O ciclo esperança – Decepção na dor crônica

O ciclo esperança – Decepção na dor crônica

Você já acordou de manhã com uma dor nas costas que demorou meses em passar, até um dia sumir… e reaparecer semanas depois? Isso é como perder o bilhete premiado da MegaSena. Veteranos nessa desafortunada experiência podem aconselhar você, e evitar que a sua frustração gere raiva, desânimo e imobilismo, os quais só fazem a dor piorar. Esse artigo mostra um exemplo disso.

“Você nunca conquistará ninguém com pena. Você deve criar o tipo certo de sonho, o tipo de magia sóbria e adulta: a ilusão nascida da desilusão.”

Sylvia Plath

Uma das piores coisas que costuma acontecer ao paciente que sofre com uma dor crônica é a de imaginar ter se livrado dela. Aquilo não seria um desvario, por sinal. A dor crônica é flutuante e, em certos casos, pode até sumir por um tempo. O desespero e a ilusão fazem o resto.

Esse artigo a seguir é uma recomendação sobre o que fazer num caso desses, quando uma dor crônica vai e… volta. De onde ele saiu?

Existe uma espécie de clube de pacientes possíveis, prováveis e certos de uma condição dolorosa chamada originalmente de Tension Miosite Syndrome – ou Síndrome da Miosite Tensional – descoberta há mais de meio século. Trata-se de uma dor sem ferida, resultante de uma queda da oxigenação dos tecidos, a qual, inicialmente pensou-se que seria apenas musculoesquelética. Hoje alguns relacionam a TMS até com doenças autoimunes (artrite reumatoide) ou inexplicáveis (fibromialgia). A sua origem é fortemente psicossomática, psicogênica, psicológica ou qualquer coisa com “psi” na frente (toda vez que apoiada em material tóxico que guardamos no subconsciente), e sua condição médica, crônica, sem dúvida.

Dois livros escritos pelo mentor dessa teoria, hoje respeitada por neurocientistas, estão disponíveis aqui no blog.

Em síntese, a TMS afeta muita gente e esse “clube” mencionado acima comanda um site chamado TMSwiki, que reúne uma fauna e flora fenomenal de gente bem intencionada – de padeiros a advogados, passando por empresários e donas de casa – buscando e fornecendo informações sobre o assunto.

O que você verá nesse artigo é uma consulta típica, seguida da resposta dada por uma das habitués do site, informalmente agindo como guia de novatos.

O CICLO ESPERANÇA/DECEPÇÃO NA DOR CRÔNICA

A PERGUNTA:

Eu tenho feito o Programa de Recuperação nos últimos 31 dias e no início, senti-me esperançoso, a minha dor ficava um pouco mais gerenciável (principalmente o quadril e a lombar.) Caminhei com determinação e até tentei correr um pouco. Mas agora, nos últimos dois dias, enfrento um tremendo espasmo – bem espalhado – e hoje, ando todo curvado.

Uma vez que todo movimento é excruciante, acabei de tomar um analgésico forte para ver se eu posso reduzir a intensidade da dor.

Eu tendo a ser bastante analítico e abracei completamente o conceito de TMS. O meu sucesso anterior irritou minha mente e me fez realmente pensar de novo em se isto – o motivo da minha dor – não é realmente físico? Estou aberto a todas as ideias e estou certo de que vou sair avante. Eu apenas sinto-me algo derrotado hoje e me pergunto quanto tempo isso levará. Já fiz terapia muitas vezes e sei que é provavelmente a razão de eu perseguir todos os médicos da cidade para ver se podem me ajudar. Esta é a primeira vez que estou realmente fazendo algo por conta própria.

A RESPOSTA

Muitas vezes, quando as pessoas aprendem sobre o TMS, ficam aliviadas e esperançosas por finalmente ter encontrado uma resposta e um caminho para a recuperação. Você começa a se envolver no tratamento e os sintomas podem começar a se sentir mais gerenciáveis, você está se sentindo excitado, animado. E você pode até começar a se sentir um pouco melhor, emocionalmente e fisicamente.

Então, booom, seus espasmos e suas dores retornam com força total. E aquilo destrói a esperança e a excitação e traz de volta incerteza e decepção. “O que eu fiz de errado?” “Isso está funcionando” “Eu dormi numa postura errada?” “É melhor ou pior do que era ontem?” “Ora, eu sabia que isso não funcionaria! “” Talvez haja algo estruturalmente errado comigo? “”Deveria ter parado de fazer terapia física?”

Esses pensamentos medrosos lhe parecem familiares? A dor psicogênica é alimentada e reforçada pelo medo. Decepção, desespero, frustração etc., e os pensamentos que os acompanham, são todas formas de medo. Então, na sua tentativa de se dar uma melhor chance de sucesso, monitorando as flutuações da sua dor, você é envolvido em pensamentos que, aliás, podem ter levado você a esta situação em primeiro lugar. Você vive pesquisando e pesquisando sua dor em busca de informações e orientação. E o que você acaba encontrando é mais dor.

Ora, a experiência de flutuar entre a esperança e a derrota no processo de recuperação de TMS/dor psicogênica é incrivelmente comum dentro da comunidade TMS. Se você tem TMS, há uma boa chance de ter passado meses, anos e até décadas tentando descobrir o que está errado com você e tentando desesperadamente resolver sua dor. Este processo é muitas vezes marcado por uma sensação de incerteza, confusão e medo de se você está ou não no caminho certo e se cada coisa que você está fazendo é ou não é a coisa “certa”. Cada passo da sua jornada com dor até agora provavelmente significou você medir e monitorar seus sintomas na esperança de se dar uma melhor chance de sucesso. É perfeitamente normal que você tenha sido pressionado a retroceder pelo seu cérebro e pelo seu corpo ao se engajar em atividades que estes se condicionaram a perceber como inseguras, mas isso não significa que sejam! A dor tem uma maneira de assustar-nos, empurrando-nos de volta a este estado de medo, o que, por sua vez, reforça a dor – é um ciclo vicioso. Além disso, estamos condicionados evolutivamente para associar a dor física com lesões físicas, o que torna mais difícil abster-se de pensar que a dor só pode ser o resultado de algo que fizemos fisicamente. Assim sendo, parte fundamental do processo de superação da dor é ensinar o cérebro que as sensações dolorosas que estamos sentindo não são fisicamente perigosas para nós. Eis o caminho para neutralizar o medo, a decepção e a impaciência quando a dor ressurge ou aumenta.

Parece que você já fez o trabalho para saber em um nível intelectual que você não está fazendo nada para se machucar, mas também parece que ainda há uma parte de você que ficou presa na ideia de que algumas das suas ações podem estar prejudicando seu processo de cura. Tenha em mente que o objetivo não é sair imediatamente da dor, mas mudar sua relação com o medo. Isso pode levar tempo e paciência. Sua dor vai testá-lo e isso é uma parte importante da sua jornada porque cada vez que você for capaz de responder à sua dor sem medo, você estará quebrando o reforço dela, até um dia conseguir dominá-la e encontrar alívio.

Eu sei que isso não é tão fácil quanto parece, dor dói e às vezes é difícil não ter medo disso. Você já se decepcionou tantas vezes antes, gastou tempo e energia tentando cuidar de si mesmo e hoje a sua dor, mais que outra derrota, parece ser uma traição da vida.

Então, agora, o trabalho é criar confiança, sabendo que você não está se machucando ao se movimentar, sendo compassivo com você mesmo, exercitando paciência ao longo do processo e comemorando pequenas vitórias. Sua motivação para trabalhar com sua dor é maravilhosa e é muito difícil encontrar um equilíbrio entre tentar fazer todas as coisas certas e não se autopressionar para fazer tudo perfeitamente. Esta é uma oportunidade para controlar a impaciência de obter um determinado resultado e entender que as flutuações na dor e na esperança são parte de uma jornada maior. Trabalhar através da sua dor pode ser muito desafiador e é um processo! Manter em mente que a dor é parte desse processo de cura irá neutralizar sua decepção se e quando ela surgir. Você está exatamente onde você deveria estar agora, apenas continue se engajando no tratamento e flexionando seus músculos para eles o afastarem da borda do medo.

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