Terapia, cognição, comportamento... Essas coisas - Parte 1

Terapia, cognição, comportamento... Essas coisas - Parte 1

Conheça a terapia que dizem ser bem sucedida no alívio da dor crônica musculoesquelética. E de passagem aprenda a transformar lixo em Channel nº. 5.

“Eis a parte mais difícil da recuperação: perceber que não há mais ninguém para odiar”.

Keith Ablow, em Denial
Aquela palestra tocava, entre outras coisas, na necessidade do profissional da saúde cuidar de, com suas palavras e atitudes, não intimidar inadvertidamente o(a) paciente. Tudo muito tranquilo, a platéia dormitava aprazivelmente. De repente, porém, eu acordei escutando o seguinte: “E vocês sabem que todo doente crônico deve passar por psicoterapia!”.

Era a palestrante. Até hoje eu ignoro a razão de ela ter dito aquilo, mas lembro, sim, da platéia ondular que nem mar agitado.

Encerrada a fala, perguntei à dito cuja se eu tinha ouvido certo. Afinal, “Todo doente crônico” é muita gente. E psicoterapia lembra divã, histeria e pensamentos terríveis a respeito da mãe ou do pai. Não, não era isso, foi esclarecido. É que ela estava se referindo à Terapia Cognitiva Comportamental, e não a psicoterapia que o vulgo conhece… e teme. Essa, a Terapia Cognitiva Comportamental, teria, sim, abrangência universal.

Dor Crônica - O Blog das Dores CrônicasE, do jeito que as coisas estão, devo reconhecer que, embora por linhas tortas, ela tinha razão. A Terapia Cognitiva Comportamental – ou TCC doravante – hoje é mais popular que pomada anticelulite. Portanto, está sujeita ao mesmo manuseio comercial, e às merecidas desconfianças do respeitável.

Isso não é bom. Tirando o ruído e a sujeira, a TCC é um aporte valioso à saúde mental. Nesse post e em outros eu vou examinar o quanto isso é válido no caso de pacientes com dor crônica. Vou supor, no entanto, que o caro leitor está pouco familiarizado com o tema e assim irei tratar disso nesse primeiro post de uma série de três. No segundo vou repassar as diversas modalidades de TCC (individual, grupal, auto-gerenciamento e escrita). E no terceiro, as áreas da dor crônica em que há evidências da TCC ter contribuído com melhoras.

“Tudo o que nós ouvimos é uma opinião, não um fato. Tudo o que vemos é uma perspectiva, não a verdade.”

Marco Aurélio
Comecemos, então, pela definição de TCC.

“A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é uma forma de psicoterapia de curto prazo dirigida a questões da atualidade e baseada na ideia de que o modo como um indivíduo pensa e sente afeta a maneira como ele ou ela se comporta. O foco está na resolução de problemas, e o objetivo é mudar os padrões de pensamento dos clientes para mudar suas respostas a situações difíceis. Uma abordagem de TCC pode ser aplicada a uma ampla gama de problemas e condições de saúde mental.”1

O anterior serve bem para o leigo entender de que se trata o bailado. Do ponto de vista acadêmico, porém, está rigorosamente incorreto. Misturam-se nessa definição, abordagens diferentes à TCC, periodicamente vindos à tona desde seus primórdios, nos anos 50. É o que dá muita gente dando ideias e inventando derivadas do original no intuito de conquistar o de sempre, fama e dinheiro. A falta de um protocolo seminal, central, e o vasto campo de trabalho – pensamentos, crenças, comportamentos, sintomas… – facilita a disseminação de técnicas e sub-técnicas para tratar disso e daquilo – um único site especializado em psicologia abriga 61 tipos diferentes de TCC2!

Em síntese, a TCC visa influenciar positivamente pensamentos, comportamentos e sintomas supondo que estes carregam algum material tóxico capaz de provocar e perpetuar dor.

“Nós sentiremos dor quando a nossa evidência confiável de perigo relacionada ao nosso corpo for maior do que a nossa evidência confiável de segurança relacionada ao nosso corpo”

Moseley e Butler, em Protectomer3
Os pensamentos desadaptativos (maldaptive) estão relacionados a uma sensação constante de perigo. Moseley & Butler os batizaram como DIM´S, ou “Danger in Me”, personificados em crenças e posturas de vida negativas que só enfraquecem a esperança de se recuperar. Eles mantêm ou amplificam a dor já existente.

Comportamentos raivosos, por sua vez, podem instituir dor crônica ou serem provocados por essa condição. No primeiro caso, a raiva reprimida permanece em estado de latência no subconsciente – e para evitar que ela venha à tona, com consequências terríveis para o bem-estar do organismo, o cérebro gera e mantém a dor.4

No segundo caso, a raiva aparece após passar um dia batalhando contra a dor crônica, aquela que nunca dá trégua. É o pain rage, ou raiva da dor.

“Apresenta-se como um sentimento avassalador de raiva, dirigido ao alvo mais próximo possível. Todos ao meu redor se tornam o inimigo; estúpido, incompetente e incapaz de passar uma conversa sem me incomodar de alguma forma. Eu quero gritar e esmagar as coisas e agredir fisicamente qualquer um que ouse cruzar meu caminho.”

Sarah Turner5
VOCÊ PODE TER PERDIDO O CONTROLE DA SUA DOR, MAS NÃO A SUA CAPACIDADE DE RESPONDER A ELA.

E por fim, além dos pensamentos desadaptativos e dos comportamentos turbinados pela raiva, surgem ainda os sintomas de depressão e ansiedade – no extremo, desembocando em tendências suicidas. Arqui-conhecidos, estes dispensam maiores explicações.

O propósito da TCC é virar todas ou quaisquer dessas condições pelo avesso.

Colocar a TCC em prática, porém, não é tarefa fácil. Achar uma melhor opção dentre tantas é como buscar uma agulha num palheiro. No próximo post tenciono ajudar você a encontrá-la.

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1 comentário
  1. Preciso de ajuda para orientação de como combater e tratar a dor crônica, principalmente tendinite no ombro e quadríceps!
    Obrigado, um abraço!
    Feliz Ano Novo

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