O burnout das médicas

O <em>burnout</em> das médicas
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O presente post está baseado na última seção de um dos 24 capítulos do ebook “O Paradoxo de EVA”, que o blog irá publicar em breve. Esse capítulo em particular, trata do (escasso) peso relativo do “feminino” na indústria da saúde, notoriamente inferior ao dos homens. Este post, especificamente, comenta a taxa de burnout feminino (superior à masculina) entre as médicas em países desenvolvidos. Ela é preocupante. No Brasil poderia ser melhor?                                                 

“O burnout é a maneira de a natureza dizer, você está seguindo os movimentos que sua alma partiu; você é um zumbi, um membro dos mortos-vivos, um sonâmbulo.”

Sam Keen

O jornal Medicina número 265 trouxe como destaque a prevenção à Síndrome de Burnout entre os médicos. O assunto foi debatido durante o I Encontro Nacional dos Conselhos de Medicina 2017 e lançou luz sobre a gravidade desse problema, considerado “prioritário”.

“Segundo relataram membras da câmara Técnica de Psiquiatria, pesquisas mostram que 45,8% dos médicos relataram sintomas da síndrome do burnout em algum momento de suas carreiras.”

De tanto ler artigos sobre a saúde humana eu já automaticamente desconfio de afirmações do tipo “pesquisas mostram” ou “os cientistas dizem”, ou “há evidências de…”, embora, eu mesmo, às vezes recorra a elas. No caso, ignoro de onde saiu esse 45,8%, ou se tem validade etc., mas ao menos dá uma ideia de que o burnout é epidêmico na classe médica brasileira.

A questão aqui é: o burnout afeta médicos e médicas por igual?

A capa da revista sugere, inadvertidamente sem dúvida, as médicas como sendo as mais afetadas.

Na mesma época da publicação anterior, o site Medscape postou, sob o título “Estilo de vida e burnout médico no Brasil”, os resultados de uma pesquisa online anônima sobre o tema. Ela abrangeu 1.838 médicos de 38 especialidades. Um quarto sofria de burnout e outros 11% de burnout e depressão.

Os respondentes se dividiram equitativamente em médicos (912) e médicas (926), mas infelizmente o site não publicou (ou eu não consegui descobrir, pode ser…) os dados segmentados por sexo – o que, por sinal, parece ser um cacoete de pesquisa em todo o mundo. Para efeitos de sentir cansaço, depressão, dor crônica etc., seríamos todos iguais.

Atualmente começam a surgir evidências de que o esgotamento físico e mental intenso por razões ligadas a trabalho (o burnout) é realmente mais comum entre as mulheres.

Por que a ênfase em “realmente”? Porque antes de uma pesquisa de mais de 2 mil mulheres a cargo de sociólogos da Universidade de Montreal (Canadá) se pensava que as mulheres pareciam mais esgotadas apenas pela maneira mais expressiva (alarmista, diriam alguns) de se manifestar que as caracteriza, e que isso facilitava a identificação de burnout entre elas.

O estudo canadense, publicado no Annals of Work Exposures and Health em fevereiro de 2019, derruba essa suposição. O burnout feminino é coisa muito concreta. Nancy Beauregard e colegas sociólogos descobriram que “… a baixa autoestima e o aumento dos conflitos entre a família e o trabalho, como quando o trabalho invade o tempo gasto com seus entes queridos ou não deixa energia para não atividades de trabalho, ocorrem com muito mais frequência nas mulheres”.

A constatação é genérica, mas dá cobertura, por assim dizer, aos resultados de outra pesquisa publicada alguns meses antes, abrangendo 15.000 médicos de 29 especialidades nos EUA:  o burnout foi autorrelatado por 48% das médicas e 38% dos médicos.

Concomitantemente, informações parecidas provinham de outras fontes:

  • Em algumas especialidades as mulheres têm maior probabilidade de apresentar sintomas de burnout do que os homens, por exemplo, entre pediatras e oncologistas.
  • Quanto aos médicos internos, uma ampla pesquisa nacional americana constatou que as mulheres tendiam a reportar burnout e insatisfação com a integração no trabalho mais do que os homens.
  • Por fim, The Physician Work Life Study, uma entidade americana, consultou 5.704 médicos tanto em atendimento primário como especialistas, entre os quais 2.326 mulheres ou um terço do total. Comparadas aos médicos, as médicas eram mais propensas a relatar satisfação com sua especialidade e com o relacionamento com pacientes e colegas, mas menos propensas a estarem satisfeitas com autonomia, relações com a comunidade, remuneração e recursos. Note-se que estas últimas fontes de insatisfação têm relação com o “prestígio” das médicas nos hospitais, clínicas e laboratórios, que como já vimos, é inferior ao dos médicos. Fora isso, as médicas atendiam mais pacientes do sexo feminino e mais pacientes com problemas psicossociais complexos, porém o mesmo número de pacientes com doenças médicas complexas, em comparação com os colegas do sexo masculino. A pressão do tempo em ambientes ambulatoriais também era maior no caso delas, precisando de 36% mais tempo do que o previsto para fornecer atendimento de qualidade a novos pacientes ou consultas, em comparação com 21% mais tempo necessário para os homens.
  • Em 2018, a Associação Médica Canadense divulgou os resultados de sua Pesquisa Nacional de Saúde com Médicos, que mostrou que as médicas tinham 23% mais chances de sofrer burnout, 32% mais chances de depressão e 31% mais chances de ter pensamentos suicidas do que as seus colegas do sexo masculino.
  • Pesquisas recentes da Universidade de Michigan (EUA), publicadas no JAMA Network Open, mostram que, dentro de seis anos após a conclusão do treinamento em residência, quase 75% das mulheres médicas relataram reduzir suas horas de trabalho ou considerar trabalhar em meio período.


Todo o anterior explica ao menos em parte por que nos Estados Unidos as médicas tendem mais ao suicídio que seus colegas homens, e também por que a sua taxa de suicídio é 2,27 vezes maior que a das mulheres não médicas.

Em suma, o burnout é mais prevalente entre as mulheres, e essa condição se estende ao universo médico. O futuro? Nada promissor. A prevalência de burnout no fim do século pode ser de 20 a 60% maior entre as mulheres médicas do que entre os homens.12

O presente post está baseado na última seção de um dos 24 capítulos do ebook “O Paradoxo de EVA”, que o blog irá publicar em breve. Esse capítulo em particular trata do (escasso) peso relativo de “o feminino” na indústria da saúde, notoriamente inferior ao dos homens. Isso, com base nos salários das médicas vis-a-vis o dos médicos, na presença feminina em especialidades médicas e doenças de prestígio, na ocupação de postos de destaque nessa indústria por mulheres e por fim… no tema deste post: a taxa de burnout feminina (superior à masculina). Tudo isso, caso tiver passado despercebido, fragiliza os cuidados à saúde feminina.

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