O que pais e educadores devem saber antes da volta às aulas – Parte 1

O que pais e educadores devem saber antes da volta às aulas – Parte 1
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Os pais estão atualmente avaliando os riscos de enviar seus filhos para a escola contra as perdas educacionais e psicológicas de mantê-los em casa. Os educadores estão avaliando os riscos de recebê-los nas escolas e faculdades. Este é o primeiro de uma série de quatro posts destinados a ajudar pais e filhos nesse exercício.

“Quanto a enviar filhos ou filhas à escola, uma coisa é certa: risco zero não existe.”

As crianças são ‘infectáveis’ pelo novo coronavírus?

No Brasil, as chamadas “crianças” para fins estatísticos – 1 a 19 anos – representam um quinto da população, ou 42 milhões.1 Boa parte delas deverá proximamente “voltar às aulas”, o que, à primeira vista, traz no bojo um formidável potencial de transmissão viral no país.

Como era de se esperar, a operação é delicada e cada estado e prefeitura está se virando em quatro para levá-la adiante. Em São Paulo, com 13,3 milhões de bípedes envolvidos – 1 milhão de educadores no meio – um “cronograma válido para escolas públicas e privadas, do ensino infantil ao superior, está atrelado à permanência de todas as regiões na fase amarela do Plano SP.”2

Lembremos que o Plano SP regula a flexibilização da quarentena no estado.3

Um amigo meu particularmente cínico me disse que achava isso ótimo. Seguramente, eu aventei, porque isso simbolizava o fim do sufoco pandêmico. Ele negou, porém.

Simples, ele esclareceu: “Eu não tenho filhos em idade escolar ou universitária. Porque se tivesse, você acha que eu ia arriscar a vida deles numa fase amarela?”

Simples, realmente. Porque após a fase amarela seguem mais duas fases, lembra disso? A fase verde, que é quando parte do comércio e serviços são liberados à meia máquina (60%) e ainda estão proibidos eventos que gerem aglomerações. E a fase azul, em que a economia é retomada dentro de um certo “novo normal”, sabe Deus o que isso significa.

Ou seja, a fase verde está ainda a meio caminho da normalidade. E eu não sei você, mas eu não conheço ninguém disposto a colocar a saúde de um filho no meio de nada.

Além disso, todo pai no Brasil tem hoje o direito de ficar com a pulga atrás da orelha diante de qualquer diretriz oficial relativa a temas como “a quarentena começa em…” ou “a quarentena termina em…”. Com base no histórico da pandemia, existe o perigo de que decisões do tipo sejam tomadas e anunciadas com base em critérios políticos, e costumeiramente em contraponto à opinião de cientistas, educadores e profissionais da saúde. A ameaça foi recentemente amenizada dando aos pais “o direito de optar por não mandar os filhos para a escola durante a pandemia, mesmo com o retorno autorizado pelo estado”, como ocorrido nos estados de São Paulo, Paraná, Amazonas… e nas prefeituras de Itanhaém, Guarulhos, Mogi das Cruzes etc.

Mas uma coisa é ter poder de decisão e outra, poder decidir corretamente. Isso depende de se contar com boa informação, a qual para pais e educadores está em falta.

  • As crianças são “infectáveis” pelo novo coronavírus?
  • Qual a propensão das crianças a desenvolver os sintomas da Covid-19 e com que gravidade?
  • Com que eficiência as crianças podem transmitir o vírus a outros?
  • Pode-se confiar no que se sabe sobre as crianças e a Covid-19 face a volta às aulas?

Se você tiver filho(a)s em idade escolar – não digo em idade universitária porque nessa faixa o pessoal é pouco chegado a escutar adultos – e souber responder claramente qualquer uma dessas 4 questões, é uma mosca branca, pode acreditar. Os estudos pipocam aqui e acolá, amiúde vertendo resultados controversos.

Eu pesquisei tudo o já seriamente publicado sobre elas em diversos países – da China a Islândia, do Japão ao Canadá… e constatei que, de fato, pouco se sabe ao certo sobre as crianças e os perigos da contaminação na escola – até porque nos últimos 5 meses as escolas permaneceram fechadas. Mas que, por outro lado, há alguns consensos que pais e educadores precisam conhecer para formar uma opinião sobre se aceitar ou não o retorno às aulas presenciais dos seus filhos.

Numa série de quatro posts eu vou comentar os quatro temas anteriores, começando por:

Até que ponto as crianças são “infectáveis” pelo novo coronavírus?

Em um estudo publicado na semana passada na revista Science, uma equipe analisou dados de duas cidades da China – Wuhan e Xangai – e descobriu que as crianças de 0 a 14 anos eram cerca de um terço menos suscetíveis à infecção por coronavírus do que os adultos de 15 a 64 anos.4

Na Coréia do Sul, em março 2020, crianças menores de nove anos representaram apenas 1% dos casos confirmados em laboratório de Covid-19, enquanto crianças entre 10 e 19 anos, 5,2% dos casos.5

Na Islândia, as crianças pequenas eram menos propensas a testar positivo para SARS-CoV-2 do que adolescentes ou adultos, e nenhum caso foi encontrado em crianças com menos de dez anos de idade na triagem populacional aleatória.6

Da mesma forma, não foram encontrados casos entre 374 crianças com menos de dez anos de idade testadas quanto a vírus na cidade italiana de Vo, onde 2,4% das pessoas de todas as idades foram infectadas.7

Alguns estudos de rastreamento de contatos apontaram que as crianças raramente eram a primeira pessoa a desenvolver sintomas de Covid-19 em uma casa (conhecida como “caso-índice).8 Estudos que rastrearam os contatos de pessoas infectadas nas cidades chinesas de Guangzhou9, Wuhan e Xangai10, e no Japão11, também sugerem que as crianças são menos propensas que os adultos a testarem positivo para o vírus após a exposição a um infectado. Menos de 1% dos casos relatados na China ocorreram em crianças menores de 10 anos.12 Apenas um único estudo feito em Shenzhen, China, mostrou que elas eram igualmente suscetíveis à infecção que os adultos.13

De acordo com um relatório preliminar sobre a primeira onda de casos de Covid-19 publicado pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, 2.572 dos quase 150.000 casos (ou 1,7%) confirmados de coronavírus relatados nesse país entre 12 de fevereiro e 2 de abril eram pacientes com menos de 18 anos. Sua idade média era 11 anos.14

A Covid-19 foi confirmada em crianças e jovens de todas as idades, de acordo com o Royal College of Pediatrics and Health Child (RCPCH). Em 18 de maio, 2.330 (1,6%) dos 144.127 casos confirmados de Covid-19 na Inglaterra estavam entre menores de 20 anos. Desses, 1.028 (0,7%) eram menores de 10 anos. Níveis muito superiores de infecções confirmadas em crianças em comparação com adultos também foram observados em outros países. Nos Estados Unidos, dados recentes mostram que as crianças representam pouco mais de 7% de todos os casos confirmados de COVID-19. Provavelmente isso é subestimado, todavia, já que as crianças são muito menos testadas que os adultos.15

As evidências apresentadas nesse post sugerem que:

  • As crianças podem ser contaminadas pelo novo coronavírus e contrair a Covid-19, porém a taxa de infecção e a gravidade da doença são significativamente menores do que nos adultos

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