Quão boa tem que ser uma vacina para parar a pandemia?

Quão boa tem que ser uma vacina para parar a pandemia?
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Quando uma vacina será suficiente para interromper a atual pandemia? Este post, baseado num estudo publicado em 15 de julho no American Journal of Preventive Medicine, mostra que, se bem o determinante principal é que vacina “funcione”, há outros fatores igualmente importantes, como a quantidade de pessoas vacinadas. Uma simulação de computador mostra os valores que essas variáveis devem adotar para suspender o isolamento social por completo.

“No final do dia, se conseguirmos uma vacina muito rápida, mas só pudermos dar a 10 pessoas, isso não vai nos ajudar. E se pudermos dar uma vacina a milhões de pessoas, mas isso levar 10 anos, essa também não é a solução certa.”

Linda Stuart, Bill Gates Foundation

O que é uma vacina “funcionar”?

No meio da euforia provocada pelo anúncio de que pelo menos 4 vacinas candidatas estão ingressando na Fase III, e as nações ricas já estão contratando milhões de doses por antecipado, convém lembrar duas coisas:

  • Primeira: importa a vacina estar disponível, mas importa também que ela “funcione”, no sentido de outorgar a proteção desejada.
  • Segunda: diferentes vacinas podem “funcionar” diferente; ou seja, oferecer diferentes níveis de proteção.

Aqui entram dois conceitos relativos ao desempenho de uma vacina:  eficácia e efetividade.

Se 100 pessoas passando pela rua que ainda não foram expostas ao vírus recebem uma vacina com eficácia de 80%, e delas 70% depois acabam realmente imunes, isso significa que a efetividade da vacina foi de 70%.

A diferença entre eficácia e efetividade é que a primeira se aplica quando a vacinação é administrada em circunstâncias controladas, como um ensaio clínico, e a segunda, em condições “reais”. Ou seja, uma nova vacina sai do laboratório com uma marca de eficácia atingida, porém, posteriormente a sua efetividade na vida real pode ser diferente. Aliás, é o que normalmente acontece, a eficácia de uma vacina tende a ser maior que sua efetividade.

Uma equipe de pesquisadores usou uma simulação em computador de todas as pessoas no país para mostrar que a efetividade de uma vacina contra o coronavírus pode ter que ser maior que 70% ou até 80% antes que os americanos possam parar com segurança de confiar no distanciamento social. Em comparação, a vacina contra o sarampo tem uma efetividade de 95% a 98% e a vacina contra a gripe é de 20% a 60%

O que é preciso para parar a pandemia?

Normalmente, em uma epidemia ou pandemia, à medida que mais pessoas são expostas ao vírus, o número de novas infecções por dia aumenta constantemente até atingir um pico e começar a cair. Obviamente, quanto tempo isso leva depende de como o vírus e a resposta a ele evoluem ao longo do tempo.

Para interromper de vez a pandemia, o número de novas infecções por dia precisa cair para zero, ou pelo menos para um número muito baixo, o mais rápido possível.

Se a pandemia de Covid-19 estivesse apenas começando e a população infectada estivesse próxima de 0%, as simulações mostram que a efetividade da vacina teria que ser de pelo menos 60% para interromper o coronavírus se toda a população fosse vacinada. Dado o número de pessoas suscetíveis que não seriam vacinadas por causa da idade ou problemas de saúde e outras que se recusariam a ser vacinadas, isto último provavelmente é impossível.

Se apenas 75% da população for vacinada, a efetividade da vacina deverá ser de cerca de 70%. 

Se apenas 60% das pessoas forem vacinadas, o limiar de efetividade ficará mais exigente, aumentando para cerca de 80%. 

Sempre conforme a simulação, somente nessas marcas o vírus não encontraria mais pessoas para infectar e a pandemia seria interrompida.

Atenção! A chamada taxa de reprodução do vírus (R0) também conta. Esses números, por exemplo, pressupõem que uma pessoa infectada com o vírus infecte 2,5 outras pessoas em média. Se o vírus for mais contagioso, a vacina precisa ser mais eficiente.

Quantas pessoas são vacinadas é crucial

Com base nesses achados, uma vacina com efetividade tão baixa quanto 60% ainda pode parar a pandemia e permitir que a sociedade volte ao normal. No entanto, note que nesse caso a maioria, senão toda a população, precisaria ser vacinada.

Com menos pessoas vacinadas, a efetividade da vacina deveria ser de pelo menos 80% para deter a pandemia sozinha, e só então o distanciamento social poderia ser completamente relaxado. Isso pode fornecer uma meta a ser alcançada ao desenvolver as vacinas contra o coronavírus COVID-19.

Em suma, uma vacina com pouca eficácia não é necessariamente inútil. Apenas nesse caso, o distanciamento social e o uso de máscaras devem continuar até a chegada de outra vacina que “funcionasse suficientemente bem”.

Nota do blog:
Este post usou trechos de um post de autoria do Prof. Bruce Y Lee, da City University of New York Graduate School of Public Health and Health Policy, junto com a National School of Tropical Medicine, Baylor College of MedicineHow effective does a COVID-19 coronavirus vaccine need to be to stop the pandemic?”.

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