Uma estória urbana em tempos de Covid 19

Uma estória urbana em tempos de Covid 19
image_pdfimage_print

Nos últimos 3 ou 4 meses no Brasil, a falta de um comando único, de uma estratégia clara, e de uma campanha de comunicação credível na condução do combate ao Covid 19, tem mantido os brasileiros e brasileiras num estado de permanente confusão. Paradoxalmente, o mais nítido e definitivo no momento nada tem a ver com comando, estratégia ou comunicação, e sim com a percepção coletiva de que a quarentena acabou, e que se não está tudo bem, ao menos está melhor do que antes. Assim sendo, o que cabe é aproveitar o momento. Este post descreve um exemplo disso.

“A alucinação de um macaco é a experiência religiosa de outro macaco”.

Charles Stross

Domingo 8:00 hs. Batidas vindas da rua. Sonolento, assomei-me a janela. O vizinho do sobradinho em frente, um pintado de amarelo com um Palio embutido. Martelando freneticamente no que pareciam ser ferros. Sim, eram ferros.

Após anos de vizinhança eu nem sabia o nome do fulano. Alguém um dia me disse que ele trabalhava no centro. Num escritório qualquer, talvez público. Morava com os pais, solteiro e discreto. Nem camiseta de um time qualquer eu tinha visto ele usar.

Enfim, ninguém na rua, fui ver de que se tratava.

Era um artefato indefinido, ferros e canos para todo lado, que o fulano dobrava, um a um, com golpes. O Palio, agora na rua, tinha lhe cedido o lugar à frente do sobradinho.

Tac, tac, tac… tive que levantar um tanto a voz para me apresentar.

Ele pareceu surpreso, mas foi logo explicando:

“É o meu sanitizador” –  suspirou, apontando para a coisa com expressão orgulhosa.

Seu sani… – Uma estrutura de ferros retorcidos levantando uns dois metros do chão e que terminava em… nada? eu avaliei, cético.

O vizinho adivinhou o meu pensamento e se apressou em colocar uma tampa de latão cheia de buracos, tipo chuveiro do século passado, na parte de cima. Como se esse toque explicasse tudo.

“Agora que abriu, eu tomo precauções. Os meus pais, você sabe, grupo de risco e tal.”

Falei nada.

“É para quando eu voltar para casa, sabe? O isolamento acabou e tá tudo normal, não é? Agora dá para sair, shoppings abertos, academia, vou cortar o meu cabelo… você já viu como ele cresceu nesses dois meses… assim que terminar aqui vou ligar para o Fifi, para marcar…”

Silêncio.

“Olha, eu chamo de sanitizador, ou sanitizer – soa melhor – entendeu?”

Eu nada.

“Uma ducha sanitária, vai!” – ele disparou, impaciente. “Ao voltar para casa eu vou tirar a roupa e me sanitizar aqui, viu?”

E ato seguido fez o prato do chuveiro pousar na sua cabeça, para me mostrar como seria.

E foi justificando:

“Esse vírus tem aproximadamente 50 nanômetros de diâmetro, sabia disso?”

?!?!?!?!?!?!?

“Eu ouvi desses médicos na TV. Pense comigo: 50 nanômetros de diâmetro! Já pensou?”

Não, eu não tinha pensado. Até porque nem imaginava o que fosse um nanômetro. Talvez algo relacionado a um milímetro…

“Ora, ele, esse vírus, entra em qualquer parte.” Foi o que eu guardei.

“E onde você vai colocar a roupa?” – melhor mudar de tema, pensei.

“Eu vou jogar nessa caixa aqui”, ele disse, apontando para um canto próximo, ora vazio.

“De papelão”, explicou. “O plástico guarda o vírus durante 3 dias, rapaz. No papelão… bem, não lembro exatamente, mas com certeza é menos, é menos… Eu li. Está tudo calculado.”

“E os sapatos?”, perguntei.

“Ah, esses vão para o microondas. Tem um comercial da… sei lá de quem… mostrando isso. e eles vendem o microondas também.”

“E os vizinhos. Não irão estranhar ver você pelado todo dia, na mesma hora?”, indaguei.

“Ora, a saúde da família vem primeiro. Eu não posso contaminar o velho, posso? Ele tem 67 anos, pô! Você sabe quais são as chances de alguém com essa idade sair vivo da UTI, o ventilador e tudo isso?”

Eu não sabia. Apenas tinha lido por aí que 60% das hospitalizações afetavam idosos acima de 65 anos, mas…

“Trinta. Trinta por cento, na melhor hipótese”, ele decretou solene, o olhar perdido no fim da rua.

“E olha que eu assisti pela TV um médico de uma UTI dizer que a chance não passava de 15% por cento. Já pensou? De um hospital, o velho não sai de lá mais.” – ele disse, definitivo.

“E você vai se duchar com água fria?” – eu quis saber. “O inverno está chegando e…”

“Claro que não. Está vendo esse buraco aqui” – ele apontou, mostrando um orifício recém aberto na parede. “Ele vai dar na sala. Eu vou passar um cano por aqui e levá-lo até a cozinha. Lá tem água quente.”

“E a sua mãe?”

“O que tem ela?”

“Não vai achar ruim isso de um tubo atravessar a sala e ir parar na pia dela?”

“Pode ser. Porém, é complicado levar o tubo para o segundo andar. Já pensei nisso.” Ele ficou absorto uns segundo, como repensando a possibilidade, mas ao cabo de uns segundos negou com a cabeça.

“Não, não dá. E por outro lado, a velha tem que fazer a parte dela. É certo que ela está imune ao vírus, porém…”

“Como assim, ela já pegou…?”

“Não, mas eu li que a mulher tem a metade das chances de pegar o vírus em comparação ao homem. Que nem eu, que tenho 35 anos. O vírus quase não pega em mim, sabia? O velho que é o problema. Por isso, tenho que prevenir…” – ele suspirou, atacando furiosamente um dos ferros da estrutura que teimava em não se dobrar como deveria.

Eu olhei para o invento. Uma estrutura parecida com a Torre Eiffel depois do ataque do Godzilla. Imaginei o tubo derrubando o floreiro da sala, e os vizinhos todos, atentos ao horário do banho do vizinho… para então exclamar “Como é que pode!”, sem tirar os olhos da cena, claro.

“E não seria melhor, quem sabe, ficar…uhhh, mais tempo em casa? ‘Fique em casa’, lembra?”

Ele olhou para mim de maneira estranha, espremendo os olhos. Como se eu lhe propusesse comer algo estragado.

“Como assim? Tá tudo liberado, não está sabendo? E ‘tudo com base na ciência’ e tal. Tem que confiar nos homens, tem que confiar…”

Eu não quis argumentar em contrário. Até porque eu mesmo estava confuso com isso de flexibilizar o isolamento social enquanto os mortos pela Covid 19 batiam recordes diariamente. Um contrassenso,  mas enfim…

“Não, o liberou geral veio para ficar, meu amigo. A turma cansou, pronto. O governo sacou que ia ser atropelado e fez como que autorizou? Autorizou nada! E eu vou nessa. Normalizar, cortar o cabelo, ir no shopping, sair para a balada… quero ver proibir de novo!”

Pausa.

“Agora, sem desproteger a família. Isso vem primeiro. Ou segundo…” – ele foi falando em voz alta, pensativo, como querendo convencer a si mesmo.

Foram somente uns segundos, porém. Depois o meu vizinho disse:

“Daria para você me alcançar o martelo, que eu não posso largar desse ferro aqui…?”

Veja outros posts relacionados...

nenhum

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *