O método pilates – Um antídoto para a dor nas costas?

O método pilates – Um antídoto para a dor nas costas?

Pilates, junto com a ioga, são os dois tipos de exercício mais “recomendados” para aliviar a dor lombar. “Recomendados” por quem tem interesse no assunto: professores, instrutores, personal trainers, naturalmente. Porém no caso do Pilates, essas recomendações têm fundamento? Que evidências há a respeito? Veja aqui as que levantei no Brasil e no exterior.

A mudança acontece através do movimento, e o movimento cura.

Joseph Pilates
A primeira coisa em que o sujeito pensa quando acometido por lombalgia – dor na região inferior das costas – é na farmácia. A segunda, após ter detonado o estômago, é ir num médico, o qual, quem sabe, irá lhe recomendar “exercício”. E se o nosso amigo, ou amiga, não quiser pagar um fisioterapeuta, vai tentar descobrir “aquele” exercício que estiver mais em voga, for o mais barato e puder ser feito em casa. E se prometer deixá-lo mais bonito, melhor ainda.

Pilates e ioga, os primeiros da fila.

Praticante que há décadas eu sou do primeiro, vou aqui comentar o que é sabido sobre suas possibilidades terapêuticas – no que se refere a aliviar a lombalgia, o tipo mais comum de dor nas costas.

No papel, praticar Pilates certamente promove a saúde das costas. Aprender a ficar ciente do alinhamento natural da coluna e a fortalecer os músculos profundos que garantem uma postura à la “guarda da Rainha fazendo tipo para turistas no Palácio de Buckingham” são coisas que, no mínimo, protegem da lombalgia.

E tão evidente é isso, que na internet sobram dicas para aliviar a lombalgia por intermédio de “…exercícios simples que você pode fazer no conforto de sua residência”.

Maravilha! Porém, vejamos agora o que alguns (poucos) estudos sérios têm a nos dizer a respeito.

Os estudos clínicos publicados no Brasil são metodologicamente semelhantes. Apenas um deles, porém, é controlado e randomizado, e distingue grupos de controle e experimental. Todos os três medem dor e incapacidade pré e pós uma série de duas sessões de Pilates por semana, realizadas num período de tempo relativamente curto (30/60 dias).

No mais recente, com 16 participantes, o grupo experimental apresentou significância, sugerindo o método Pilates ser “…adequado ao tratamento da dor lombar crônica, porém (reconhecendo que este) não se mostrou superior à fisioterapia convencional”.

O mais antigo dos estudos (2009), contou com apenas 5 mulheres e também concluiu que “…o Método Pilates pode proporcionar efeitos benéficos em quadros de lombalgia crônica e que este se apresenta como mais um recurso fisioterapêutico disponível para uma intervenção diferenciada e específica”.

Um terceiro estudo, com 6 participantes, associou o método Pilates a uma significativa redução da dor e melhora do domínio físico e psicológico. A conclusão foi a de que: “… o Método Pilates pode ser uma opção de tratamento eficaz no tratamento da lombalgia, atuando globalmente.”

Maravilha? Mais ou menos. Certamente não escapa ao leitor que as conclusões desses trabalhos carecem de representatividade devido ao minúsculo tamanho das amostras em que se baseiam.

Contudo, na mesma época um outro estudo (canadense) parecido aos anteriores, e algo mais “parrudo” (39 pessoas), relatou: “… uma diminuição significativa na lombalgia e incapacidade, que foi mantida ao longo de um período de 12 meses de acompanhamento”.

Na Itália, por último, os pesquisadores comparam o método Pilates CovaTech – uma derivada do original destinada à reabilitação – ao Back School sueco, um programa educacional e de aquisição de habilidades e exercícios inventado em 1969 para facilitar a recuperação da dor lombar. Um grupo de 43 participantes foi dividido em dois: 21 e 22, respectivamente.

A conclusão foi a de que ambos os métodos se equivaliam. Apenas o método Pilates ganhou maior adesão por causa dos praticantes se declararem mais satisfeitos com a melhora dos sintomas e o tratamento em geral.

Maravilha, então?

Nem pensar. Esses estudos específicos apontam que o Pilates é mais eficaz do que o quê? Do que o tratamento convencional dedicado a lombalgia crônica não resolvida, o qual, sabe-se, não brilha pela sua eficácia terapêutica. A eficácia do Back School, por sua vez, tem sido auferida repetidamente, sempre apresentando resultados discretos.

“Se sua coluna está rígida aos 30 anos, você é velho; se é flexível aos 60 anos, você é jovem.”

Joseph Pilates
Três revisões de trabalhos de pesquisa sobre o Pilates vis-a-vis lombalgia, publicadas quase simultaneamente no exterior (2014-2016), trazem à tona uma perspectiva mais realista.

A primeira dessas revisões se concentrou em 10 estudos controlados sobre Pilates e seus efeitos na lombalgia não específica (aguda, subaguda ou crônica), extraídos de bancos de dados ligados à saúde e o esporte (ex.: CENTRAL, MEDLINE, EMBASE, CINAHL e SPORTDiscus), com 510 participantes no total. De cara, a qualidade da evidência científica apresentada foi baixa ou moderada. Constatou-se, apenas, que “…no curto prazo, o Pilates é mais efetivo que uma intervenção mínima para dor e incapacidade. Na comparação com outros exercícios para melhora da função, o método mostrou ter um pequeno efeito sobre isso no médio prazo.”

Outra revisão muito parecida foi efetivada na mesma época, na Cochrane Central Register of Controlled Trials, MEDLINE, EMBASE, CINAHL, AMED, PsycINFO, Rehadat, Rehab Trials. Ela abrangeu 4 estudos, chegando em achados e conclusões semelhantes aos da revisão anterior.

Por fim, uma terceira revisão examinou 14 trabalhos, todos randomizados e controlados. Os resultados foram algo mais otimistas que nas duas revisões anteriores – embora nada que justifique sair por aí soltando rojões. No curto prazo o método Pilates diminui a dor e aumenta a habilidade funcional, mais que os cuidados convencionais e a atividade física. Porém, ele não supera os efeitos da terapia manual e outras formas de exercício (ex.: Método Alexander).

É a própria mente que molda o corpo.”

Joseph Pilates

Recapitulando:

A popularidade do método Pilates é merecida. Ele pertence, junto com a ioga, o taichi e o Qigong, a uma família de exercícios mente-corpo, ou seja, capazes de agir sobre os aspectos físicos e psicológicos da dor crônica.

Não obstante, julgando pelos estudos mencionados, a sua contribuição ao alivio da lombalgia é discreta ou nenhuma – particularmente no médio e longo prazo, quer seja em termos absolutos ou comparando com outros exercícios convencionais ou do tipo mente-corpo. Assim sendo, como conclui um dos relatórios:

“A decisão para se usar o Pilates para lombalgia (somente) pode ser baseada nas preferências dos pacientes ou dos profissionais da saúde e nos custos.”

Pode ser, mas eu não seria tão definitivo. Por três motivos:

  • Pesquisar o tema “Método Pilates”, pelo visto, ou não apresenta interesse científico, ou há enorme dificuldade para conseguir número suficiente de voluntários, ou ambas as coisas… o fato é que a qualidade das evidências e a representatividade dos resultados deixa a desejar. Não é possível afirmar muita coisa, para bem ou para mal do método, nessas condições.
  • Depois, esses estudos se concentram no eventual poder terapêutico do método, ou seja, no que ele aporta depois que o sujeito já está com dor lombar – ou seja, quando os movimentos já estão comprometidos. A sua serventia, suspeito, é muito maior antes da tal dor aparecer, em caráter preventivo. Afinal, ele inquestionavelmente fortalece os músculos que dão sustentação à coluna.
  • E por fim, lembremos que a dor lombar, quando crônica, gera inatividade, desuso e incapacidade, o que por sua vez angustia e deprime. Um bom professor de Pilates pode enfraquecer esse processo habilitando o aluno com dor a realizar alguns exercícios de baixo risco (de causar dor e/ou de machucar). A sensação de autoeficácia assim obtida não deixa de ter valor terapêutico.

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