Ruminando a dor em busca do nada

Ruminando a dor em busca do nada

Para alguns, ir da dor aguda à dor crônica pode ser apenas um passo. Ruminar sobre a dor é a melhor forma de apressá-lo. Veja como isso pode ser evitado.

Não esquente a cabeça com coisa pequena. Tudo é coisa pequena.

Clarice Cochrane
Muita gente não para de sentir dor porque a dor não é de todo sensorial. Ela é também psicológica. É tão simples quanto isso.

No Jogo ALIVIO, que visa educar as pessoas no que é a dor e como controlá-la, o anterior tem um papel central. O jogador(a) aprende que a experiência da dor pode progredir de um leve incômodo a um estado de dor crônica severa, dependendo do que ele(a) faz para interromper esse seu trajeto. O que, por sinal, depende mais dele(a) do que de terapeutas e farmácias. Estudar sobre a dor, por exemplo, é algo que pode fazer sozinho(a). E quanto mais saiba sobre o tema “dor”, suas circunstâncias e consequências, melhores chances terá de escapar para uma recuperação.

O percurso perverso antes mencionado é visto em publicações de vários respeitados cientistas especializados em dor – Vlaeyen e Linton, especialmente, na sua teoria da Evitação do Medo, da qual já há evidências cientificas suficientes.

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Examine o desenho a partir da coluna central – Experiência da Dor. Siga o trajeto que se estende à esquerda.

Em síntese, se mal tratada, com o tempo a dor vai progressivamente provocando reações psicológicas que, por sua vez, prejudicam o organismo, o qual, claro, acaba provocando mais dor, e assim por diante. Até o paciente descambar para o imobilismo e a depressão, que é o pior de todos os mundos.

Uma das reações mais perversas é a ruminação.

Ruminar é como um disco que está preso e continua repetindo as mesmas letras.

Margarita Tartakovsky, M.S., PsychCentral
Não preciso me estender muito sobre o que é ruminar. Todos já passamos noites em branco obcecados com nosso futuro e/ou nos culpando por erros do passado, SEM RESOLVER ABSOLUTAMENTE NADA. O dicionário diz que ruminar é “pensar obsessivamente em uma ideia, situação ou escolha, especialmente quando interfere no funcionamento mental normal; especificamente: um foco da atenção em pensamentos ou sentimentos negativos ou angustiantes que, quando excessivos ou prolongados, podem levar ou agravar um episódio de depressão”. Ruminar é horrível e exaustivo, porém, quase que envergonhados com nós mesmos, nos esforçamos em achar que é inofensivo. Apenas uma noite perdida.

É mais do que isso. Não surpreendentemente, a ruminação evoca mais pensamentos negativos. Isso se torna um ciclo.

“Quando as pessoas ruminam enquanto estão deprimidas, elas se lembram de coisas mais negativas que aconteceram com elas no passado, interpretam situações em suas vidas atuais de forma mais negativa, e são mais desesperançadas em relação ao futuro.”

Susan Nolen-Hoeksema, Ph.D., Professor, Yale University.
Não é de se estranhar, então, que a ruminação esteja associada a uma variedade de consequências negativas, incluindo depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático, consumo excessivo de álcool e compulsão alimentar.

E a Teoria da Evitação do Medo, como ela entra aqui? Sugerindo que a ruminação é ainda pior do que todo o anterior, para quem tem dor crônica. O motivo? A ruminação atiça uma dor que já existe, que é persistente, e que já age sobre um mente-corpo fragilizado. Uma dor da qual, lembremos, o paciente quer se livrar de todo modo, e que, no entanto, acaba avivando… ruminando, ruminando, ruminando…

Não sei o que dizer ao caro leitor para ele(a) parar de ruminar. Se soubesse hoje estaria nas Bahamas desfrutando da praia e de uma conta bancária monumental. Sei, no entanto, que a ruminação é produto de um estado de ansiedade, a qual, por sua vez, resulta de emoções. Então, muito simploriamente, ocorre-me que convém começar identificando quais seriam estas e porque estão aí, na nossa consciência, nos perturbando tanto. (Ou da nossa inconsciência, se o caso for mais sério e para isso talvez precisemos de ajuda externa.)

Pesquisar as próprias emoções no intuito de diminuir a ruminação que provocam é muito mais complicado e incerto, no curto prazo, que passar pela farmácia atrás de Alprazolam.

Pode ser, mas cuidado: com o tempo assim pode-se arrumar mais um motivo para continuar a ruminar.

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