Tratamento da dor crônica – o melhor versus o possível

Tratamento da dor crônica – o melhor versus o possível

Nos últimos cem anos os terráqueos passaram a depender – doentiamente, aliás – da medicina convencional e da farmacologia comercial para curar doenças e aliviar dores. Mas, essa dependência tem limites e está se reduzindo enquanto as doenças e dores crônicas crescem. Que tipo de tratamento pode vir a resolver isso?

“O ótimo é inimigo do bom”.

Cdte. Rolim Amaro

Como já aventado em posts anteriores, atualmente não existe um tratamento tipo “padrão ouro” para a dor crônica. Primeiro, porque no seu caso, a farmácia não dá conta. Muitas dores são aliviadas com analgésicos em questão de horas, ou minutos. Nós, mortais, estamos viciados na mecânica “sente dor – passa na farmácia – esquece do assunto”; e os médicos em fomentá-la. O “crônico”, porém, não responde bem a isso, é persistente, está encravado no organismo, e acima de tudo “mora na cabeça” do doente. E não porque ele ou ela imagine a sua dor, mas porque toda dor efetivamente é comandada pelo cérebro.

Desvendar os fatores que contribuem para a intensidade, permanência, intermitência, recorrência… de uma dor que persiste há meses ou anos, requer ir além da avaliação de seus contribuintes físicos. Significa que o médico deve dedicar atenção à interferência da dor na vida do paciente, ao seu humor e a uma miríade de fatores sociais e psicológicos. Questões delicadas, que incluem tudo, desde sofrer trauma físico até depressão, distúrbios mentais muitas vezes enraizados ou mesmo perdidos na nebulosa do subconsciente, ou sobre os quais o paciente simplesmente não quer falar. Precisa de disposição e tempo para tudo isso. Supondo que Hipócrates seja levado à sério, apenas o segundo conta. E conta decisivamente: o médico típico vive correndo atrás de alguma coisa. Ele ou ela carece de tempo, no trabalho, na família e até para cuidar de si mesmo. Não é por nada que as taxas de burnout e de depressão na classe médica em todo o mundo hoje são “objetos de desejo” da pesquisa científica.

“Não é de admirar que a empatia (em relação ao paciente) seja vencida no mundo real da medicina clínica; tudo o que a empatia exige parece prejudicar a sobrevivência diária.”

Danielle Ofri, What Doctors Feel: How Emotions Affect the Practice of Medicine

Mas suponhamos que as áreas de preocupação do paciente são identificadas. Idealmente, nesse ponto este passa a ser tratado por uma equipe multidisciplinar, formada por vários profissionais da saúde, liderada por um médico e que combina várias terapias (ex.: medicação, terapia comportamental, educação, fisioterapia). Isso porque até aqui esse tipo de tratamento é o que, segundo vários pesquisadores, o único que tem conseguido trazer algum alívio à dor crônica. Maravilha!

Nem tanto, surgem aqui dois bloqueios comprovadamente sérios. Primeiro, um tratamento desses, bem feito, está ao alcance de poucos, muito poucos. E segundo, um psicólogo da dor realmente pode ajudar o paciente a repensar a dor e encontrar maneiras diferentes de lidar e conviver com ela. Mas isso, de novo, se ele deixar… e isso é incomum. O estigma de “o problema mental” paira sobre o encaminhamento à psicoterapia e muitas vezes o bloqueia no ponto de partida. Exemplo: um projeto de pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiânia, publicado em 2014, abrangeu 230 pacientes do ambulatório de Ginecologia do Hospital das Clínicas dessa universidade. Nada menos que 75% das pacientes com recomendação para receber ajuda psicoterápica a rejeitaram, dificultando a alta do ambulatório.

Onde fica o paciente no meio de tudo isso? No meio da rua, sem lenço nem documento. O que, para alguns pode até ser bom. Uma situação extrema, quando todas as portas se fecham, pode ser pedagógica. Calma, não estou desmerecendo a seriedade de uma doença ou de uma dor crônica, eu já explico.

Nos últimos cem anos os terráqueos passaram a depender – doentiamente, aliás – da medicina convencional e da farmacologia comercial para curar doenças e aliviar dores. (Basicamente desde a descoberta da penicilina em 1928, embora eu diria que tudo começou com a descoberta do ácido tartárico, por Pasteur, no século anterior.) Mas, essa dependência tem limites e estes estão sendo atingidos. As doenças que a biotecnologia ainda não liquidou são as mais complexas, alguns antibióticos estão ficando inúteis… e as dores crônicas, ou inexplicáveis, não param de crescer. Por que você acha que as diretrizes de saúde pública em países desenvolvidos como os da América do Norte, da União Europeia e do Reino Unido estão mirando a autogestão da dor crônica? Por que uma certa “medicina baseada no paciente” está começando a ser “vendida” como diferencial pelos melhores hospitais? Resposta: porque está sendo cada vez mais urgente repassar os cuidados exigidos pelas doenças crônicas para as mãos de quem conhece melhor o território – o próprio corpo – e sabe também melhor como montar seu próprio tratamento multimodal em escala individual. E esse não é o médico, nem o farmacêutico. É você. Está na hora de se convencer disso.

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