Ora menina, está tudo na sua cabeça

Ora menina, está tudo na sua cabeça

Em se tratando de sofrimento por causa de dor, a mulher tem muito a reclamar. E não é só por causa da Natureza, não.

“Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente”

William Shakespeare
Lisa Benshabat foi repetidamente informada pelos seus médicos que as coisas – suas dores – estavam “em sua cabeça”. Então ela tirou sua vida.1

Não é novela, mas uma realidade canadense. O ocorrido à Lisa, porém, não é incomum, mesmo em países avançados. E deve acontecer também em qualquer país da América do Sul. Ou você se atreveria a afirmar o contrário?

É fato que a maioria dos diagnósticos relativos a quadros clínicos de dor numa primeira consulta são, digamos, pouco claros. No caso das muitas mulheres que sofrem de dor crônica seus sintomas costumam ser descartados como psicossomáticos, apesar de estudos e testes posteriores confirmarem o contrário. De acordo com um relatório do Journal of Law, Medicine and Ethics em 2001, “as mulheres que procuram ajuda têm menos probabilidade de serem levadas a sério quando relatam dor e são menos propensas a ter sua dor tratada adequadamente”, concluem os pesquisadores. Esses achados têm se repetido em revistas médicas durante vários anos desde então.

Dez anos antes, um artigo acadêmico denunciava o mesmo. As mulheres não recebiam tratamento agressivo ou proativo nas suas consultas médicas “…até provarem que estavam tão doentes quanto pacientes médicos poderiam estar”.  Os homens, o mesmo artigo afirmava, também eram muito mais levados a sério do que as mulheres em se tratando de queixas cardiovasculares.2

Um paciente pode ter 90% de dor emocional e 10% de dor física, e o seu sofrimento é exatamente o mesmo de quem tem 90% de dor física e 10% de dor emocional.

Dr. João Marcos Rizzo, se referindo a pacientes com câncer
Um estudo recente também revelou que os médicos tinham 22 vezes mais probabilidade de recomendar a cirurgia do joelho como tratamento de artrite para homens do que para mulheres, embora o procedimento seja considerado uma forma definitiva de tratar a artrite quando outras terapias falharam.3

E ainda hoje, ao menos nos Estados Unidos, as mulheres com dor são muito mais propensas do que os homens a receber prescrições de sedativos, em vez de analgésicos, por causa de suas doenças. Um estudo mostrou que as mulheres que receberam cirurgia de revascularização do miocárdio têm apenas metade da probabilidade de lhes serem prescritos analgésicos, em comparação com os homens submetidos ao mesmo procedimento. E como isso fosse pouco, num Pronto Socorro americano uma mulher espera mais por um analgésico para dor abdominal aguda (65 min.), que um homem (49 min.). (E se a você a diferença de 16 minutos lhe parecer irrelevante é porque não é mulher e nem sofre do estômago.)4

E logo na Suécia!, em 2014, Katarina Hamberg, pesquisadora na Umea University, apresentou uma longa lista de doenças crônicas em que as mulheres tinham menos chances de receber intervenções de diagnóstico e terapêuticas mais avançadas: doenças coronárias, Mal de Parkinson, cólon irritável, dor cervical, artrite no joelho, e tuberculose. E isso, mesmo quando seus sintomas apresentam a mesma severidade que os dos homens.5

Enfim, um paper publicado em 2011 pelo Institute of Medicine – uma divisão da National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine (EUA) arremata: os relatos de mulheres sobre suas dores crônicas têm alta probabilidade de serem desestimados pelos médicos.  Estes(as) não levam as queixas de dor das mulheres tão seriamente quanto as dos homens, e tampouco prescrevem terapias agressivas que possam aliviar essa dor. E isso, segundo os autores do paper, intitulado “Relieving Pain in America”, apesar de as mulheres sofrerem de dor mais que os homens.6

Em suma, evidências atuais indicam que mulheres experimentam e reportam mais dor que os homens, porém não recebem tratamento tão oportuno e eficaz quanto o destinado a eles pelos mesmos sintomas.7

Lisa Benshabat morreu em 9 de fevereiro de 2016. Ela tinha 24 anos e há muito tempo sofria de uma dor pélvica angustiante. Consultara mais de dez especialistas e a maioria deles disse que a sua dor “está toda na sua cabeça”. A dor pélvica de Lisa, porém, era real. Isso, e uma comunidade médica que não respondia às suas necessidades, levaram-na à escolha definitiva.

Nota do autor: as fontes citadas são todas estrangeiras. Eu não descobri nenhuma nacional que fosse relevante, e não foi por falta de atenção ou de esforço. Conclusão: ou o problema levantado por aqui não existe, ou ninguém até hoje o pesquisou. O que você acha?

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1 comentário
  1. Acho que falta mais pesquisa e estudo sobre o assunto. A síndrome do pânico é tão negligenciada quanto a dor crônica, falam que é mimi, coisa da cabeça, e até chegar num psiquiatra você já rodou e gastou muito, e para piorar os exames cardiovasculares e neurológicos resultam sem nenhuma anomalia, no entanto, o que se sente é sensação de pura morte, pura dor.

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