Quarentena: solução, maldição ou tudo junto?

Quarentena: solução, maldição ou tudo junto?
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Uma revisão de 24 experiências com quarentenas nos últimos 20 anos, em 10 países, mostra que a capacidade de resposta hospitalar à pressão vinda do Covid-19 não é uma constante na equação, e sim uma variável sujeita ao desgaste do trabalho árduo e perigoso, primeiro, e de uma eventual quarentena depois. Com impacto previsível sobre a saúde mental. Veja um resumo nesse post e a revisão completa na seção Artigos do blog.

“E pensaram que a Angela Merkel estava doida de pedra quando há 10 dias disse que 70% dos alemães seriam infectados pelo Covid-19!”

Isolar-se socialmente não é “o natural” no ser humano. Natural é o oposto: socializar, trocar amenidades e ideias com outros, ver e ouvir gentes de todo tipo e em todo lugar. E quando isso é negado, a reação é quase a de um animal ferido. Quase, porque o tigre ou o gato lutam, fogem do encarceramento, ou lutam para consegui-lo. Por outro lado, ao sujeito civilizado só resta aguentar calado.

Ser obrigado a suportar em silêncio uma condição de vida desagradável, durante um tempo, não sai de graça para o organismo. Este se ressente, primeiro pelo lado da mente, e depois, da fisiologia. Se você bota em quarentena uma pessoa que padece de artrite reumatoide, é muito provável que ela saia da experiência mais estressada, ansiosa e depressiva e ainda por cima com mais dor do que quando começou.

Não, não sou contra a quarentena nas atuais circunstâncias. Se tem que ser – e é o caso a julgar pelo que os cientistas dizem – que seja. Mas convém antecipar os efeitos traumatizantes dessa medida inédita sobre indivíduos, grupos e coletivos maiores. De repente, a alguém lhe ocorre fazer em tempo alguma coisa para amenizá-los. (Uma atitude que, por sinal, não se perfila no horizonte pelo momento.)

E que efeitos psicológicos negativos seriam esses? Sintomas de estresse pós-traumático, confusão e raiva. É o que se depreende de uma revisão de 24 experiências con quarentena imposta a pessoas nos últimos anos, por conta dos surtos do SARS em 2003, a pandemia de influenza de 2009 e 2020, a MERS ou pandemia do Oriente Médio em 2012/2013, e o surto de EBOLA em 2014, quando vilas inteiras em muitos países da África Ocidental foram colocadas em quarentena.

Alguns dos achados do estudo em pauta, que acaba de ser publicado na The Lancet e já consta da seção de Artigos neste blog, são aplicáveis a situação do Brasil no presente, outros, nem tanto. Porém todos têm valor pedagógico. Pode-se aprender muito com eles, seja de cara ou refletindo.

Sobre preditores do impacto psicológico já na pré-quarentena, por exemplo. “Ter um histórico de doença psiquiátrica estaria associado a experimentar ansiedade e raiva 4-6 meses após a liberação da quarentena.”

Ou sobre os principais estressores durante a quarentena. Seus efeitos psicológicos negativos parecem começar após o décimo dia. A frustração causada pelo “… confinamento, a perda da rotina habitual e o contato social e físico reduzido com outras pessoas… é exacerbada por não poder participar de atividades diárias do dia-a-dia, como comprar itens básicos ou participar de atividades de redes sociais por telefone ou internet.” Privar uma comunidade do sinal de internet – o que ocorre habitualmente onde eu moro – pode provocar saqueios e incêndios em cidades “sensíveis” como Santiago de Chile, Fortaleza ou Mogadíscio. Falta de suprimentos básicos, também. A ansiedade e raiva relacionado a isso, o estudo comprovou, ainda persiste 4 ou 5 meses após. E por fim, as informações.

“Após a epidemia da SARS de Toronto (2002-2003), os participantes perceberam que a confusão decorria das diferenças de estilo, abordagem e conteúdo de várias mensagens de saúde pública devidas à falta de coordenação entre as várias jurisdições e níveis de governo envolvidos. A falta de clareza sobre os diferentes níveis de risco, em particular, levou os participantes a temerem o pior. Os participantes também relataram uma falta de transparência percebida por funcionários da saúde e do governo sobre a gravidade da pandemia.”

O estudo ainda dedica espaço aos estressores pós-quarentena, tais como o aperto financeiro e o estigma, particularmente entre os profissionais da saúde. Os participantes da quarentena em vários estudos relataram que posteriormente “…outros os estavam tratando de maneira diferente: evitando-os, retirando convites sociais, tratando-os com medo e suspeita e fazendo comentários críticos.”

Finalmente, um subtítulo no artigo merece destaque:

“Os profissionais de saúde merecem atenção especial”.

Em 29 de fevereiro passado, quando alguns próceres na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil menosprezavam a iminência e gravidade do Covid-19, na época já patente na China, 124 profissionais de saúde – incluindo pelo menos 36 enfermeiro(a)s – estavam em quarentena após possível exposição ao paciente com coronavírus admitido no University of California, Davis Medical Center.

“Apesar de as instalações médicas da Universidade da Califórnia estarem geralmente melhor preparadas e equipadas para tratar casos médicos desafiadores, o recente caso do UC Davis Medical Center COVID-19 destaca a vulnerabilidade dos hospitais da nação a esse vírus e a insuficiência das diretrizes atuais do Centers for Disease Control“, foi o que o sindicato dos enfermeiros comunicou à imprensa.

O episódio mostra que a capacidade de resposta hospitalar à pressão vinda do Covid-19 não é uma constante na equação, e sim uma variável sujeita ao desgaste do trabalho árduo e perigoso, primeiro, e de uma eventual quarentena depois. Com impacto previsível sobre a saúde mental.

“Os profissionais de saúde que estavam em quarentena apresentavam sintomas mais graves de estresse pós-traumático do que os membros do público em geral que estavam em quarentena… Os profissionais de saúde também sentiram maior estigmatização do que o público em geral, exibiram mais comportamentos de esquiva após a quarentena, relataram maior perda de renda e foram consistentemente mais afetados psicologicamente. Fora isso, eles reportaram substancialmente mais raiva, aborrecimento, medo, frustração, culpa, desamparo, isolamento, solidão, nervosismo, tristeza, preocupação e infelicidade. Também eram muito mais propensos a pensar que tinham SARS e a se preocupar em infectar outras pessoas.”

Enfim, leia o artigo agora. Seria uma pena se interessar por isso somente quando a quarentena tiver já cobrado seu preço em termos de saúde mental – a sua, e a dos que estão confinados consigo.

“Em todo o mundo, as pessoas estão em quarentena e são obrigadas a praticar o distanciamento social. Estamos tentando desesperadamente manter a sanidade em um mundo que parece quase insano. Portanto, é a hora certa de refletir, refletir, meditar e descobrir o mundo dentro de nossas próprias mentes.”

– Avijeet Das

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