O psicólogo da dor

O psicólogo da dor

Hoje tem especialistas para tudo. Até no negócio da dor. Veja as razões do psicólogo para pleitear aqui o seu lugar ao sol.

“A dor é inevitável; o sofrimento é opcional.”

Anônimo
Num congresso interdisciplinar de dor acontecido recentemente, uma das sessões chamou a minha atenção: “Quando encaminhar o doente com dor crônica para um especialista em saúde mental?”

Que especialista seria esse? “Especialista em saúde mental” é o mesmo que “especialista em dor”? E qual a formação dele? Medicina, psiquiatria, psicologia? Ou seria essa uma especialidade dentro de qualquer uma dessas disciplinas?

Como essas questões permanecem sem resposta, passei a questionar se a intervenção desses profissionais seria mesmo necessária, para início de conversa. No caso de pacientes com dor crônica, mais precisamente. (Afinal, a dor aguda passa rápido, e talvez por isso, gera frustração, mas não desordens mais “pesadas” como ansiedade, abandono e depressão, característicos da dor crônica.)

DOR É UMA COISA, SOFRIMENTO, OUTRA. O SOFRIMENTO RESULTA DE RESPOSTAS MENTAIS E EMOCIONAIS À DOR.

Vejamos, a International Association for the Study of Pain define a dor como uma experiência sensorial e emocional. (Isso de “emocional” é relativamente recente: 1968, ano da publicação do paper de Ronald Melzack e Patrick Wall1, apresentando a Teoria do Portão do Controle da Dor, a primeira em reconhecer as nuanças psicológicas da dor.) A psicologia, então, aparece na própria definição oficial de dor. O que, convenhamos, é ó óbvio do óbvio. Independentemente de onde você sente a dor, ela é produzido no cérebro, o local onde costumamos pensar e sentir. E hoje é sabido que pensar catastroficamente – “Vai acontecer o pior”, “Eu nada posso fazer”… – prediz a intensidade da dor, a necessidade de usar medicação tarja preta, o tempo de recuperação pós-operatória e, claro, as chances de se recuperar bem. Ou seja, se você pensou fatal, a sua dor vai piorar. Psicólogos ajudam a evitar isso (via Terapia Cognitiva Comportamental, por citar uma das opções).

E tem mais, ainda neurologicamente falando, sair da dor requer aprender sobre dor. Para que? Para regular melhor os pensamentos e emoções que colaboraram com a dor, em primeiro lugar. Ajudar o doente a modular sua dor e/ou seus efeitos através dessa regulagem, é tarefa para psicólogo, também.

Mas talvez a maior alavancagem para um profissional como esse no campo do gerenciamento da dor seja o fracasso da medicina convencional no que se refere a prevenir ou reabilitar dores crônicas. Em países que possuem estatísticas confiáveis, como EUA, Reino Unido, Suécia e Austrália, entre 30 e 40% da população convive com elas. E elas custam à sociedade mais do que doenças cardíacas, diabetes e câncer – juntas.A esse passo, apenas nos Estados Unidos, em menos de 10 anos a conta crava US$ 1 trilhão. (Incluindo incapacidade e improdutividade no trabalho, hoje está em $635 bilhões. Faça as contas.)

SAIR DA DOR REQUER
APRENDER SOBRE DOR

Por outro lado, a dor crônica nas costas atualmente está aos poucos sendo vista como uma doença do sistema nervoso, e não da espinha dorsal, como o foi durante décadas. Isso faz uma enorme diferença quanto a natureza e a condução profissional do tratamento: o melhor tratamento há de ser o menos invasivo, e neurocientistas e psicólogos especializados em dor passam a ser mais procurados que os cirurgiões.

“A dor crônica persiste porque até hoje os tratamentos têm sido inadequados. A dor responde significativamente à psicologia e ao modo de pensar (mindset) de cada pessoa, e isso apresenta uma oportunidade.”

Beth Darnall, PhD, Professora na Stanford University. Autora do best seller Less Pain, Fewer Pills.2
Uma oportunidade? Pode ser – em países desenvolvidos e olha lá. O gerenciamento da dor, e muito menos a psicologia subjacente, são tenuemente ensinados em pouquíssimas universidades do mundo ocidental (do oriental não saberia dizer). Especialistas em psicologia da dor de fato existem, mas são escassos e precisam ter doutorado em psicologia clínica e pós-doutorado em dor crônica. Em geral eles trabalham parcialmente em clínicas de dor, hospitais ou clínicas de reabilitação, integrando equipes multidisciplinares.3

Isso, repito, em países como EUA, Austrália etc. Noutras latitudes menos abençoadas, a situação é bem distinta. Na América do Sul, por exemplo,descobrir uma clínica de dor – uma clínica de dor de verdade, note-se – é um achado.

Nota do blog. Apenas para satisfazer a curiosidade mórbida de alguns: nos Estados Unidos o salário médio de um Psicólogo da Dor é pouco menos de US$ 100 mil/ano, ou 58% maior que a média salarial de vagas abertas no país, ou a metade da média salarial de um psiquiatra.4

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1 comentário
  1. Tudo que está escrito neste blog, expressa o meu dia a dia com DOR AGUDA CRONICA.
    DIZER, “EU TENHO DOR CRÔNICA”, É OFENDER O PRÓXIMO, BULLYING.😶

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