Se o placebo não for o comprimido, então o que pode ser?

Se o placebo não for o comprimido, então o que pode ser?

O Efeito Placebo deixou de ser o “sem teto” da medicina. Descobriu-se há pouco que ele age no cérebro percorrendo as mesmas vias neurais de um analgésico – e já começa a ser usado como tal em tratamentos da dor crônica sérios. Mas qual a origem desse efeito? Você vai se surpreender.

“Há biologia por trás da resposta placebo”

Vania Askarian, cientista
O que tem a ver um experimento numa fábrica em Chicago há quase um século com uma possível alternativa de alívio da sua dor crônica?

O Efeito Placebo. Desprezado durante séculos por cientistas e médicos, hoje o placebo está na moda porque cientistas dizem poder prever com segurança quais pacientes com dores crônicas responderão a uma pílula de açúcar usada como placebo, mesmo sendo eles, os pacientes, informados disso com antecedência.

Tudo começou, porém, em 1927, numa fábrica da Western Electric Company situada na vizinhança de Hawthorne, em Chicago. Um experimento financiado pelo Conselho Nacional de Pesquisas dos Estados Unidos (National Research Council) visando determinar a relação entre a intensidade da iluminação e a eficiência dos operários, medida através da produção. Eram os tempos do Modelo T da Ford, do taylorismo e da noção de que mexendo nos fatores de produção os seres humanos produziriam mais e melhor.

Os pesquisadores reduziram a iluminação na sala do grupo experimental. Esperava-se uma queda na produção, mas o resultado foi o oposto, a produção na verdade aumentou! Em síntese, não foi possível provar a existência de qualquer relação simples entre a intensidade da iluminação e o ritmo de produção. Foi concluído que o nível de competência e eficiência dos operários era determinado mormente pela organização social deles e não pelas medidas tomadas pela hierarquia – por exemplo, quanto mais integrado socialmente no grupo de trabalho, tanto maior era a disposição de produzir do operário, etc., etc. A descoberta mudou a cara das relações no trabalho, ao menos nos Estados Unidos. A origem dos departamentos de RH, dos assistentes sociais, dos psicólogos nas empresas é essa.

O experimento acabou e depois de décadas descobriu-se a verdadeira causa da produtividade ter aumentado mesmo com os operários trabalhando na semiescuridão – eles teriam se sentido observados, prestigiados, importantes… Nascia o Efeito Hawthorne.

Pano rápido. 2016. Novo nome: o Efeito Placebo.

Como a maioria das pessoas, você seguramente sabe que ele acontece quando um medicamento ou outro tipo de terapia que não deveria ter consequência, acaba por trazer melhorias. E também sabe que isso ocorre porque em algumas situações – como por exemplo nas de dor – o placebo tem um efeito biológico semelhante àquele que é causado pelas drogas. Mesmo que se trate de apenas um comprimido de açúcar! E mesmo que seja dito a priori que o comprimido é mesmo de açúcar!

Dê a alguém que tenha fé em você um placebo, seja uma pílula de crescimento do cabelo, pílula anti-náusea ou qualquer outra coisa, e você ficará surpreso com quantas pessoas respondem à sua terapia.

Esse efeito é seletivo, porém. Estudos já procuram esclarecer os fatores genéticos, biológicos, psicológicos e contextuais que permitem a identificação de indivíduos com alta ou baixa probabilidade de apresentar uma “resposta placebo”.

De fato, atualmente o placebo está na moda porque cientistas da Northwestern University dizem poder prever quais pacientes com dores crônicas responderão a uma pílula de açúcar usada como placebo, com base na anatomia e nas características psicológicas do cérebro dos pacientes. No primeiro caso, graças a um enzima, o COMT rs 4680, que degrada a dopamina. No segundo, por conta da sugestibilidade – a tendência a se deixar influenciar – da pessoa. Quanto mais COMT nos genes, e mais sugestionável a pessoa, maior a chance do Efeito Placebo funcionar nela.

Essas pessoas “ …possuem a psicologia e a biologia apropriadas para ficar num estado cognitivo tal que, tão pronto você diz a elas ‘isso vai aliviar a sua dor’, a dor delas é aliviada. Não é necessário lhes ocultar que a droga a ser ministrada é de mentira. O eu cérebro irá responder positivamente de qualquer maneira.”

Tudo muito bonito e promissor, mas uma variável ficou de fora dessa equação. Da mesma forma que há quase um século os pesquisadores de Hawthorne esqueceram do poder motivador da observação alheia, os estudiosos do placebo hoje esnobam o poder motivador da relação médico-paciente, e o quanto ele influencia o sucesso de um tratamento de dor crônica, seja por conta da adesão do paciente ao mesmo, ou pela sua convicção de que as coisas finalmente vão dar certo, inspirada na conduta segura e (ao mesmo tempo) afetuosa do médico.

A propensão ao efeito placebo pode estar nos genes e na psique do paciente, mas o placebo propriamente dito não é uma pílula, mas sim quem a prescreve: o médico. (E isso, aliás, não me ocorreu ontem olhando o mar. Tem sido comprovado cientificamente.)

“É possível ler a Bíblia, estudar a Bíblia, e decorar grandes trechos da Bíblia e, no entanto, não entender qual é a da Bíblia.”

Tullian Tchividjian
Num próximo post retornarei ao assunto.

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