O controle da dor crônica pela via emocional

O controle da dor crônica pela via emocional
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A dor crônica pode ser controlada psicologicamente? Sem fármacos? Ainda hoje essa possibilidade é desconsiderada pela maioria dos profissionais de saúde. No entanto, a ciência sugere o oposto. Observações clínicas e exames de fMRI permitiram descobrir processos emocionais associados à dor crônica nas costas, incluindo os elementos cerebrais envolvidos. Comumente, pensa-se que esses processos agravem a dor, o que de fato ocorre. Mas pode ser também o contrário: ao controlar as emoções negativas relacionadas à dor crônica – medo da dor, catastrofismo… – o próprio paciente pode amenizar o seu significado, facilitando uma recuperação.

“O amor é como uma dor nas costas. Não é visível em raios-X, mas você percebe que está lá.”

Vania Apkarian, Ph.D., é professor de neurociências na Northwestern University. Ele tem estudado os fundamentos neurais da dor crônica há mais de 20 anos. Desde a virada do século, ele tem se destacado por pesquisar como a dor crônica nas costas parece causar danos cerebrais. Por cada ano de agonia, as pessoas perdem cerca de um centímetro cubo de matéria cinzenta. Apkarian descobriu que os indivíduos com dor crônica nas costas tinham entre 5% e 11% menos matéria cinzenta do que os sujeitos do grupo de controle. O sofrimento é literalmente tóxico.

Em um artigo publicado no The Journal of Neuroscience, o laboratório do Apkarian localizou as áreas cerebrais específicas desencadeadas pela dor crônica nas costas. Os cientistas descobriram que a dor crônica – ao contrário das regiões cerebrais ativadas por dor aguda, tipicamente associadas a emoções negativas – é realmente uma desordem emocional. É um mau funcionamento da segunda via da dor. “É como se pessoas com dor crônica internalizassem a dor”, diz Apkarian. “A dor se tornou parte de quem elas são. É por isso que você não pode simplesmente tratar o corpo”.

À primeira vista, esses dados são desanimadores. A dor de sofredores crônicos parece estar literalmente incorporada em seus cérebros, cimentada em suas almas. Mas é o contrário.

É como se o mapa de um tesouro que muitos sabiam existir, mas careciam de argumentos para afirmá-lo, tivesse sido descoberto. E, também, a trilha para se chegar nele. Porque se a dor psicológica estiver associada às vias neurais x, y ou z, mesmo que “para mal”, então esse curso pode potencialmente ser revertido. E melhor ainda, quem pode fazer isso não é um terceiro, mas o próprio paciente – e agora “para bem”.  O sofrimento que essa dor provoca, portanto, pode ser aliviado na fonte. Na sua fonte neural, mais precisamente.

(O foco do Dr. Apkarian, aliás, não é a dor física, mas o comportamento da dor, que tem componentes físicos e emocionais. Eu quero que o paciente diga: ” Ainda tenho dor, mas já não me incomoda”. “Nós pensamos que elas terão consciência física da dor, mas suas consequências emocionais terão diminuído”. A parte “crônica” da dor crônica terá sido apagada do cérebro.)

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Mas há um problema, e não é pequeno. A noção de que a dor está efetivamente sediada no cérebro e não no restante do corpo, ou na pele, mais precisamente, desafia o bom senso, o aprendido nos livros de biologia e o que 99,9% da humanidade pensa. O fato é que, apesar do conjunto convincente de evidências que demonstram o componente psicológico da dor crônica nas costas, a grande maioria dos pacientes ainda rejeita qualquer diagnóstico com cheiro de psicologia.

Grande parte da solução é uma melhor educação do paciente. “Muito do que eu faço é educar as pessoas sobre o que suas ressonâncias magnéticas estão mostrando e como isso se relaciona com a dor nas costas”, diz o Dr. Sean Mackey, da Stanford University. “Eu lembro a elas que… a degeneração geralmente é parte de um processo normal e isso não implica necessariamente que a sua dor resulte disso. Os pacientes devem ultrapassar o medo da dor, porque o medo os impede de progredir. É como se eles se deslocassem para um estado de ‘desamparo aprendido’.”

Muitos pacientes também acham a possibilidade de um diagnóstico psicológico ultrajante. Eles assumem que, se a dor tiver um componente mental, então deve ser imaginária.

“Quando você diz a um paciente que sua mente pode ser responsável por sua dor, ele acha que você o está chamando de louco. Eu sempre digo aos pacientes que a dor não é menos real por ser causada pela mente. Isso apenas significa que melhorar passa por mudar algo em sua mente e não nas suas costas.”

A boa notícia é que, embora não possamos sempre realinhar nossas colunas ou consertar nossos discos quebrados, podemos controlar nossa percepção da dor crônica. Com o treinamento adequado, podemos aliviar nosso próprio sofrimento. Essa, pelo menos, é a conclusão otimista de um recente estudo realizado pelo Dr. Mackey e outros pesquisadores na Stanford.

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O estudo usou imagens de cérebro fMRI em tempo real para ensinar pessoas com dor crônica a como modular sua resposta consciente à dor. Alguns se distraíam com pensamentos agradáveis, enquanto outros recitavam mantras ou ouviam música suave. Apesar da diversidade de estratégias, cada um dos pacientes pode ver o impacto direto de seus pensamentos paliativos. Eles observaram como as partes específicas de seus cérebros associadas à dor crônica diminuíram gradualmente durante a atividade. Eles se tornaram seus próprios analgésicos. Os resultados do experimento foram dramáticos. A maioria dos pacientes com dor crônica relatou uma diminuição da intensidade da dor, em média de 64%. Os pacientes deixaram de ser vítimas indefesas de uma anormalidade estrutural no corpo e agora puderam se concentrar em lidar com a dor em suas mentes. Só saber que eles poderiam controlar a dor tornou a dor menos terrível.

Christopher deCharms, Ph.D., um colaborador do Dr. Mackey, está tentando colocar essa abordagem terapêutica no mercado. Ele iniciou uma empresa chamada Omneuron, que disponibiliza o tratamento experimental para um público mais amplo. Uma sessão padrão é assim: o paciente fica com um scanner no cérebro enquanto experimenta dor, e então observa enquanto seu cérebro se acende em agonia. A mancha da atividade neural que o faz sofrer é claramente perceptível. Então, com a ajuda de um terapeuta treinado, o paciente aprende como conscientemente desligar as áreas cerebrais específicas que se correlacionam com a dor crônica. Após algumas sessões, os terríveis sintomas começam a desaparecer. A dor não é mais permanente. É um exemplo real do predomínio da mente sobre a matéria.

Baseado em trechos “The Psychology of Back Pain”, por Jonah Lehrer.

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2 comentários
    1. Olá, obrigado pela sua pergunta. Sem saber o quanto você sabe sobre o tema, de bate pronto, eu recomendaria abordar a Terapia Cognitivo Comportamental. Informação preliminar sobre ela você acha no próprio blog. E depois pode consultar um psicólogo que tenha experiência de uso em pacientes com dor crônica. Até o momento, é a única opção com histórico de resultados razoáveis.

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