Uma breve estória da dor – Parte 1

Uma breve estória da dor – Parte 1

Como produzimos dor e porque convém ao paciente saber disso.

“A dor é a raiz do conhecimento.”

Simone Veil
Esse novo médico que eu estava testando parecia afável. Ele até sorria. Nada mal, para começar – eu pensei. Ou melhor, para recomeçar a minha periódica via crucis em busca de algo que aliviasse uma dor que há tempos, ia e vinha, subia e descia, caprichosamente, pelas minhas costas.

Bem, eu… está doendo aqui – eu respondi, apontando desengonçadamente para algum lugar atrás de mim.

Não, não – disse o médico, ainda afável. Eu quero saber como você sente dor?

Eu sinto que dói, ué! Dói muito e quando…

Desculpe… ele me cortou. De novo… como você acha que sente dor? Não a sua dor, mas “a” dor. A dor em geral. Qualquer dor. Como você acha que ela acontece?

Como eu… acho que… Ora, doutor… – aquilo estava me deixando confuso – …eu apenas sinto… dor… uma dor – uma dor muito minha, por demais – aqui ó… – e apontei novamente para o infinito atrás de mim.

O médico negou com a cabeça e, a essa altura, algo me dizia que, mais uma vez, eu errara… de médico.

Mas ele parecia interessado. Interessado em mim, ou na minha resposta. Coisa rara no ramo. E eu já tinha pago a consulta.

Vamos fazer o seguinte, então – ele decretou, clicando no teclado que havia em cima da sua mesa. Uma tela se iluminou na parede. Nela, um desenho que, à primeira vista, me pareceu algo pornográfico.

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O médico continuou: Antes de examiná-lo, eu vou lhe passar algumas informações sobre a dor. Sua dor, ou a de qualquer um. Isso pode ajudar na sua recuperação.

Eu não via como isso podia ser, mas nada disse.

Você sabe quem foi Descartes? – o médico inquiriu.

Estava ficando pior. Eu suspirei.

Bem, Descartes é o inventor desse desenho aqui – decretou o médico, pacientemente. O sujeito era filósofo, mas isso não vem ao caso – agregou, se virando para a tela. O fogo está queimando o pé do Fulano, não está? Bem, isso dói e ele, o Descartes, lá pelos anos 1640, foi o primeiro a imaginar que a dor ia do local onde é sentida, para cima, para o cérebro. E para quê? Para obrigá-lo a nos proteger antes do pior – retirando o pé do fogo, por exemplo.

A dor é um alarme, então?

Essa dor, sim. Mas deixa eu continuar. Com o tempo veio se segmentar o percurso da dor, do estímulo no local até o cérebro. O que vimos é a primeira etapa… quando um estímulo térmico, como aqui, ou mecânico, ou químico, irrita uns nervinhos sensíveis que nós temos espalhados pelo corpo todo. Uma irritação que piora quando certas substâncias químicas chegam no local – neurotransmissores, serotonina, histamina, nem queira saber! Tudo isso chamamos de Transdução.

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Ah, então é após essa etapa que o Fulano sente dor! – eu concluí, mais por educação do que por interesse. Nem imaginava onde o outro queria chegar.

Não, ainda não – o médico replicou.

Como assim?

Paciência. Até aí ninguém sabe de nada.

Mas está doendo! O fogo…

Não está, não! Como poderia? O cérebro ainda está por fora.

???!!!!!!

Claro! Para essa energia térmica, mecânica etc…. se transformar num sinal de perigo capaz de chamar a atenção do Sistema Nervoso Central – esse que vai até o cérebro –, ela deve ser transformada em um Potencial de Ação, entendeu?

Piorou de vez. Mas diante da minha perplexidade, ele agregou: Ora, Potencial de Ação é algo que acontece no nervo e que provoca nele um “spike” ou um “impulso”. É uma explosão de atividade elétrica, vamos!

Se o estímulo tiver sido leve, nada de explosão, nem de ameaça. Caso contrário…

O que há?

O nervo gera e repassa a descarga elétrica para cima. Pronto.

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Eis a Condução, a segunda etapa do processo…

E repassa pra onde? Como?

Para cima, pelo sistema nervoso. Temos 75 km de nervos prontos a transmitir informação ao cérebro.

E lá em cima, no cérebro, o que acontece?

Ainda nada. Aquele impulso elétrico está sendo transmitido… É a terceira etapa, a da Transmissão, entendeu?

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Como se vê, ele está apenas a caminho do cérebro, no corno dorsal… O médico se deteve, pensativo.

E aí? – eu inquiri, curioso diante da hesitação.

Bem, no percurso ocorrem coisas muito estranhas que afetam a transmissão – ele disse, com ar mais estranho ainda.

Estranhas, como?

Uma corrente neural ascendente pugna por levar o sinal de perigo para cima, e outra faz força para inibi-lo. É como se o cérebro colocasse guardas de fronteira, deixando passar somente neurônios suficientemente qualificados para causar dor. Eu estou simplificando ao máximo porque esse processo de “ajuste do sinal de perigo” ocorre em diversos lugares da Transmissão e envolve mecanismos endógenos e exógenos e…

Ele se deteve, talvez reconhecendo ter ido longe demais na explicação.

Bem, essa etapa chama “Modulação”e…

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Ah, então aí já sentimos dor?

Não, calma. Quando os neurônios conseguem alcançar a parte superior do cérebro, um sinal de perigo bate primeiro no tálamo e este o decodifica e depois distribui para várias outras regiões do cérebro.

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O córtex sensório-motor, o córtex insular e o cingulado anterior, por exemplo, percebem a sensação desagradável e a localizam numa região do corpo. A amígdala e o hipotálamo geram um senso de urgência e intensidade, e por aí vai. Eu sei que poucos sabem do córtex insular, do cingulado anterior etc…. mas vai por mim, essas partes existem… e participam na última etapa, a da Percepção da dor.

Eu assenti, meio sem jeito. Afinal, sabia do cérebro – aliás, do meu cérebro – o que quase todo mundo sabe, ou seja, quase nada.

Convém dizer, contudo, que isso é a ponta do iceberg – o médico prosseguiu. A participação de regiões e sub-regiões cerebrais na percepção da dor ainda está engatinhando. A dor é um negócio complexo, sabia?

E aproveitando o meu silêncio, agregou:

Ora, basta com você entender que tanto o córtex, a parte racional, quanto o sistema límbico, o nosso “cérebro emocional”, participam juntos – muito juntos, mesmo – da percepção da dor. Portanto, a dor resulta de algo mais que uma sensação física. Quando alguém exclama: Aiiiii!, o que há por trás desse grito são também emoções, cognições, experiências passadas, estado de ânimo etc. Certo?

E isso, ou mais ou menos isso, foi tudo nessa primeira consulta. Após ele prescrever um analgésico para eu aliviar a minha dor – por enquanto, advertiu –, nos despedimos. Ah, e pediu também para eu ler sobre o que tínhamos conversado. “Entre no Google…”, ele disse, “…e vai fuçando. Aprenda sobre dor. E na próxima consulta, daqui a um mês, me conta o que achou. Isso vai ajudar na sua recuperação”, agregou. Eu não via como. Ninguém se cura lendo o que for, nem a Bíblia. Mas enfim, tratava-se da minha dor e aquela mesma noite, mesmo confuso, decidi atender ao pedido do médico. Quem sabe aquilo dava em alguma coisa.

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