O modelo biopsicossocial da medicina numa vida sem tempo

O modelo biopsicossocial da medicina numa vida sem tempo
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Ganha uma viagem a Kabul (ida somente) quem me indicar o médico que for contrário à ideia da medicina adotar um modelo biopsicossocial (invés do modelo biomédico convencional). Todos são a favor. Então, a pergunta que não quer calar é: por que não o praticam?

“Acreditamos que a rejeição do modelo biopsicossocial da medicina pela prática clínica é uma doença biológica, que se manifesta com complexas interligações entre pensamentos, humor, emoções e sintomas físicos adversos.”

– O blog parafraseando o Dr Theo Anbu ao se referir à Síndrome da Fadiga Crônica.

Quando foi a última vez que o seu dentista lhe perguntou pela sua satisfação no trabalho? Ou seu ortopedista sobre o que você faz nos seus momentos livres? Ou ainda se você os tem?….momentos livres, me refiro. E o gastro? Quando você falou de suas cólicas, ele inquiriu sobre o andar de seu casamento?

Perguntas como essas podem parecer fora de lugar, ou até inconvenientes, para quem está acostumado com a consulta médica convencional. Mas elas integram um modelo da medicina que foi rotulado de “novo”, pelo seu criador, há mais de meio século, e que atualmente continua sendo. Ou seja, novo. Novo de não-usado, ou de não-praticado, se preferir.

A verdade é que, no Brasil e noutros países até mais desenvolvidos, a maioria dos profissionais de saúde, incluindo os executivos dos hospitais, desconhece (a abordagem biopsicossocial no atendimento médico diário), agentes públicos e planos de saúde o ignoram, e o público nem imagina o que é… nem muito menos o quanto isso o está prejudicando.

A proposta biopsicossocial foi feita originalmente por Robert Engel, um respeitado professor de psiquiatria na University of Rochester (EUA), por via de uma Aula Magna proferida nas melhores universidades americanas e britânicas e depois publicada na prestigiosa revista científica Science. A intenção de Engel era a de denunciar a tentativa da psiquiatria – já prevendo o seu declínio, o que efetivamente aconteceu duas décadas depois com o advento do Prozac & Cia – de sobreviver copiando os protocolos do modelo biomédico convencional. Por que copiar o que está falido? foi basicamente o questionamento de Engel. E como não podia deixar de ser, ele dedicou a maior parte da sua exposição a provar isto com precisão cirúrgica.

Na minha opinião, ao propor o advento de um novo modelo para a prática da pesquisa e clínica da medicina, Engel produziu uma peça literária histórica. De passagem, ele demoliu o modelo biomédico que todos conhecemos – “Consulta a um médico especialista, anamnese, pedido de exames de laboratório, uma receita de fármacos, e ‘Até a próxima, não se esqueça de fazer exercício e comer saudável, viu!’”.

“Os médicos preferem tratar doenças físicas, pois se sentem inseguros ao cuidar de pacientes com sintomas emocionais. Sua resposta usual é prescrever medicamentos e esperar que o paciente se sinta melhor. Mesmo na área da psiquiatria há um grande grupo de médicos que preferem tratar seus pacientes principalmente com drogas. A maioria dos médicos não se sente à vontade com condições médicas psicológicas.”

Dr. John Sarno. Mind Over Back Pain

Aquilo não resolve, Engel escreveu em 1977, haja visto o fracasso em se aliviar a dor crônica, aquela que não apresenta falha estrutural aparente. É essencial pensar e tratar o paciente como um todo, e bla, bla, bla… você já ouviu falar nisso cem vezes e, no entanto… “Quando foi a última vez que o seu dentista lhe perguntou pela sua satisfação no trabalho? Ou seu ortopedista sobre o que…”.

Faz um ano que o blog postou a Aula Magna de Engel.

Desde então, eu tenho recomendado a sua leitura a todos os profissionais da saúde que encontrei pela frente. E não foram poucos.

“Olha, todo e qualquer aspirante a médico, fisioterapeuta, osteopata… deveria ler essa dúzia de páginas no seu primeiro dia de faculdade… Agora, você, que já tem vários anos de prática, não acha que conviria também…? ” e por aí vai, que nem Moisés pregando aqueles Dez. Com o mesmo entusiasmo, mesmo sabendo que alguns deles – aquilo sobre “a esposa do vizinho” ou “santificar o Sábado” – tinham chance zero de dar certo.

Mesmo assim, o Moisés se saiu bem melhor do que eu. Na pregação, quero dizer. Bem melhor. Durante o ano que a peça antológica de Engel ficou exposta para leitura no blog, não recebi nenhum comentário, opinião, crítica etc., a respeito. Nenhunzinho. Eu teria ficado feliz se ao menos uma mensagem de ódio, hoje tão comum “nas redes”, me tivesse sido enviada.

Nada. Muito provavelmente ninguém leu. “Pacientes esperando…”, “Estou saindo para um congresso…”, “Ora, o representante da Pfizer já chegou…”, “…e esse artigo sobre inibição da proliferação dos lincócitos B durante a resposta imune, que eu ainda não li?” Não há tempo, claro. Para nada. Nem sequer para refletir sobre a profissão que a gente escolheu para viver uma vida que valha a pena de ser vivida.

Mas eu sou cabeça dura. Engel e a palestra em que pela primeira vez o modelo psicossocial da medicina veio à tona, esse do qual todo mundo gosta e quase ninguém pratica, ficam no blog até o dia da sua extinção. Até lá, quem sabe, alguém do mundo da saúde por acaso se depara com ele, bate os olhos e, enfim, lê.

A seguir, um trecho da palestra em que Engel discorre sobre o seu modelo e o papel do médico nele.


Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

AS VANTAGENS DE UM MODELO BIOPSICOSSOCIAL

Para fornecer uma base para entender os determinantes da doença e chegar a tratamentos e padrões racionais de cuidados de saúde, um modelo médico deve também levar em consideração o paciente, o contexto social em que ele vive e o sistema complementar desenvolvido pela sociedade para lidar com os efeitos perturbadores da doença, isto é, o papel do médico e o Sistema de Atendimento a Saúde.  Isso requer um modelo biopsicossocial. Seu escopo é determinado pela função histórica do médico para determinar se a pessoa que solicita ajuda está “doente” ou “bem”; e se doente, por que doente e de que maneira doente; e então desenvolver um programa racional para tratar a doença e restaurar e manter a saúde. As fronteiras entre saúde e doença, entre bem e doente, estão longe de serem claras e nunca ficarão claras, pois são embaçadas por considerações culturais, sociais e psicológicas. A visão biomédica tradicional, de que os índices biológicos são os critérios finais que definem a doença, leva ao presente paradoxo em que algumas pessoas com resultados laboratoriais positivos são informadas de que precisam de tratamento quando na verdade estão se sentindo muito bem, enquanto à outras que estão doentes lhe é dada certeza de que estão bem, ou seja, que não têm “doença”. Um modelo biopsicossocial que inclui o paciente tanto quanto a doença abrangeria ambas as circunstâncias.

A tarefa do médico é dar conta da disforia e da disfunção que levam indivíduos a procurar ajuda médica, adotar o papel de doente e aceitar o status de paciente. Ele deve ponderar as contribuições relativas dos fatores psicológicos e biológicos implicados na disforia e disfunção do paciente, bem como na sua decisão de aceitar ou não aceitar o “estado-de-ser-paciente” (patienthood) e com isso a responsabilidade de cooperar em cuidar da propria saúde. Avaliando todos os fatores que contribuem para a doença e para “o estado-de-ser-paciente”, em vez de priorizar unicamente os fatores biológicos, um modelo biopsicossocial tornaria possível explicar porque alguns indivíduos experimentam condições de “doença” que outros consideram meramente “problemas de vida”, sejam elas reações emocionais às circunstâncias da vida ou sintomas somáticos. Porque do ponto de vista do indivíduo, a decisão entre se ter um “problema de vida” ou estar “doente” tem a ver basicamente com ele aceitar ou não o seu papel de “doente” e buscar ingresso no sistema de saúde, não com o que, de fato, é responsável por sua angústia. De fato, algumas pessoas negam a realidade indesejável da doença, descartando como “um problema de vida” sintomas que na realidade podem ser indicativos de um processo orgânico sério. É responsabilidade do médico, e não do paciente, estabelecer a natureza do problema e decidir se ele deve ou não ser tratado em um contexto médico.

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