Você acha que a quarentena é um problema? Eu tenho a solução!

Você acha que a quarentena é um problema? Eu tenho a solução!
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Os tempos que correm são desafiadores não só para quem já sofre de doenças crônicas, assim como para quem convive com essa pessoa. Mas são também desafiadores para os que tiveram a sorte de estudar para curar gente, no físico e no mental. Atualmente profissionais da saúde física – médicos, enfermeiros, e até faxineiros em hospitais – já estão fazendo a sua parte, correndo riscos literalmente letais. A quarentena, todavia, traz um risco mental mais do que cientificamente comprovado e previsto, para um número enorme de pessoas que ainda não foram bater na porta de hospitais. E quem é que deveria se apresentar para reduzi-lo? Eu tenho uma proposta a esse respeito.

“We know what we are but not what we may be.”

— Ophelia in Hamlet

Hoje duas das visitantes do blog me deram uma ideia.

O que elas escreveram? A seguir, as duas mensagens, tal como recebidas. Literalmente.

A primeira, que vou chamar de ALFA:

“Bom eu tenho fibromealgia a 4 anos quando eu descobri comecei a tomar antidepressivo e deu uma sossegada na dor ai eu parei de fazer o iso dos remesios ai a quase 1ano ela voltou com mais foça dores insuportaveis q eu ate pensei e tira a minha vida prq eu nao queria sentir tanta dor ai eu entrei em depreçao quase morri agora eu ro fasendo acompanhamento com o psiquiatra e com psicóloga edeu uma aliviada nas dores ai um dia sem dor 3ou 4com dor e as vezes doi por partes e as vezes doi td mais e uma dor insuportavel vc acorda e dorme com dor e muito triste q ate hj nimguem consegui remedios para acaba de vezcom a dor e horrivel fora as pessoas de fora q acha q e so preguiça oumentira ate dos proprios familiares e fpra q os antidepressivos engordam e vc nao quer nem sair pra fora de vergonha prq as pessoas falam a 5a gorda e com tanta dor e mentira frescura e lamentavel mais e a mais pura verdade so quem sofre sabe do q eu to falando bjs”

A segunda, codinome BETA:

“Tenho dores todos os dias , Me acabo de remédios alguns até alivia .Mas não tem melhora ,Tomo 3 sertralina junto com um clonazepam 0,5 pela amanhã A tarde outro clonazepam A noite mais um clonazepam junto Com Tradazona Me ajudem não sei o que faze . Ganho pouco , De forma alguma quero perder meu emprego ! Sou da área de limpeza Agradecida”

Pouco antes eu tinha lido um artigo recém publicado pela The Lancet, a mais prestigiosa científica do mundo. Em suma, concluia-se ali o seguinte:

Fizemos uma revisão do impacto psicológico da quarentena usando três bancos de dados eletrônicos. Dos 3166 artigos encontrados, 24 estão incluídos nesta revisão. A maioria dos estudos revisados relatou efeitos psicológicos negativos, incluindo sintomas de estresse pós-traumático, confusão e raiva. Os estressores incluíram maior duração da quarentena, medos de infecção, frustração, tédio, suprimentos inadequados, informações inadequadas, perda financeira e estigma.

Até ai, tudo bem?

Ótimo, então consegue você imaginar como ALFA e BETA vão se sentir quando confinadas, uma semana, duas semanas, três…?

Aqui vem a ideia.

Montar um projeto de RESGATE DA ESPERANÇA DOS CONFINADOS durante o período do confinamento.

Para tanto você precisa de, por um lado, pessoas necessitadas de apoio psicológico. E de outro lado: profissionais capazes de suprir a necessidade delas.

O blog pode tratar do primeiro. Mensagens como as de ALFA e BETA aqui chegam todo dia, dezenas, centenas delas. Por trás de cada uma há muito provavelmente uma pessoa precisando do que os sofisticados chamam de talk therapy, ou seja, de conversar pondo para fora sentimentos, mágoas e apreensões… e depois se sentindo bem avessas por tê-lo feito e alguém ter ouvido. Ajuda psicológica, enfim. Mais ou menos isso.

E quem poderia prestar esse tipo de ajuda? Depois de muito cavilar eu concluí o seguinte: ora, o(a)s psicólogo(a)s!

Brilhante, você não acha? É que eu estava num desses meus dias…

Psicólogo(a)s, então. Tem algum de vocês por aí? E qual seria a sua parte no projeto? Adotar um confinado apreensivo, talvez já portador de doença crônica e depressivo como ALFA e BETA, e confortá-lo usando para isso tudo que foi aprendido na faculdade e na prática profissional.

Unzinho, só, já ajuda. Pouco, mas já é algo. De acordo com Conselho Federal de Psicologia (CFP), em 2018 existiam no país, 320 mil psicólogos, a maioria concentrada na região Sudeste, a mais populosa – e talvez a mais estressada. Então, dos 200 milhões de confinados no país, ao menos 320 mil poderiam proteger a sanidade mental dando ajuda psicológica de devotados profissionais dispostos a conversar pelo whatsapp, skype, ou até pombas mensageiraas ou sinais de fumaça, se for o caso. Nos tempos atuais, convenhamos, tudo vale.

“Ah, mas veja bem…” – você já notou que qualquer ideia nova é seguida por alguém falando “Porém, veja bem…”? – como é que eu vou confiar em que as identidades das pessoas necessitadas estejam certas e livres de trotes, ou intenções ainda piores?

Bem, o questionamento faz sentido. Afinal, o mesmo podem os confinados pensar de quem se diz disposto a ouvi-los. Como eles saberiam da qualificação profissional de quem está do outro lado da linha, perdão, da nuvem?

Então pensemos juntos: o que é e para que serve o Conselho Federal de Psicologia do Brasil?

Ele é uma entidade profissional com sede no Distrito Federal e sedes regionais nas capitais de dezessete estados brasileiros. Os conselhos contam com assessorias jurídicas e técnicas em psicologia. Possui regulamentação pelo Decreto 79.822 de 17 de junho de 1977.

A receita financeira dos conselhos é, essencialmente, constituída do pagamento anual de pessoas físicas e jurídicas inscritas. Essa inscrição é um requisito obrigatório para aqueles que desejam exercer a profissão no Brasil. O registro pode ser feito nas categorias de psicólogo ou psicólogo especialista. A inscrição, por sua vez, pode ser realizada por aqueles que satisfazem as condições estabelecidas pela lei 4.119 (1962) e pelo Decreto 53.464 (1964), ou seja, por detentores de diploma superior de Psicologia expedido no Brasil ou por faculdade estrangeira reconhecida no país de origem e revalidado no Brasil.

E ai, meus amigos e amigas da psicologia, essa profissão baseada no estudo científico do comportamento e da mente inventada para beneficiar a sociedade e melhorar nossas vidas. O que vocês acham?

Os psicólogos examinam as relações entre a função e o comportamento do cérebro e o ambiente e o comportamento, aplicando o que aprendem para iluminar nossa compreensão e melhorar o mundo ao nosso redor.

É o que diz a American Psychological Association. Deve ser o mesmo ao sul do Grande Muro, eu suponho.

Enfim, então está resolvido. O projeto RESGATE DA ESPERANÇA DOS CONFINADOS, ora lançado por mim, consiste em confortar gente em quarentena em vias de perder a esperança – o que fatalmente vai ocorrer aí pelo fim da segunda semana de confinamento, segundo o artigo do The Lancet.

A minha parte, a deste humilde blog, consiste em fornecer a matéria prima, ou seja, nomes e contatos (ex.: fones, correio) dos interessados que se disponham a serem confortados. A parte de vocês é tocar o barco daí em diante. Vocês tratam com seus Conselhos Estaduais como checar a legitimidade dos colegas que se apresentarem à colaborar – voluntariamente, claro – e tudo mais. E ia me esquecendo… também tratam com o Registro Civil para garantir que os interessados são quem dizem ser.

Tudo certo? Alguém pegou a ideia e está disposto a levá-la à frente? A destinar tempo a ela? A sair por aí convencendo outros profissionais do ramo a ajudar? A contatar quem quer que seja nos seus Conselhos Estaduais? A aturar um comunicado oficial de alguma autoridade médica alegando o projeto não satisfazer os requisitos da Medicina Baseada em Evidências por carecer de prova científica avalisada  por um estudo randomizado e controlado congregando ao menos meia centena de projetos semelhantes no mundo? Ou a aguentar que alguém aponte que a ética, a estética, a protética e a fonética da profissão da psicologia estaria sendo violentada?

Duvido. Que vocês topem, esclareço. É que eu nasci pessimista. A minha ideia é necessária e perfeitamente plausível no momento de exceção e estresse extremo que vivemos. Ela tem tudo para funcionar: a saúde mental do próximo como motivo, a tecnologia à mão (ligações gratuitas pela rede), o tempo (os psicólogos também estão confinados, não estão?), a estrutura (os conselhos cobram por manter os cadastros em dia, não cobram?) e acima de tudo, o manpower (320 mil profissionais somando 1,28 milhão de horas de estudo supostamente científico destinadas a melhorar o mundo ao nosso redor.)

Mas não passa de um devaneio, eu sei. Apenas isso.

Obrigado pela atenção. Etcétera.

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