Uma breve estória da dor – Parte 2

Uma breve estória da dor – Parte 2

Assim que sentei diante do médico fui logo falando.

– Três coisas, doutor. Aprendi três coisas. Sobre a dor, claro. A primeira: a dor não é um evento, mas um processo… aquele que você me mostrou antes, o do desenho do Descartes…

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

– Ora, só para constar – ele interrompeu, meio sem graça – esse não era o Descartes. Um filósofo e matemático famoso que nem ele, andar pelado por aí… já pensou?

Bem, de fato eu não pensara. Relevei.

– A dor… repetindo… não é um evento 100% causado por um estímulo externo. É o produto de um processo de cinco etapas. Se você cortar um dedo na cozinha, a partir do momento que se produz a ferida, zilhões de neurônios irão tentar carregar um sinal de perigo que “se” chegar até o cérebro poderá resultar em “mais ou menos” dor. “Se” chegar, porque no percurso nervoso haverá comportas (forças excitatórias e inibitórias se degladiando) que podem bloquear a passagem dos sinais de perigo. E “mais ou menos” dor, porque essa pugna acaba por modular esses sinais. Ou seja, a dor que deveria ser sentida um nano-microsegundo após cortar o dedo não é necessariamente a mesma que a dor que você irá sentir… dois nano-microsegundos depois, uma vez completado o processo.1

Esperei por palmas, que não houve. O médico apenas acenou com a cabeça, encorajando-me a seguir.

– Resumindo: achado um…

a dor é um processo comandado pelo cérebro (e não pela pele lesionada, como muita gente pensa).

– A pele… o tecido, você quer dizer… – disse o outro, adotando um tom pedagógico.

– A pele é externa, e quando temos dor de barriga pode ser por conta de uma lesão num tecido interno, certo?

– É mesmo? – eu tampouco pensara nisso.

– Enfim, a dor é um produto do cérebro… Não significa que seja imaginária, em todo caso. Ela é real, mas sua localização, intensidade, qualidade etc. é determinada pelo cérebro. OK?

– E isso é importante?

– Ainda não sei, mas achei legal… Você conclui que a “dor não é igual a dano”, não é? Você pode ter uma hérnia de disco toda estropeada e não ter dor nas costas. E tem mais, eu posso ter a mesma hérnia, identicamente estropeada, e nem me aguentar de tanta dor. Legal. E isso, por causa da tal da modulação.

Depois dessa, palmas garantidas, pensei.

Errei. O médico hesitou por uns segundos e inquiriu:

– E para que tudo isso?

– Tudo o que?

– Esse processo, o da dor. Zilhões de neurônios sinapseando loucamente ao longo de quilômetros de nervinhos microscópicos e outros nem tanto até chegar no cérebro em coisa de um nanosegundo… para que tudo isso?

Que pergunta idiota!, pensei. Mas eu não sabia a resposta. Talvez não fosse tão idiota, então. Ou talvez o idiota fosse eu. Sei lá.

– Para proteger você, ué! – o médico respondeu por mim.

– Sem dor, o sujeito do cartaz do Descartes não tirava o pé do fogo, tirava? A dor é um alerta, um alarme…

– Sei, um alarme de que algo no corpo anda mal – assenti.

Muita gente no Google mencionava isso: a dor é um alarme. Soava como um mantra: “A dor é um alarme”. “A dor é um alarme” – dava para imaginar os carecas do Hare Krishna pelas esquinas, repetindo: “A dor é um alarme. A dor…”.

Podia ser, mas não para mim.

REIVINDICAÇÕES EXTRAORDINÁRIAS REQUEREM EVIDÊNCIAS EXTRAORDINÁRIAS

Carl Sagan, astrônomo
…e suponho que era essa a sua terceira conclusão. O outro terminava então um discurso que eu não ouvira, perdido nisso de que a dor é um alarme, a dor é um…

– Sim e não – eu respondi.

Ganhei um olhar curioso. Ou surpreso? Era óbvio que o médico montara um roteiro que fatalmente concluísse nesses três pontos:

a dor é feita pelo cérebro,
a dor é modulada,
a dor é um alarme.

E que eu mesmo os deduzisse, claro. Muito didático. Mas como aquilo – aprender sobre dor – ajudaria a minha recuperação? Eu ainda não sabia.

– Doutor, reconheço que após este último mês eu fiquei mais sábio, mas nem por isso mais aliviado – eu me animei a dizer.

– A minha dor continua bem aqui, ó… eu disse, apontando como pude para minha escápula direita.

– Exatamente – retrucou o médico, com expressão sabichona.

– Como assim? Então a dor é um alarme fajuto. Eu tenho essa dor há anos! De que me serve saber…

– Exatamente – ouvi novamente.

Isso estava me chateando. Tem médicos e médicos, mas esse aí…

– Acalme-se – o outro contemporizou.

– De fato, a sua dor não é mais um alarme. E sabe por quê?

?????!!!!!!

– Porque a sua dor é crônica. Você não cortou um dedo na cozinha. Nesse caso, o tal processo funcionando bem, você estaria curado. Ocorre que, no seu caso, azar seu, ele funcionou mal.

– Azar meu? O que eu fiz? Não bebo, não fumo, não… – parei por aí, o meu estoque de negativas acabara.

– Lembra dessa pugna entre neurônios ascendentes e descendentes quando sinais de perigo são enviados ao cérebro pelas vias do sistema nervoso? – o médico interveio, após um silêncio opressor.

– O seu segundo achado, certo? Bem, normalmente essas forças neurais se entendem e negociam um acordo sobre o tipo de dor que a pessoa pode vir a ter. Em seguida diversas regiões do cérebro trocam ideias sobre isso e pronto, dor habemus! Até aí, tudo bem? Quer um copo d’água?

Eu neguei com a cabeça.

– No caso da dor crônica, por razões ainda difusas, aquela negociação não dá certo. Os neurônios que querem excitar os sinais de perigo, amplificá-los… os ascendentes… ganham a parada. Ou eles são muito fortes, ou os antagonistas, os descendentes, são muito fracos. Eu estou simplificando, simplificando… – ele advertiu.

– A coisa é bem mais complicada, mas é preciso resumir. Bem, o fato é que essa “falha” neural engana o cérebro. Como? Mostrando perigo onde não existe, ou muita ameaça onde não há tanta. E o cérebro, enganado que é, decreta dor. Eis a dor crônica.

EU TENHO MÁS NOTÍCIAS PARA VOCÊ. NÃO, ESPERA! EU SOMENTE TENHO MÁS NOTICIAS PARA VOCÊ.

Rick Riordan, Magnus Chase e a Nave dos Mortos.
Silêncio.

– Diferente da dor aguda, ela não cicatriza, por assim dizer.

Mais silêncio.

– E aí, o tal do alarme fica disparando o tempo todo… à toa. E não há o que fazer quanto a isso.

– Está me dizendo que essa dor, a crônica, é incurável? – eu intervim por fim, saindo a duras penas do meu transe.

– É persistente.

– Ora doutor… incurável… persistente… é a mesma coisa. – Eu reagi.

– Não é. Quando você diz “incurável”, o seu cérebro memoriza “DESGRAÇA”. Isso alimenta sua dor. Já “persistente” arquiva-se em “DESCONFORTO”. Desgraça não se suporta. Com desconforto pode-se coexistir.

Achei o comentário infantil, pedestre… O que poderia ter a ver a semântica com a dor?

– Então, eis a má noticia – o médico prosseguiu. A sua dor nas costas crônica veio para ficar. A boa é que, à diferença do câncer, que também é uma doença crônica, essa sua dor crônica não mata, não fere e pode-se perfeitamente conviver com ela. Interessado?

Eu não atinava a nada, ainda travado naquilo de “doença incurável”. Aos 40 anos…

– Eu sei o que está pensando – disse então o médico, em tom amigável.

– Que deve haver algum remédio contra a sua dor… que o próximo médico que você consultar talvez o conheça… Bem, esqueça. Não há uma bala de prata capaz de liquidar a dor crônica.

– Água?

INFELIZMENTE, SOMENTE CATÁSTROFES AJUDAM A ENFRENTAR PROBLEMAS IMPOSSÍVEIS DE RESOLVER.

David Ignatius, Associate Editor, Washington Post
– Então…?

– Então voltemos a seu aprendizado em dor. Aproveite-o. Pense positivo: agora você já sabe o que tem, dor nas costas crônica inespecífica chama isso. Pronto. Acabou a incerteza. Não mais ortopedistas olhando suas ressonâncias magnéticas com cara de paisagem, nem acupunturistas, fisioterapeutas e massagistas tentando o impossível.

– Imagine quanta economia de tempo e dinheiro de agora em diante!

– E tem mais. Pense comigo. Suponhamos que você não esteja ferido no corpo: músculos, ossos, vísceras, etc. E mesmo assim doem suas costas o tempo todo… onde mais a causa da sua dor poderia estar?

Eu não conseguia raciocinar. Essa pergunta parecia retirada de um concurso de TV, “O seu primeiro milhão”, ou algo assim. Numa hora dessas!

– Seguro que você não quer um copo d’água? – ouvi, longe, o médico perguntar.

A consulta acabou por aí. Apenas lembro que o médico me passou um papel (que imaginei fosse outra prescrição) e disse para retornar dentro de um mês. E que eu deveria continuar lendo sobre dor. Eu precisava confirmar o que ouvira, ele disse. Precisava, aquilo fazia parte do tratamento. Ora, que tratamento?

Chegando em casa desmarquei a consulta.

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