O diz-que-me-diz do ibuprofeno no rastro do coronavírus. E o que você me diz?

O diz-que-me-diz do ibuprofeno no rastro do coronavírus. E o que você me diz?
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O ibuprofeno é um dos fármacos mais consumidos no mundo, se não o mais consumido. O seu princípio ativo está em meia centena de remédios anti-inflamatórios. Recentemente aventou-se que ele não seria recomendável para pacientes infectados com o Covid-19. Até a Organização Mundial da Saúde entrou nessa e depois saiu rapidinho. O ibuprofeno livrou a cara, então. Será? Este artigo sugere que há razões para continuar de olho nele e nos anti-inflamatórios em geral, no contexto do Covid-19.

Autor: Julio Troncoso

Um estudo publicado no periódico científico The Lancet The Lancet Respiratory Medicine, mais precisamente – no dia 11 de março, alertou sobre uso de ibuprofeno no tratamento de pacientes contaminados com o novo coronavírus (Covid-19) e fez a Organização Mundial da Saúde (OMS) não recomendar o uso do medicamento. De fato, o estudo apontava que pessoas com diabetes e hipertensão correm um risco aumentado de infecção por COVID-19. Isso porque “… os coronavírus patogênicos humanos ligam as células-alvo usando a enzima conversora de angiotensina 2 (ECA2 ou ACE2, em inglês), que pode ser aumentada pelo tratamento com inibidores da ECA e angiotensina II bloqueadores de receptores do tipo I.”1

Olivier Véran, o Ministro da Saúde francês chegou a pedir que as pessoas com Covid-19 evitassem o ibuprofeno e tomassem, em vez disso, paracetamol. Alguns pacientes tiveram efeitos adversos graves ao tomar anti-inflamatórios, informou o Ministério da Saúde em um boletim para médicos, e eles nunca deveriam ser usado neles. A recomendação da Organização Mundial da Saúde veio em seguida.

Corticoides e aspirina também foram contraindicados.

O caldo entornou quando logo depois Lei Fang, MD, PhD, pesquisador de pós-doutorado no departamento de biomedicina do University Hospital Basel, na Suíça, e colegas, propuseram que certos medicamentos aumentam o número dos chamados receptores ECA2 na superfície das células. Como os coronavírus usam esses receptores para infectar células, teoricamente, os pacientes que tomam os medicamentos podem ser mais vulneráveis ao vírus.2

Eles enviaram ao The Lancet a correspondência seguinte:

“Sugerimos que pacientes com doenças cardíacas, hipertensão ou diabetes tratados com medicamentos que aumentam a ECA2 têm maior risco de infecção grave por COVID-19 e, portanto, devem ser monitorados quanto a medicamentos moduladores da ECA2, como inibidores da ECA ou receptor de angiotensina bloqueadores”.

Traduzindo: pacientes com diabetes e hipertensão que eram tratados com ibuprofeno tinham mais riscos de desenvolver quadros severos de Covid-19.

Mas como não houve pesquisa para apoiar a disputa, a grita dos cientistas foi generalizada e poucos dias depois a Organização Mundial da Saúde (OMS), no dia 19/3, voltou atrás a respeito dos riscos relacionados ao uso do ibuprofeno nos pacientes diagnosticados com Covid-19. Pacientes que fazem uso continuado de ibuprofeno ou cetoprofeno não deveriam interromper o tratamento per se.

A história, ou estória, completa do affaire pode ser vista aqui.

No Brasil houve um certo alívio.3

“Não é que o medicamento vai aumentar a chance de ter coronavírus. Nossa secretaria de ciência e tecnologia fez revisão bibliográfica e, neste momento, não há nenhum motivo, nem comprovação cientifica para que haja substituição do Ibuprofeno.”

Dr. Celso Granato, diretor Médico do Grupo Fleury

O alívio se deve a que o ibuprofeno é um dos fármacos mais consumidos no mundo, se não o mais consumido. Você já tomou lombalgina? Ibuprofeno na parada. Trata-se de um fármaco do grupo dos anti-inflamatórios não esteróides (AINEs) utilizado para o tratamento da dor, febre e inflamação. Ele abrange enxaquecas, moléstias da menstruação, dor dentária, dores do parto, dor muscular, febre e dor pós-cirúrgica; e para quadros inflamatórios como os que se apresentam em artrites, artrite reumatoide e artrite gotosa. E por isso quase meia centena de remédios comprados em farmácias tem o ativo em sua composição.4

Advil, Algiflex, Algi-Reumatril, Alivium, Buprovil, Buscofem, Dalsy, Doraliv, Doraplax, Febsen, Ibuflex, Ibufran, Ibuliv, Ibupril, Ibuprofan, Ibupromed, Ibuprotrat, Ibuvix, Iquego-Ibuprofeno, Lombalgina, Motrim, Novalfem, Otiun, Parartrin, Spidufen, Uniprofeno

Até aqui tudo não passaria de uma gafe monumental envolvendo ministros, a OMS, e o Capeta, mas teve quem ficasse com a pulga atrás da orelha: afinal o que é, em relação ao ibuprofeno, realmente arriscado para pacientes com coronavírus?

Uma dessa pessoas é uma jornalista especializada em ciência, colunista do The New York Times, que eu venho lendo há décadas, chamada Gina Kolata. A mulher é um ponto fora da curva no seu ofício.

Ocorre que há razões para se preocupar com o uso pesado e prolongado de AINEs, que têm sido associados a um risco aumentado de danos nos rins em alguns pacientes. Pessoas que tomam anticoagulantes também devem evitar os AINEs.

Especialistas em doenças infecciosas suspeitam que quando os AINEs e o acetaminofeno reduzem a febre, os pacientes podem ficar mais confortáveis, mas suas temperaturas mais baixas podem causar um curto-circuito na principal defesa do corpo contra infecções.

Na contramão, o sistema imunológico funciona melhor quando a temperatura do corpo é mais alta, liquidando de maneira mais eficiente vírus e bactérias. A febre é benéfica no combate a infecções e o coronavírus provoca uma infecção.

Existe, então, o perigo de que os redutores de febre – os AINEs incluindo o acetaminofeno – possam ter um efeito semelhante em pacientes doentes com o coronavírus. Eis o ponto que a Kolata levanta num artigo publicado no The New York Times (17/03/20).

Por aqui, a questão se torna mais incômoda ainda após hoje o Ministério da Saúde autorizar a extensão da validade das prescrições médicas de remédios como os relacionados ao ibuprofeno etc., de um mês para seis meses. Eu tenho uma amiga que sofre de artrose e vive aturando surtos de dor. Dor que ela diz ser insuportável – e que, sempre na opinião dela, consegue aliviar com anti-inflamatórios em dose reforçada. Dose esta que é proporcional em tamanho da dor que sente. Vira e mexe, então, milhares de infectados com o Covid-19 em teoria adquiriram carta branca para recorrer a anti-inflamatórios que, sempre em teoria, podem fazer com que eles demorem muito mais em se curar do que se o acesso fosse restrito.

“Um medicamento como o paracetamol ou o ibuprofeno pode diminuir a febre, mas você não quer continuar tomando isso constantemente”, disse Marguerite Neill, especialista em doenças infecciosas da Brown University. “Deixe a febre fazer o seu trabalho”. E esse trabalho faz parte da reação imunológica do corpo ao Covid-19.

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

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