O papa Francisco e a ciática herética

O papa Francisco e a ciática herética

Hipócrates deixou tratar do sofrimento que a dor provoca de fora do seu famoso juramento. Isso foi uns 4 séculos antes de Cristo e acabou complicando bastante a vida de muita gente desde então. Tanto assim que até o Papa Francisco foi chamado a dar um basta nisso.

“É difícil fazer um homem entender algo, quando o seu emprego depende de não entendê-lo.”

Upton Sinclair, ganhador do Prêmio Pulitzer.
Sim, o Papa Francisco padece de dor nas costas. E a dor é tanta que ele recebe injeções para exorcizar seu nada piedoso nervo ciático.

Talvez fosse por isso que, em 2016, um grupo de médicos italianos lhe fez solene entrega de um manifesto da classe. Ou, quem sabe, tenha sido por ser o Papa um colega, profissional da saúde – afinal, a alma não adoece também? – e portanto, supostamente focado no alívio da dor. Vai saber.

O fato é que o tal manifesto foi entregue em mãos. E deve ter viralizado porque logo depois foi apresentado numa sessão das Nações Unidas.

Ah, ia me esquecendo: o manifesto aquele era sobre… DOR. Isso mesmo, dor.

L’IMPEGNO CONTRO IL DOLORE. IL MANIFESTO DEI MEDICI ITALIANI.

As atrocidades a cargo de padres pedófilos confirmadas em trinta países, contudo, monopolizaram os holofotes e o ato passou inadvertido.

No Brasil, ao menos, nenhum Conselho Regional de Medicina se pronunciou. Nem em contra, nem a favor. Talvez fosse porque por ali pensam que os médicos, por definição, estão por dentro do conhecimento da dor e da prática visando o seu alívio. Então seria chover no molhado.

Seria, mas eu já penso que não estão. A experiência da dor sequer é ensinada nas faculdades de medicina, ou de fisioterapia, ou de psicologia… como poderiam estar? Convenhamos, na vida real, 90% do foco dos que cuidam da saúde – talvez com a exceção dos(as) enfermeiros(as) – mira a doença, e não o sofrimento.

Os fatos não cessam de existir somente porque são ignorados.

Aldous Huxley, filósofo e escritor
Mas voltemos a Francisco e ao Manifesto. Foi esta uma forma dos médicos italianos se queixarem de Hipócrates ter se omitido nessa dimensão crucial na vida do ser humano e na profissão deles. (De fato, Hipócrates, impôs aos seus alunos jurar “…por Apolo e Asclepio, Higía e Panacea e (pondo) por testemunho todos os deuses e deusas… exercer a profissão com inocência e pureza, sem cometer voluntariamente faltas injuriosas ou ações corruptoras e evitar sobretudo a sedução de mulheres ou homens, livres ou escravos…”. E por aí vai, mas ele deixou o alívio da dor de fora.)

O Manifesto é o seguinte:

O Decálogo

  1. Eu sou um médico e respeito o Juramento de Hipócrates
  2. Eu tenho que tratar a dor
  3. Eu devo cuidar do sofrimento que vem da dor
  4. Eu tenho que trabalhar para o bem-estar da pessoa
  5. Eu tenho que considerar essencial a qualidade do atendimento
  6. Eu tenho que me comprometer a garantir que o acesso ao atendimento de todas as pessoas seja garantido, onde quer que eles nasçam e morem
  7. Eu tenho que evitar as desigualdades e tratar todas as pessoas, independentemente da idade, sexo, etnia e religião
  8. Eu tenho que basear as decisões de tratamento no respeito da vontade da pessoa e na defesa da dignidade humana
  9. Eu tenho que compartilhar e promover o conhecimento sobre o cuidado da dor
  10. Este é o meu compromisso em melhorar a qualidade de vida das pessoas com dor.

Se algum médico porventura ler estas mal traçadas, espero que não fique ofendido. Espero, mas não temo. Eu sou um paciente e é o que eu tenho visto e continuo vendo: nos últimos cinquenta anos a ciência médica tem feito progressos portentosos, mas não no alívio do sofrimento, uma responsabilidade hoje tacitamente “subdelegada” à enfermagem e aos laboratórios farmacêuticos. O melhor que esse médico pode fazer, então, é ler o Manifesto e refletir sobre ele no contexto de sua prática. E se doer, depois repassá-lo a todos seus colegas e colar uma cópia logo na entrada do seu consultório. Os pacientes, ao menos, vão agradecer.

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