O anestesista e a dor pós-operatória crônica - Parte 2

O anestesista e a dor pós-operatória crônica - Parte 2

“Apesar de o anestesista ser o profissional mais bem habilitado para o tratamento da dor aguda pós-operatória, na nossa realidade ele ainda não está inserido nesse contexto. Ele demonstra pouco interesse e desconhecimento de questões simples relacionadas ao tratamento da dor.” Você acha isso forte demais? Um desrespeito à classe dos anestesistas? Uma crítica típica de haters? Então, tire a dúvida lendo esse post.

Esperança é a anestesia da nossa vida.

Kazimierz Matan

Na semana passada publiquei um post sobre um profissional da saúde sobre o qual pouco se fala: o anestesista. Apresentei os resultados de duas enquetes sobre o seu conhecimento da dor pós-operatória, realizadas em dois países, a Índia e o Brasil.

Você pode avaliar esses resultados – semelhantes, por sinal – na base do copo meio-cheio versus meio-vazio. Um anestesista saber aproximadamente 70% do que deve saber sobre um aspecto central do seu negócio (dor) e num momento importante do mesmo (pós-operatória) pode ser considerado sofrível por quem está saudável, mas nem tanto, pelo sujeito que está para ser operado de qualquer coisa que requeira anestesia. Aliás, dramatizando um pouco, você se animaria a ser operado sabendo que a sua anestesia tem 70% de chances de dar certo?

Enfim, como até hoje ninguém veio apedrejar a minha casa, atrevo-me a voltar no mesmo assunto, ainda que introduzindo uma dose de suspense. Ou melhor, uma dose brasileira de suspense.

Recentemente (2015/2016) seis pesquisadores de três universidades convidaram 500 pessoas relacionadas à anestesiologia a participar de uma “jornada virtual” – leia-se, responder um questionário sobre “conhecimentos específicos em dor pós-operatória e seu tratamento”, pela internet. (Em cada 4 pacientes operados, três irão sentir dor posteriormente.) Enfim, um terço dos convidados (136) aceitou.

E o que aconteceu?

À primeira vista, resultados excelentes: a amostra respondeu unanimemente (94,86%) que um tratamento destinado a atenuar a dor pós-operatória crônica (DPOC) consegue isso – o que é verdade.

A leitura seguinte do artigo sobre a pesquisa em questão já é menos entusiasmante.

Para 72 participantes (52,95%), a dor pós-operatória é bem tratada onde atuam. Os dados oferecidos pela literatura sobre o tema, no entanto, não sustentam isso. Ou seja, o que tem sido publicado sobre isso em revistas consideradas científicas apontam para percentuais mais contidos… ou mais realistas, se preferir.

Uma avaliação de 46 avanços cirúrgicos ou de anestesia recentes revelou que apenas 13% foram altamente preferidos… e que em quase metade dos casos a nova terapia não foi melhor do que a terapia que substituiu. … Cerca de 12% das inovações aumentaram as complicações.

Harvard University Information Technology (HUIT)

Continuando:

É sabido que abordagens analgésicas adequadas têm capacidade de diminuir a incidência da DPOC – desde que precoces. Todavia, “… apenas 23,7% dos participantes responderam corretamente que o (tal tipo de) tratamento da dor aguda diminui a incidência de DPOC.”

Quanto ao que os participantes da pesquisa acham sobre a proporção de pacientes operados que sofrem de dor após a operação, 71 deles acreditam que mais de 50% dos pacientes apresentam dor pós-operatória.” Um artigo publicado no Journal PAIN (2017), porém, afirma que “… a dor pós-operatória não é adequadamente tratada em mais de 80% dos pacientes nos EUA, embora as taxas variem dependendo de fatores como o tipo de cirurgia realizada, a intervenção anestésica usada e o tempo decorrido após a cirurgia.”

Ao especular sobre as possíveis preocupações do paciente pré-cirurgia, a maioria dos entrevistados respondeu “sentir dor durante a cirurgia” e, em segundo lugar, o medo de “sentir dor após a cirurgia”. Outros estudos, entretanto, indicam a preocupação majoritária ser a de “sentir dor após a cirurgia“, seguida de “a possibilidade de não melhorar da doença” relacionada à cirurgia.

Outra preocupação comum associada ao tratamento da DPO é a ocorrência de íleo paralítico – leia-se, obstrução intestinal, idas ao banheiro mal sucedidas, constipação, intestino preso, como quiser… Os fármacos analgésicos (ex.: a morfina em uso sistêmico ou peridural) porém, amplificam esse problema no pós-operatório. Um problema que os participantes da enquete, em sua maioria não o consideraram como tal “… demonstrando mais uma vez desconhecimento ou pouca familiaridade com o tratamento da DPO.”

“Ainda quanto ao tratamento da dor, a maioria dos participantes respondeu que o uso de fármaco analgésico ‘se necessário’ deve ser evitado na dor aguda.” Errado, de novo. Segundo os pesquisadores: “Esse esquema pode resultar em uma inflexibilidade do tratamento, dependência da equipe de enfermagem e médica, culminando em demora no recebimento do analgésico e, por fim, em tratamento incorreto da dor, principalmente quando se trata de cirurgias de grande porte.”

Por fim, ao se referir a primeira categoria de analgésicos, os respondentes corretamente mencionaram os não opioides e não anti-inflamatórios (dipirona, p.ex.), porém se esqueceram de outras opções talvez “mais efetivas”, como os opioides. Para os pesquisadores, todos pertencentes a faculdades de anestesiologia, estes últimos “… continuam a ser o mais importante arsenal no tratamento da dor aguda pós-operatória de moderada a grande intensidade”.

O anestesista e o seu conhecimento sobre a dor pós-operatória crônica

Conclusão dos pesquisadores brasileiros:

“Apesar de o anestesiologista ser o profissional mais bem habilitado para o tratamento da dor aguda pós-operatória, na nossa realidade ele ainda não está inserido nesse contexto. Ele demonstra pouco interesse e desconhecimento de questões simples relacionadas ao tratamento da dor. Uma mudança nos programas de residência médica poderia resultar, a longo e médio prazo, em diferente postura do profissional frente ao tratamento da dor aguda pós-operatória.”

Resumo da Ópera:

Como em qualquer profissão, a da anestesiologia apresenta fissuras de conhecimento entre os que a praticam. Uns propõem eliminá-las pela educação, outros modificando os programas de residência médica. Essas coisas não são excludentes. Como o assunto é saúde pública, alguém deveria se tocar para isso. Na Índia e por aqui também.

Comentário do Dr. Who, pessoal e intransferível: nenhum dos três estudos apresentados nesse post e no anterior tem pretensões científicas, mas todos transmitem uma mensagem bem clara sobre um problema bem agudo. Não são evidências cientificamente comprovadas, mas são, sim, evidências gritantes, rasteiras e comuns a países com sistemas de saúde paupérrimos e diante as quais é preciso menos academia e mais ação. Falou Zaratustra.

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