combate à dor crônica:

  • Por um lado, trabalhando na sua prevenção via “bandeiras amarelas”. Ou seja, reconhecendo que as fontes psicossociais da dor crônica – família, ambientes, estresse, pensamentos e crenças – a explicam melhor que as biológicas, e que por isso convém investigá-las o quanto antes no paciente com dor-aguda-a-caminho-de-se-tornar-persistente.
  • Por outro lado, aliviando a dor crônica já instalada, ao privilegiar terapias Mente-Corpo sobre as farmacológicas; desde a ioga às diferentes formas de meditação, passando por neurofeedback e jamais negligenciando o movimento constante e prudente (ex.: exercício gradual) e a alimentação saudável.

Enfim, a questão que deveria intrigar a quem tem dor crônica é a seguinte:

Se o que modula a dor é uma matriz biopsicossocialespiritual (ufa!) na cabeça da gente,  então, por que não gerenciá-la nós mesmos cada vez que a dor pintar?

Para tanto, não precisamos beber sangue de touro à luz da Lua Minguante, nem fazer pactos com o Capeta, mas apenas respirar 10 vezes pelo diafragma e depois conversar com o nosso cérebro sobre o que ocorre, pedir explicações e torcer para que ele ouça e dê um jeito.

Ok, eu sei… simplório demais. E também que esse protocolo não ajuda muito a quem recebe uma facada na barriga, ou tem fibromialgia em Grau 4… Mas, pense bem, ele pode ser o suficiente para muita gente com dor crônica inexplicável e menos severa – umas poucas dezenas de milhões de pessoas no Brasil – obter algum alívio diminuindo o seu nível de estresse.

E se você está pensando que eu pirei, ao aconselhar ter um papo com seu cérebro a respeito de sua dor, eu entendo. É porque você nunca sequer tentou falar com ele sobre sua dor ser persistente, mesmo não havendo ferida à vista. Tentou?

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