O brasil não pode parar, certo? O problema é que o coronavírus também não.

O brasil não pode parar, certo? O problema é que o coronavírus também não.
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Vivemos tempos estranhos. Quando deveríamos TODOS estar empurrando para o mesmo lado, como TODO mundo faz quando o TODO está em perigo, Macunaíma toma conta. É um nonsense total. Este post mostra isso em termos estritamente técnicos, econométricos até. Talvez isso ajude você a entender o que está acontecendo. Ao menos tente.

“Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. E eu não estou muito certo sobre o universo”.

― Albert Einstein

It’s the economy, stupid” (É a economia, idiota) é uma frase atribuída a James Carville, então estrategista da campanha presidencial de Bill Clinton contra George H. W. Bush, presidente dos Estados Unidos na época.

A frase, dizem, foi um fator-chave na campanha de Clinton a partir de março de 1991, na disputa eleitoral. Na época, alguns dias após a invasão do Iraque, 90% dos estadunidenses aprovavam a atuação de Bush no cargo. Pouco mais de um ano depois Clinton foi eleito.

A frase virou uma coqueluche para designar aquele fator essencial que está sendo esquecido enquanto se toma uma decisão importante, especialmente em andares altos de prédios na Paulista ou na Faria Lima. Ela sofre adaptações do tipo “É o Gilmar, idiota!”, “É o Brasil, idiota!”, e por aí vai… ela explica tudo. Em um episódio de um seriado do Netflix, “É a economia, idiota” é uma frase dita por um louco que perambula levando uma cabra a tiracolo.

Enfim, a lembrança me veio à mente por conta do artigo de autoria de Thomas Friedman, na semana passada (22/03), no NYT, intitulado A Plan to Get America Back to Work. Friedman questiona a cura da pandemia via isolamento horizontal – “Todo mundo cercado para a curva se achatar” – por ela provocar estragos monumentais na economia de qualquer país. Em bom português: a emenda seria pior que o soneto.

O tal artigo inspirou algumas mentes míopes pelo mundo afora propondo como alternativa uma cura via isolamento vertical:

“Cerquem os idosos e os doentes crônicos e o resto, vida normal. A tal curva que se dane”.

Noutras palavras:

“It´s the economy, stupid”.

Pano rápido.

Moacir Azambuja trabalha num banco de investimentos e é economista com passagem pela Chicago School of Economics. Ele adora a frase antes comentada e resolve buscar argumentos para usá-la com autoridade no próximo happy hour.

Ele tira uma cópia do famoso desenho do achatamento da curva num artigo do artista gráfico Harry Stevens publicado duas semanas atrás no Washington Post.

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Ambas as curvas representam comportamentos hipotéticos do crescimento dos infectados ao longo do tempo.

A curva menor, a achatada não interessa ao Moacir. Afinal, ela é uma ilusão baseada no fechamento de indústrias, de shopping centers, de empregos… É isso que o isolamento horizontal produz, certo?

Então, o Moacir se concentra na curva aguda, a da esquerda. Por que o volume de mortes poderia subir, subir e subir, sabe-se lá quanto tempo?

O Moacir – em Chicago ele assinava Moacyr porque soava mais anglosaxão, digamos assim – decide montar uma equação econométrica para responder à pergunta.

A ecomometria, por sinal, é uma disciplina que mistura economia, estatística e matemática avançada. Em termos bem simplórios, monta-se uma equação com todas as variáveis envolvidas na produção de um fenômeno e depois criam-se cenários alternativos. Cenário 1. Se a variável A for 100 e a B, 20, o resultado é M. Cenário 2. Se a variável A for 80 e a B, 40, o resultado é N. E assim por diante, você simula vários futuros hipotéticos segundo o que especula que pode acontecer com A, B… até Z. (Por isso, alguém disse, a econometria é a arte de “… saber amanhã por que as coisas que foram previstas ontem não aconteceram hoje”.)

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Enfim, o Moacir olha para o lado direito da curva. O que pode sustentá-la na subida?

Variável A. Tanto em Nova York como em São Paulo, a disponibilidade de recursos médicos para enfrentar o fluxo de gente aos hospitais, de máscaras a ventilatores, é insuficiente e mesmo assim o Governo central quer confiscá-los. Sem ventiladores para preservar a respiração dos mais ferrados, já pensou?

Varável B. O poder da dissidência, em primeiro lugar. Simples, o Brasil é “presidido”, ou seja, alguém manda e se esse alguém NÃO quer que algo aconteça, é briga feia fazê-lo acontecer. Os ministros inteligentes que o digam. Ponto.

Variável C. O grau de desistência da população, em seguida. A quarentena fatalmente vai minando os espíritos. A primeira semana, tudo bem. A segunda, chateia. A terceira fica insuportável. Na quarta? Não quero mais saber! Eis a natureza humana.

Variável D. A inevitável escassez nos recursos de contenção da epidemia. O manpower de profissionais da saúde na linha de frente é (literalmente) perecível. O parque de equipamentos médicos, laboratoriais, etc. também. E ambos os recursos são parcialmente insubstituíveis no curto prazo.

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E pelo lado esquerdo da curva que está subindo? Que variáveis podem ajudar a vergá-la?

Duas me parece. O medo coletivo e a performance do isolamento social.

Variável E. O medo coletivo. Quanto mais medo o coronavírus incutir em muita gente, maior a disposição desta para fazer qualquer coisa em prol de escapar da cilada.

Variável F. A performance do isolamento social. Da mesma forma, quanto mais claro fique para mais gente que o isolamento social está dando certo – não demasiado certo porque então a tendência natural do ser humano é relaxar – maior a chance de menos gente acessar o sistema de saúde.

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OK, se você leu até aqui seguramente já está questionando as minhas variáveis e/ou agregando outras. Qualquer pessoa com tempo para gastar pode somar três ou quatro abecedários de variáveis com peso para ingressar na equação. Eu não tenho esse privilégio. Por outro lado, é um exercício teórico que mostra o difícil que é prever até quando a curva do volume de infectados no Brasil, agora começando a subir, seguirá subindo. É claro que alguns fatores tentam vergá-la, e outros, mantê-la tendendo mais ou menos ao infinito. Quais prevalecerão só Deus sabe e, dependendo de qual o lado que prevalecer, temo que nem você nem eu iremos saber nunca.

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Ah, e tem o Cisne Negro também. Eis a variável Z. A metáfora do Cisne Negro é atribuída ao pensador Nassim Nicholas Taleb e descreve um evento inesperado, insólito, que tem um efeito importante nos acontecimentos. O termo é baseado em um ditado antigo que presumia que os cisnes negros não existiam – embora de fato eles existam, ainda que raros. Pois bem, cisnes negros no caso podem ser, do lado horizontal, a descoberta de um Viagra para o coronavírus, e do lado vertical, um decreto presidencial criminalizando o vírus, mas não seus portadores.

Quem viver, verá.

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